Total de visualizações de página
sábado, 17 de dezembro de 2011
domingo, 9 de outubro de 2011
Estreia na Língua Polonesa
Do meu núcleo familiar, sou o último que ainda sabe contar até três ou dizer "bom dia", em polonês. Pode ser que algum primo distante, em algum lugar mais distante ainda, saiba um pouco mais que eu no idioma de nossos ancestrais. Tenho ainda uma tia muito querida, que além do português, aprendeu o italiano e o polonês maternos. Quando a visito, trocamos saudações de chegada e partida no velho e bom polaco.
Meus irmãos e os primos da minha geração decoraram bem os palavrões.
Falando em palavrões, minha introdução na língua de Mickiewicz foi, digamos, sui generis. Eu devia ter uns quatro anos, quando uma irmã de papai vinda da longínqua Erechim, mais o cunhado, a tia Anna e os filhos resolveram aparecer lá em casa. A sala foi reservada para a conversa, claro toda ela em polonês. Então, nem pensar em sequer passar por ali. E foi um blablablá naquela língua chiada, marcado pelo rude sotaque da colônia. E nós, numa outra peça da casa, sem a mínima noção do que era dito por lá. De repente, um primo sacana me perguntou se eu não queria aprender polonês. E me ensinou uma frase de três letras, que eu deveria dizer para o meu pai. Repeti-a várias vezes, com a alegria infantil de aprender algo novo. Esperando o momento certo, introduziram-me na sala, e parei diante da poltrona de papai.
Sem camisa, pés descalços, aquele bugrezinho moreno, contrastando grandemente com aquela gente clara, recebe os olhares de um azul metálico severos, pois creio que interrompi um assunto muito importante. Anos depois, soube que era sério mesmo, muito.
Papai, pergunta o que eu queria. E então, bem decoradinho, sentindo-me muito importante, com bela pronúncia, tasquei:
- Tata, dajme dupa?...
Papai trocou de cor umas dez vezes em segundos. Só não apanhei ali porque na peça ao lado formou-se enorme tumulto, com os primos rolando no chão, gritando e dando risadas. Por conseguinte, papai transferiu para eles severa bronca, bem ao estilo polaco, todo o quarteirão ouvindo. Mamãe salvou a situação dizendo que o café estava servido e a conversação interrompida retomou seu rumo, à mesa.
Aproveitando a deixa, sumi instantâneamente. Voltei a tardinha para as despedidas e papai nada falou. Alguns dias depois ele começou a me ensinar os números, a Ave Maria, o sinal da cruz e algumas outras palavras, compondo parte da minha cultura polaca.
Ah, sim, a minha frase... a minha frase... como vou traduzir... Bem, eu singelamente, perguntei se papai não estava a fim de me dar o c...
Meus irmãos e os primos da minha geração decoraram bem os palavrões.
Falando em palavrões, minha introdução na língua de Mickiewicz foi, digamos, sui generis. Eu devia ter uns quatro anos, quando uma irmã de papai vinda da longínqua Erechim, mais o cunhado, a tia Anna e os filhos resolveram aparecer lá em casa. A sala foi reservada para a conversa, claro toda ela em polonês. Então, nem pensar em sequer passar por ali. E foi um blablablá naquela língua chiada, marcado pelo rude sotaque da colônia. E nós, numa outra peça da casa, sem a mínima noção do que era dito por lá. De repente, um primo sacana me perguntou se eu não queria aprender polonês. E me ensinou uma frase de três letras, que eu deveria dizer para o meu pai. Repeti-a várias vezes, com a alegria infantil de aprender algo novo. Esperando o momento certo, introduziram-me na sala, e parei diante da poltrona de papai.
Sem camisa, pés descalços, aquele bugrezinho moreno, contrastando grandemente com aquela gente clara, recebe os olhares de um azul metálico severos, pois creio que interrompi um assunto muito importante. Anos depois, soube que era sério mesmo, muito.
Papai, pergunta o que eu queria. E então, bem decoradinho, sentindo-me muito importante, com bela pronúncia, tasquei:
- Tata, dajme dupa?...
Papai trocou de cor umas dez vezes em segundos. Só não apanhei ali porque na peça ao lado formou-se enorme tumulto, com os primos rolando no chão, gritando e dando risadas. Por conseguinte, papai transferiu para eles severa bronca, bem ao estilo polaco, todo o quarteirão ouvindo. Mamãe salvou a situação dizendo que o café estava servido e a conversação interrompida retomou seu rumo, à mesa.
Aproveitando a deixa, sumi instantâneamente. Voltei a tardinha para as despedidas e papai nada falou. Alguns dias depois ele começou a me ensinar os números, a Ave Maria, o sinal da cruz e algumas outras palavras, compondo parte da minha cultura polaca.
Ah, sim, a minha frase... a minha frase... como vou traduzir... Bem, eu singelamente, perguntei se papai não estava a fim de me dar o c...
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Famílias Polonesas de Porto Alegre - Jung
O patriarca August Jung resolveu tirar uma foto só com os filhos homens. Chegou de Zyrardów em 1890.
Bronislaw (Bruno) e Ludwik Jung estão de pé. Os meninos são Pedro e Henrique. Deixaram vasta descendência, com pessoas ainda sócios da Sociedade Polônia de Porto Alegre.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
20 de Setembro Alternativo do Piquete do Tio Estacio
20 de Setembro Alternativo do Piquete do Tio Estacio
5h Chimarrão com losna pra enfrenta o traguedo do dia. Pras muié, mate com carqueja. Alimenta as criação. Leite com mogango pra criançada.
6h Hasteamento da Bandeira ao som do Hino Guasca e uns acordes do Hino Nacional.
6h30 Leitura da cartilha do MTG (Mundo todo Guasca). Recolhimento dos talher e revólveres dos convidados (nunca se sabe).
7h Tertúlias com a dupla Gritedo dos Pago.
8h Prepará as costela pro assado guasca.
8h30 Abertura do primeiro garrafão com a azulzinha de Santo Antônio da Patrulha.
9h Recepção ao patrão do CTG Resbalando no Esterco e comitiva guasca.
10h Sarau com as prenda da terceira idade. Animação Os Guampas da Cancela. Tio Estacio no Vocal e guitarras. Abertura festiva do quinto garrafão com a Branquinha de Águas Claras.
11h Apartá a primeira peleia entre os sócios Gonçalvino e Unofrino.
11h15 Apartá a segunda peleia entre os parentes do Gonçalvino e do Unofrino.
11h30 Abertura do vigésimo terceiro garrafão com Marisqueira de Torres.
11h45 Deixá por conta o Gonçalvino e o Unofrino que que se pegaram de novo, desta vez com os espetos do churrasco.
Meio-Dia Chamar a ambulância pra recolher o que sobrou do Gonçalvino e Unofrino (os parentes foram brigando dentro do veículo).
12h 30 - Formação da primeira (cavalgada) expedição canheira em busca de mais garrafões.
13h - Recepção das otoridades para o churrasco.
13h15 - Show de Xula e Dança dos Facões com o grupo Sapatiando nas Bosta
13h30 Chamar a ambulância pra atendimento aos feridos na Dança dos Facões
14h - Foguetório com a chegada da Expedição Canheira e seus 50 Garrafões
14h5 - Serve-se o churrasco guasca para os homens
14h50 - Serve-se as crianças
15h30 - Ossos guasca para a cuscada
15h55 - Servem-se as muié.
16h - Desfile do Piquete na Avenida
16h5 Correria no piquete. O borracho da vez que cuidava da chama, apaga e derruba a dita cuja.
16h10 - Reacesa a chama o povo se manda pra avenida. As muié vão roendo os ossinhos no caminho.
16h 30 - Passagem triunfal do Piquete do Tio Estácio no desfile. Metade dos guascas se perdeu num cruzamento e acabaram passando pelo Brique. Muitos aplausos aos perdidos.
17h - Retorno ao acampamento. Escolha de novos membros para segunda Expedição
Canheira.
18h - Reencenação da Batalha da Passo dos Dorneles. Gonçalvino e Unofrino, tapados de bandeids, lideram os dois grupos.
18h15 - Chama-se as ambulâncias
18h16 - Ambulâncias avisam que não vem mais.
18h30 - Contagem dos sobreviventes.
19h - Devido ao tratamento dos ferimentos com muita canha, nova expedição canheira é montada às pressas.
19h30 - presença de um padre pra extrema unção aos quera.
20h - Serve-se o jantar guasca com comida típica e muito arroz de china pobre pras muié.
21h - Chegada da última expedição. Prevenidos, acabaram com o estoque de alcool de duas farmácia.
21h5 - Apagamento da chama. A otoridade inventou de assoprar o negócio e, devido aos excessos do dia, o bafo véio do vivente ocasionou pequena explosão e um breve incêndio, logo dominado pelos convivas mais sóbrios.
21h15 min - Baile com o afamado Grupo Me Borrei Peleando.
21h20 min - Unofrino e Gonçalvino começam hostilidades no meio do salão
21h30 - Depois de umas bençãos, o padre ronca solto na mesa da otoridade.
22h - Pensa-se em chamar as ambulância por causa dos dedos machucados das prendinhas, de tanto pisão que levaram. Unofrino e Gonçalvino seguem se tapeando.
22h30 - As otoridades abandonam o recinto.
22h45 - Últimas marcas pra gauchada bailar
23h - Fim do baile. Entrega das armas aos viventes e logo em seguida começa o tiroteio.
23h15 - Chegada da Polícia.
23h30 - Chega o rabecão pra levar os defuntos.
Meia-noite - Recolhe-se a bandeira guasca, toma-se o resto do trago e a peonada se recolhe. Unofrino e Gonçalvino se vão pros pelêgos. De mãos dadas.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Os Poloneses - Ironias sobre a história de um concerto que aconteceu e poucos viram...
Não sei o que foi mais dolorosamente gracioso. Se o olhar angustiante dos músicos para as cadeiras vazias, ou aquele noturno de Chopin, tocado pelas mãos de um mestre (um misto de gardelon argentino, que vive na Itália, mas de raízes polonesas), num maravilhoso piano ecoando pelo salão de atos da UFRGS e não sendo registrado. Quem viu, viu. A quem não foi, choro e ranger de dentes... Ah, vale o registro, Miguel Proença esteve lá.
Em setembro de 2004, motivado pela programação das comemorações dos 130 anos da Imigração Polonesa no Rio Grande do Sul, resolvi gestionar a possibilidade de acontecer um concerto com a Orquestra Unisinos no decorrer de 2005, alusivo a data, com a presença de um músico polonês e farta distribuição de zimy nogy (não me lembro se á assim que se escreve). Apoiado pela BRASPOL-POA e FUNDAPOL, fizemos a sugestão ao departamento cultural da Universidade. Sem muitas delongas, a sugestão foi muito bem recebida. Incluíram o concerto na série oficial e nos deram ainda, duas datas a escolher: maio ou novembro. Escolhi novembro para não haver congestionamento de programações, festejos e comilanças clássicas e, ainda, pelo fato de que em Novembro há o Dia da Polônia (11/11) na capital gaúcha.
É desnecessário mencionar que o projeto, de cara já recebeu os primeiros torpedos da “inteligentzia polaca” tendo como justificativa a “inépcia” e o pouco prestígio da Orquestra da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Lembro aos colegas ligados à área da cultura olhar as últimas premiações de música aqui no estado e quem é o atual regente da Orquestra Unisinos. Acredito que ele gosta de muito de pratos eslavos, pois era o titular da Orquestra da Rádio Bratislava.
Já vacinado contra os arroubos onanísticos de alguns e o desdém puro de outros, fiquei no aguardo. Um belo dia, a Universidade me comunica que serão realizados dois concertos da série UNISINOS/UFRGS e que haveria dois músicos convidados. E o principal: de graça! Primeiro fiquei preocupado com os comes e bebes. Depois, comuniquei às autoridades polonesas de POA que o concerto saíra do papel. Aconteceria nos dias 20 e 23 de novembro de 2005. Como as despesas de estadia e cachê dos músicos seriam por conta da orquestra, tratei de arranjar o patrocínio para as despesas dos comensais. Ziwiec e Wyborowa garantiriam sua presença no concorrido evento e com certeza, forneceriam o estado de espírito necessário para apreciar Górecki, Gaurniere e Haydn. Fiquei tranqüilo e esperei.
Dia 20 de novembro aconteceu o primeiro concerto. Simplesmente maravilhoso, lindo. Os céticos não cansaram de elogiar a qualidade da orquestra e os poloneses estavam lá. Uma delegação e Nova Prata e o Vice-presidente nacional da BRASPOL, mais o Presidente da Sociedade Polônia, realçaram ainda mais a magnitude do evento. Após o concerto, os inúmeros presentes abarrotaram a sala vip do Anfiteatro Pe. Werner, para cumprimentar Bogdan Oledzki e Eduardo Hubert. Bogdan foi convidado a conhecer Nova Prata. Na terça-feira, dia 22, acompanhei o maestro a um passeio pela serra gaúcha. Esperávamos um sujeito pomposo, mas, para satisfação nossa, bem ao contrário, convivemos um dia inteiro com um senhor calmo, muito simples, religioso e atencioso para com todos. Capaz de um comentário do tipo: “Aqui Deus olha mais de perto para seus filhos...” ao ver os peraus onde os pioneiros poloneses se empoleiraram no Rio das Antas.
À noite, o maestro foi recepcionado pelos poloneses de Nova Prata, comunidade muito ativa, que mantém o grupo folclórico melhor equipado, treinado e coreografado do estado. Um digno jantar a altura da célebre hospitalidade gaúcha. Dois jovens promotores de justiça, descendentes de poloneses se fizeram presentes, além de estudiosos, pesquisadores e imprensa local. Voltamos bem tarde, embalados pelas canções e o carinho daquela cidade italiana, mas onde ainda se fala polonês.
Dia 23 de novembro, dia do concerto no salão de Atos da UFRGS. Um calor insuportável assola Porto Alegre, arrefecendo um pouco o ânimo da polacada-porto-alegrina. Mas, lá estavam impávidos o único sócio ativo da Braspol POA, o vice-presidente da Sociedade Polônia, mais a totalidade dos representantes da Igreja polonesa da cidade além de grupos de várias regiões do estado. Foi memorável! Um evento para contar por várias gerações de descendentes de poloneses que vibram intensamente com as coisas da Polônia, além das danças centenárias, festas tradicionais e costumes típicos, como os prazeres dos pratos e copos. Imagino o alcance a ser atingido nas comemorações do Sesquicentenário. Será preciso contratar mão de obra especializada pra dar conta da demanda de tanta gente ávida por cultura.
domingo, 28 de agosto de 2011
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Os poloneses - Quem mora em morro é cabra.
Este apanhado ouvi de diversos membros de uma mesma família, da qual suponho que tenha muito de verídico. Diz que um imigrante polonês, lá pelos idos de 1890 e tantos, socado nas entranhas das grotas das primitivas colônias de Santo Antônio da Patrulha, ao olhar os peraus e ribanceiras, a mataria pra desmatar, arar e plantar, desanimou e chorou... Em meio a tristeza e o arrependimento, passa sobre sua cabeça uma enorme ave que pousa num galho mais adiante.
- Me passa a espingarda mulher!! Bummm!! Ave, penas e galhos vooam pra tudo quanto é lado.
Orgulhoso, apresenta o enorme galinhão pra mulher:
- Bem que me disseram que o Brasil era terra de fartura. Apronta pra gente comer!
Enquanto a família prepara a refeição, passa um brasileiro, olha aquilo tudo e avisa o nosso polonês:
- Amigo, esta ave a gente não come, é um urubu! Vem jantar comigo hoje!
De noite, na mesa do anfitrião, entre os pratos havia aipim cozido. Estranhando o desconhecido tubérculo, o imigrante tinha verdadeiros arrepios e náuseas a cada vez que o pessoal da casa engolia a mandioca. Daqui a pouco, não se aguenta mais e exclama:
- Brasileiro é bicho bem porco mesmo, come vela com pavio e tudo!
Anos mais tarde, já vivendo em Porto Alegre, com estabelecimento pros lados da Cidade Baixa, recebe a visita de um pessoal da prefeitura que lhe comunica que vão abrir uma avenida. E que esta via passava exatamente sobre a sua loja, lhe deixando muito contrariado:
- E pra onde eu vou?
O agente lhe indica a distância de uns dois quilômetros uma colina: o Morro Ricaldone (hoje, uma das áreas mais nobres na cidade, perto da Avenida Independência). Furioso, o polaco, natural das planícies polonesas responde:
- Quem mora em morro é cabra, meu amigo. Eu vou é embora daqui!
E realmente se mandou, vivendo nas proximidades de Porto Alegre os últimos trinta anos de sua vida.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
O craque
Nas minhas mais recônditas memórias, parava eu na casa da madrinha Desolina quando rolava na praça da Rua Tunísia um jogo de futebol daqueles. Quando eu não brincava de escorregar naquele gramado, em cima de um pedaço de papelão, com meu amigo Demétrio (onde anda?), corria pro campinho, ficando de assistente. Quando alguém se machucava, aparecia o convite:
-Quer jogar?
-Sim! Arrumava as congas e me atirava dentro. Nem esperava pelo:
-Eeeentra!
Na primeira bola que sobra, meto o dedão com tudo: a redonda voa alto, forte e, caprichosamente estoura no poste, indo pra fora. Eu, vibrando com o chutaço, nem percebi o time inteiro me xingando e metendo bronca:
- O gol deles é do lado de lá, fdp...
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Frases
Li que é o título de uma peça de teatro, mas há uns dez anos eu uso sem saber quem escreveu:
"SE O MUNDO FOSSE BOM, O DONO MORAVA NELE!"
"SE O MUNDO FOSSE BOM, O DONO MORAVA NELE!"
domingo, 14 de agosto de 2011
Dia dos Pais
Passou mais um dia dos pais e, pela 26a. vez lamentei não poder te dar um abraço ou um beijo, como sempre fazia nas idas e vindas.
Recordo do último dia dos pais que passamos juntos e do presente que te dei. Era uma mensagem religiosa. Até hoje tenho esse cartazinho. Tá se desmanchando todo numa caixinha.
Recordo do último dia dos pais que passamos juntos e do presente que te dei. Era uma mensagem religiosa. Até hoje tenho esse cartazinho. Tá se desmanchando todo numa caixinha.
Sabe pai, é o dia em que penso nas palavras não ditas, nos silêncios prolongados e nos diálogos que abandonamos pelo meio, tamanha a distância dos mundos que vivíamos, apesar de habitarmos sob o mesmo teto.
Melhoro um pouco ao receber o carinho da minha filha, tua netinha. E da experiência de ser um Pai para alguém, vejo aquela nossa convivência com outros olhos, com outro coração também.
Sabe pai, sou outro homem hoje e, talvez por isso, tenho compreendido melhor o teu jeito e as nossas rusgas.
Só assim posso dimensionar a extensão da tua ausência nesses anos e uma pontada de saudade bate com força quando num pequeno vislumbre sinto o teu olhar, recordo uma pequena nota da tua voz ou a maneira que fazia carinho em nossos cabelos. Nessa hora repito a palavra que disse ao te beijar pela última vez: obrigado!
Só assim posso dimensionar a extensão da tua ausência nesses anos e uma pontada de saudade bate com força quando num pequeno vislumbre sinto o teu olhar, recordo uma pequena nota da tua voz ou a maneira que fazia carinho em nossos cabelos. Nessa hora repito a palavra que disse ao te beijar pela última vez: obrigado!
E, por favor, aparece em meus sonhos de novo. Conforta muito tua presença neles e o abraço com que te despedes de mim é um afago que me deixa com uma sensação gostosa pelo resto da semana.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Minhas primeiras professoras
Sou daquelas pessoas que pode afirmar que foi alfabetizada em casa, especificamente sob os cuidados do pai. Nem bem tinha três anos, arranjou ele um caderno e, através de uma pedagogia antiga, foi me ensinando a somar as letras, os sons correspondentes e a formar palavras. Resultado: antes dos quatro anos, eu sabia ler e escrever. O velho até comprou um dicionário que seguidamente me fazia consultar pra melhorar o vocabulário. Somado às aulas de matemática, acabei sendo uma espécie de prodígio para a idade.
Portanto, um mês antes de eu completar os seis anos, fui com minha mãe fazer a matrícula no "Grupo Escolar América". Fomos atendidos pela secretária, senhora Maria Elvira. Enquanto ocorriam as tratativas iniciais, eu vi um livrinho na mesa, com algumas estampas. Curioso, peguei-o e, naturalmente comecei a ler. Dona Elvira percebeu. Perguntou se eu estava gostando das figurinhas. Eu disse que sim, e continuei lendo. Foi quando ela notou que eu ficava demais na mesma página pra estar vendo só uma figurinha. Desconfiada perguntou:
- Tu estás entendendo o que está escrito?
- Sim!
- Tu sabes ler?
- Sim.
- Então lê pra nós em voz alta.
Quando eu terminei o primeiro parágrafo, lido com clareza (valeu velho!!!) e segurança, percebi minha mãe orgulhosa e o olhar incrédulo de Dona Elvira. Ela sai da sala e volta com a diretora da Escola, a inesquecível Rosali Vicentini. Me pedem então que eu continue de onde parei e fui lendo, lendo e lendo...
Exibido, após fechar o livro, disse que sabia somar e diminuir e estava aprendendo a multiplicar e dividir. Deram-me então umas continhas que resolvi rapidinho, fazendo a prova dos três para ver se estava certo. Pronto, me colocaram direto na segunda série! Não lembro do meu primeiro dia de aula e da minha professora da segunda série. Na realidade, não me adaptei com a turma mais velha, alguns repetentes com uns 12 anos de idade e a tal de letra cursiva, ainda misteriosa pra mim. Passava as aulas viajando, olhando pela janela. Na segunda semana, sofri uma reprovação parando na sala B da primeira série.
Paradoxalmente ao meu estado de avanço, eu era muito desorganizado e tinha os mais lindos garranchos da turma. Quando passava a borracha pra corrigir, meu caderno ficava um verdadeiro pano de chão surrado. Teve uma vez que minha querida professora (não menciono o nome por motivos óbvios), enquanto eu escrevia, olhou meu caderno por sobre o meu ombro e indignada, puxou meus cabelos com força:
- Que letra horrível, relaxado!
Não levantei a cabeça e continuei com a escrita, os olhos cheios de água pela dor e humilhação. Talvez um dia ruim para ela, mas para mim uma recordação para a vida toda. Afora os jogos de futebol onde, pela minha ruindade eu era sempre o goleiro, não guardo nenhuma outra lembrança daquele ano de 1973.
Já no segundo ano, estava sempre a frente dos colegas pelas obrigatórias lições de casa com papai. Pela minha timidez e, eventuais estouros arianos, a turma sempre me aprontava alguma, sabendo do medo que eu tinha de chamarem meus pais à escola. E, naquele ano foram três vezes em que me vi em apuros: apanhei quando entreguei o bilhete, curti o castigo e apanhei também quando voltei pra casa, depois do sermão da professora. Estranho que minhas notas nunca baixavam do conceito Avançado, ou seja um 10 com estrelinhas. Também não vou citar o nome desta professora. Dei graças quando terminou o ano letivo.
No terceiro ano, as coisas mudaram e tive a minha primeira grande professora, a Ivone Cardoso. Adorava as aulas dela, e uma das grandes lições foi a de aprender a mastigar direito uma bala. Naquele ano, conheci outra professora bacana: Mariza Santos. Ela dava aulas de religião, montou um coral e, ainda, me recebeu em sua casa, na festa de aniversário do filho. Até hoje a visito esporadicamente. Naquele ano, acharam por bem me trocar de turma. Fui para a terceira série A, a turma dos mais adiantados. Podia ser ruim no futebol, nos romances e alvo do pessoal mais sacana da turma, mas andava de peito estufado por estar entre os melhores da minha série. Terminei o ano estudando com a professor Zílá, de quem só guardo o nome na memória. Neste ano fiz minha primeira comunhão, também adiantado. Daquela turminha da catequese, que encontrava nos sábados, tinha a professora Cleuza Maria Pokorski, a Jaqueline e a Carla Oliveira, de quem ainda sou amigo até hoje. Carla é filha de uma professora com quem nunca tive aulas, mas era muito respeitada na Escola, a professora Adeti.
No terceiro ano, as coisas mudaram e tive a minha primeira grande professora, a Ivone Cardoso. Adorava as aulas dela, e uma das grandes lições foi a de aprender a mastigar direito uma bala. Naquele ano, conheci outra professora bacana: Mariza Santos. Ela dava aulas de religião, montou um coral e, ainda, me recebeu em sua casa, na festa de aniversário do filho. Até hoje a visito esporadicamente. Naquele ano, acharam por bem me trocar de turma. Fui para a terceira série A, a turma dos mais adiantados. Podia ser ruim no futebol, nos romances e alvo do pessoal mais sacana da turma, mas andava de peito estufado por estar entre os melhores da minha série. Terminei o ano estudando com a professor Zílá, de quem só guardo o nome na memória. Neste ano fiz minha primeira comunhão, também adiantado. Daquela turminha da catequese, que encontrava nos sábados, tinha a professora Cleuza Maria Pokorski, a Jaqueline e a Carla Oliveira, de quem ainda sou amigo até hoje. Carla é filha de uma professora com quem nunca tive aulas, mas era muito respeitada na Escola, a professora Adeti.
Já na quarta série estudei com a professora Marília Goularte, irmã da Mariza. Tirando o episódio da perda da bola da turma que estava sob minha responsabilidade e das consequentes noites insones até a situação se resolver e do sarampo que me deixou uma semana em casa, estudando na cama, foi um ano bom e divertido.
Na quinta, sexta, sétima e oitava séries, as coisas se misturam na lembrança, pois nem das salas de aula recordo com clareza. Nesta ápoca aconteceu de que os rudimentos escolares de papai se esgotaram e ele não conseguia acompanhar as equações matemáticas que misturavam letras com números. Abrandaram-se as aulas em casa repercutindo nas notas finais do boletim. Começaram a aparecer os primeiros vermelhos, motivo de muita apreensão a cada fim de bimestre. A linda professora Tiê Namba, dava suas aulas de matemática ante o olhar apaixonado dos meninos. O professor de Educação Física Aramis Batastini (dizem que morreu), permitia que eu "amaciasse seus tênis novos", o que me dava uma alegria enorme ao tirar os meus bambas e congas que usava à época. Naquele tempo a gente economizava até nos guidis. Teve a Francelina Inês Hasselströn, muito querida, mães de dois filhos, amigos meus.
Tive aulas com a Terezinha Rêgo que, por motivos mais que óbvios, guardei o nome. Tive aulas de Inglês: The book on the table! Foi a única frase que aprendi. E também tive uma professora de português que possuía uma olhar esquisito e comportamento explosivo, motivos de pilhéria de toda a turma. Por fim, tivemos uma regente de oitava série, professora de história que morava no Pedrinha (Passo das Pedras). Suas aulas começavam nos livros e terminavam por discutir os problemas brasileiros, qualidade na TV, a carestia, entre tantos assuntos que davam um prazer enorme discutir. E ela nos deixava falar. Foram as melhores aulas daquele oitavo ano. Lembro dela nos paraninfando na missa de formatura, na Igreja do Pedrinha. Uma falha não recordar seu nome.
Tive aulas com a Terezinha Rêgo que, por motivos mais que óbvios, guardei o nome. Tive aulas de Inglês: The book on the table! Foi a única frase que aprendi. E também tive uma professora de português que possuía uma olhar esquisito e comportamento explosivo, motivos de pilhéria de toda a turma. Por fim, tivemos uma regente de oitava série, professora de história que morava no Pedrinha (Passo das Pedras). Suas aulas começavam nos livros e terminavam por discutir os problemas brasileiros, qualidade na TV, a carestia, entre tantos assuntos que davam um prazer enorme discutir. E ela nos deixava falar. Foram as melhores aulas daquele oitavo ano. Lembro dela nos paraninfando na missa de formatura, na Igreja do Pedrinha. Uma falha não recordar seu nome.
Recebi meu boletim das mãos da professora Mariza que ao longo daqueles anos, contou sempre comigo nas apresentações teatrais, jograis, coro, enfim, qualquer atividade aonde eu pudesse mostrar minhas habilidades artísticas que, infelizmente, na minha família ninguém percebia. Violão eu aprendi a tocar sozinho. No coral, minha voz se sobrepunha a dos demais e eu fazia bem qualquer papel nas encenações: de São Francisco ao pinheirinho de natal.
Fim do primeiro estágio. Novos vôos, professores e amores me esperavam no Dom Diogo de Souza, no ano da graça de 1981. Mas nutro um carinho mais que especial pelo meu coleginho, onde passei oito anos. De vez em quando vou lá, levar meu sobrinho e sentir aquele clima, que era o meu cotidiano infantil.
Parece que ainda me vejo caminhando despreocupado pelos seus corredores, e ouço dona Rosali me chamando com aquela voz única, inconfundível, que fazia gelar o sangue nas veias:
-Estácio Nievinski Filho! O que tu estás fazendo fora da sala?
-Vo..vo..vou.. no ba..ba..nheiro..ro.., dona Rosali...
-Vai rápido!
Dona Rosali foi uma das pessoas mais impressionantes que conheci. Grande diretora. Daquelas vocacionadas que unia rigidez e afeto, carinho e inflexibilidade no trato com os alunos. No dia do seu aniversário, 05 de abril, a escola toda se reunia em frente às bandeiras, para leitura de jograis e homenagens a ela. Enquanto transcorria o evento, recordava sempre que era aniversário de uma amada prima: Cleci Lizete. Por curiosidade do destino, ela também foi aluna da Rosali, mais de uma década antes.
Naturalmente, perdi o contato com a diretora e suas filhas, mas um dia, por acaso cruzei por ela na entrada de um Shopping. Parei e saudei imponente, voz de locutor, bem alto:
- Rosali Maria Vicentini!
Ela parou, me deu um sorriso carinhoso e quase trinta anos depois, me respondeu:
- Estácio Nievinski Filho!
Aos meus primeiros verdadeiros mestres, meu respeito e meu carinho...
PS: Hoje, 05/10/2011, ao atravessar a faixa de pedestres, na esquina da Prefeitura, reencontrei dona Rosali. Conversamos rapidamente. Ela me comunicou que se aposentou ano passado, depois de 54 anos dedicados aos magistério.
Aos meus primeiros verdadeiros mestres, meu respeito e meu carinho...
PS: Hoje, 05/10/2011, ao atravessar a faixa de pedestres, na esquina da Prefeitura, reencontrei dona Rosali. Conversamos rapidamente. Ela me comunicou que se aposentou ano passado, depois de 54 anos dedicados aos magistério.
sábado, 30 de julho de 2011
Os poloneses V - dificuldades com a língua
Graças a Getúlio Vargas, meu pai (O Estácio de verdade) apenas falava o idioma polonês. Óbvio que um polonês arcaico e tosco, mas falava. Aonde soubesse que tinha um polaco, ia lá praticar a língua de seus antepassados. Sob as instruções escolares e patrióticas de papai, meu universo geográfico de infância resumia-se a quatro capitais: Varsóvia, Brasília, Porto Alegre e Vila Áurea. Já meu avô, que foi educado antes da era Vargas e o Estado Novo, sabia ler, escrever e falar polonês.
Papai tentou me ensinar o polonês. Como não tenho nenhuma aptidão para línguas, as lições se encerraram quando tive de pronunciar "o pão nosso de cada dia nos dai hoje", da oração do Pai Nosso. A partir daí houve um hiato de longos anos até eu entrar no Coral da Sociedade Polônia e enveredar pelas pesquisas da Galeria de Ex-presidentes desta.
A senha que usava para entrar nas casas era: Niech bedie pochawalony Jezus Christus!
Ao ouvir o ancestral cumprimento, meu entrevistado ou entrevistada abria um sorriso e me respondia: Na wieki, wieków, Amen!
Nunca dominei o idioma, mas pela prática das músicas do coral, minha pronúncia até que era razoável, passando a impressão de ser íntimo das coisas polonesas. O Senhor Zenon Galecki dizia que meu polonês era do tipo: "zamkni porta, porque przenika vento". Tirando as brincadeiras, aprendi muito com os entrevistados e meus rudimentos polacos abriam certa cumplicidade que eu tanto necessitava para colher os dados da pesquisa.
Mas nada se comparou com a lição recebida da Sra. Janina Figurski, bibliotecária. Logo no início das pesquisas, cheguei cedo na sociedade e, estando ela na recepção, lasquei, como havia aprendido com os tios:
- Dzien Dobre! Jak sie masz? (Bom dia! Como tu estás?). Ouvi de sopetão a resposta:
- Nie pamiętam świń leczonych dziś! (Não me lembro de ter tratado dos porcos contigo hoje!)
Após pedir a tradução e observar mil desculpas pela minha "troglodice", recebi uma aula sobre a importância que os poloneses dão a uma espécie de protocolo ancestral, onde deve-se diferenciar as categorias logo nos cumprimentos preliminares.
Depois disso, nunca mais entrei num lar ou cumprimentei um polaco como íntimo. Sempre usei e uso o:
- Jak sie pan ma? ou
- Jak sie pani ma? (Como o Senhor - Senhora - está?)
Na Sociedade polonesa, dona Janina era conhecida como Panie Figurska (Senhora Figusrki), denominação mais que merecida, visto ser ela a maior autoridade em cultura polonesa no estado. Vi muita gente que não conhece polonês se referir a ela como: Dona Panie!!
O riso era geral!
Guardo desta senhora o entusiasmo com que me movia nas pesquisas e seus comentários sobre o que eu produzi. Seu respaldo e referência me permitiram escrever sobre a colônia polonesa de forma adequada e correta. Além da cultura geral e, especificamente da cultura polonesa, Panie Janina Figurski legou o apelido da minha filha: Anusia, o diminutivo polonês para Anna:
- Serdecznie dziękuję!
Papai tentou me ensinar o polonês. Como não tenho nenhuma aptidão para línguas, as lições se encerraram quando tive de pronunciar "o pão nosso de cada dia nos dai hoje", da oração do Pai Nosso. A partir daí houve um hiato de longos anos até eu entrar no Coral da Sociedade Polônia e enveredar pelas pesquisas da Galeria de Ex-presidentes desta.
A senha que usava para entrar nas casas era: Niech bedie pochawalony Jezus Christus!
Ao ouvir o ancestral cumprimento, meu entrevistado ou entrevistada abria um sorriso e me respondia: Na wieki, wieków, Amen!
Nunca dominei o idioma, mas pela prática das músicas do coral, minha pronúncia até que era razoável, passando a impressão de ser íntimo das coisas polonesas. O Senhor Zenon Galecki dizia que meu polonês era do tipo: "zamkni porta, porque przenika vento". Tirando as brincadeiras, aprendi muito com os entrevistados e meus rudimentos polacos abriam certa cumplicidade que eu tanto necessitava para colher os dados da pesquisa.
Mas nada se comparou com a lição recebida da Sra. Janina Figurski, bibliotecária. Logo no início das pesquisas, cheguei cedo na sociedade e, estando ela na recepção, lasquei, como havia aprendido com os tios:
- Dzien Dobre! Jak sie masz? (Bom dia! Como tu estás?). Ouvi de sopetão a resposta:
- Nie pamiętam świń leczonych dziś! (Não me lembro de ter tratado dos porcos contigo hoje!)
Após pedir a tradução e observar mil desculpas pela minha "troglodice", recebi uma aula sobre a importância que os poloneses dão a uma espécie de protocolo ancestral, onde deve-se diferenciar as categorias logo nos cumprimentos preliminares.
Depois disso, nunca mais entrei num lar ou cumprimentei um polaco como íntimo. Sempre usei e uso o:
- Jak sie pan ma? ou
- Jak sie pani ma? (Como o Senhor - Senhora - está?)
Na Sociedade polonesa, dona Janina era conhecida como Panie Figurska (Senhora Figusrki), denominação mais que merecida, visto ser ela a maior autoridade em cultura polonesa no estado. Vi muita gente que não conhece polonês se referir a ela como: Dona Panie!!
O riso era geral!
Guardo desta senhora o entusiasmo com que me movia nas pesquisas e seus comentários sobre o que eu produzi. Seu respaldo e referência me permitiram escrever sobre a colônia polonesa de forma adequada e correta. Além da cultura geral e, especificamente da cultura polonesa, Panie Janina Figurski legou o apelido da minha filha: Anusia, o diminutivo polonês para Anna:
- Serdecznie dziękuję!
terça-feira, 26 de julho de 2011
Os poloneses IV - Os ex-combatentes
Andava eu enfronhado nos livros e documentos da sociedade, e me recordo da surpresa que tinha com as informações pouco conhecidas sobre as escolas, festas, teatros, outras associações e o cotidiano dos poloneses em Porto Alegre. Mas nada mexeu tanto comigo como as menções sobre os voluntários da II Guerra. Voluntários? Nunca havia ouvido falar nisso e, como historiador amador, busquei conhecer mais sobre o tema. Minha surpresa aumentou quando, numa homenagem realizada pela Sociedade Polônia, em 1997, me deparei em carne e osso com os senhores Mieczyslaw Niemiec -que participou do Dia D, combatente ferido na Batalha de Falaise, o senhor Wojciech Plewinski - do exército nacional chamado Armia Krajowa e Marjan Zuba, voluntário do Dia D, que também tombou ferido.
Todo o menino da minha geração tinha um fascínio cativo pelos soldados. Mas aqueles não eram apenas soldados e sim, heróis de guerra. Eles realmente lutaram. Estiveram na linha de frente, diante de canhões e metralhadoras inimigas. Havia elegido três heróis da noite para o dia.
Mais adiante, fiz amizade com eles e pude entrevistar os Srs Zuba e Niemiec. Este havia sido presidente da Sociedade Polônia. Através deles fiquei sabendo que partiram em 1942, numa ampla mobilização que buscava nas Américas, recrutas para o exército polonês organizado pelo governo exilado em Londres. Ambos gostavam de conversar sobre as experiências vividas e, como minha maior qualidade é saber ouvir, aprendi muito com eles. Mais do que nos livros.
Mais adiante, fiz amizade com eles e pude entrevistar os Srs Zuba e Niemiec. Este havia sido presidente da Sociedade Polônia. Através deles fiquei sabendo que partiram em 1942, numa ampla mobilização que buscava nas Américas, recrutas para o exército polonês organizado pelo governo exilado em Londres. Ambos gostavam de conversar sobre as experiências vividas e, como minha maior qualidade é saber ouvir, aprendi muito com eles. Mais do que nos livros.
Este comportamento patriótico dos poloneses me enchia de orgulho e, era inflado dele, que dizia ter amigos que lutaram na França. Mais adiante soube que na I Guerra havia um outro grupo de poloneses que partiram daqui em socorro aos seus concidadãos, formando o Exército Azul de Haller em fins de 1917.
Ainda está vivo hoje o sr. Niemiec e as entrevistas que pude fazer foram uma experiência de vida única, muito distante do romantismo dos filmes que evocam os combates das grandes guerra. Ele dizia que aqueles soldados não lutavam contra o povo alemão, mas sim, pela " nossa e vossa liberdade".
Do senhor Zuba guardo uma pitoresca história. A escritora gaúcha Letícia Wierzchowski procurava colegas de farda do seu avô Jan que foi um destes voluntários. Nos reunimos na Sociedade Polônia e, durante duas horas ela conversou com o seu Zuba sobre as experiências deste, tentando construir o ambiente para o seu livro, Uma Ponte Para Terebin. Zuba nos passou a sensação de que os anos haviam afastado os fatos da memória e muita coisa ficou um pouca vaga. Ao final do encontro, eu e meu compadre oferecemos carona para ele. Eu fiquei no banco de trás e ele se acomodou no banco ao lado do motorista. Eu, gentil, perguntei se ele estava bem confortável. Ele me responde:
- Pra quem pilotou um tanque Cromwell, este banco é um luxo.
Como não querendo nada, pedi que me descrevesse se havia perigo em dirigir aquela arma de guerra.
- Bem, dependia de como estava a torre do canhão, pois se fossemos atingidos por um disparo, o veículo pegava fogo e, se a torre não estivesse reta, não tinha como sair, pois o espaço era apertado e o piloto morria queimado, falou ele.
- Mas, seu Zuba, o senhor foi ferido com um tiro na perna! Dentro do tanque? Provoquei...
Então, ouvimos eu e Sidnei Ordakowski o impressionante relato, de tal forma claro, que hoje (seu Zuba morreu em 2006), posso descrever quase palavra por palavra:
- Meu carro era o primeiro de uma grande coluna e, ao ultrapassarmos uma curva, não percebemos uma bateria anti-tanques que abriu fogo contra nós. O primeiro disparo atravessou o tanque e um incêndio tomou conta do interior. Logo estávamos pulando pela torre e os inimigos começaram a atirar em nós, alvos fáceis. Nossos companheiros lançaram a nossa frente bombas de fumaça para confundir o inimigo. Ainda atordoado fiquei de pé e vi, numa trincheira, um alemão apontando uma pistola pra mim. Senti uma dor forte na perna e caí no chão.
Ele tomou fôlego por um momento. Eu mal respirava. Perguntei então como ele havia saído daquela situação, ao que ele respondeu:
- Meu filho, eu era muito novo e gostava de fitas (filmes). Gostava muito de cinema. E aquilo pra mim, parecia uma cena das fitas. Eu, deitado, o tiro havia atravessado a coxa, olhei para céu e me perguntava: Estou vivo ou morri? Estou vivo ou morri? Tocava meu corpo, meus braços, mãos e dedos e, então senti que estava vivo. Senti que queria viver mais! Me levantei e do jeito que deu, comecei a correr e correr em direção aos meus companheiros, fui passando por eles até que me "agarraram", me "sacudiram" e me colocaram numa maca.
Silêncio total no carro...
Silêncio total no carro...
- E então?
- Ali foi o fim da Guerra para mim.![]() |
| Tadeu Cerski e Marjan Zuba na Igreja Polonesa em POA |
![]() |
| Marjan Zuba, eu e Tadeu Cerski |
Em 2005, o Cekaw junto com outras associações prestou uma justa homenagem a todos os ex-combatentes poloneses que haviam servido na Europa durante a II Guerra. Naquela época a lista dos gaúchos-poloneses era de mais de sessenta. Lá estava também o Tenente Coronel Tadeu Cerski, descendente de poloneses, pracinha da FEB e herói de Monte Castelo. Seu emocionante relato sobre sua passagem na aldeia de Monte Cassino, após os sangrentos combates do II Korpus polonês, tocou a todos os presentes.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Desfile São Leopoldo Fest 2011
Algumas pessoas me sugeriram que eu escrevesse algo sobre os Desfiles da São Leopoldo Fest, evento que organizo desde 2008. Afinal, descartando modéstia, movimento mais de 60 entidades e associações e coloco na avenida mais de 1800 pessoas a caminhar, homenageando a imigração alemã.
Uma das programações da São Leopoldo Fest é este desfile oficial, evento que abre as comemorações da festa, com uma amostra do que a cidade representa no cenário riograndense em termos de cultura e desenvolvimento econômico e social. Segue algumas fotos, gentileza da www.revistafeitoria.com.br.
Uma das programações da São Leopoldo Fest é este desfile oficial, evento que abre as comemorações da festa, com uma amostra do que a cidade representa no cenário riograndense em termos de cultura e desenvolvimento econômico e social. Segue algumas fotos, gentileza da www.revistafeitoria.com.br.
![]() |
| Tinha um gnomo no desfile..... |
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Os poloneses III - mande lembranças minhas...
As pesquisas e andanças que culminaram com a criação da Galeria de Ex-presidentes da Sociedade Polônia de Porto Alegre reservaram-me momentos únicos com seus familiares. Os passados, interessantes, engraçados e alguns muito tristes, eram colocados no meu colo, junto com as fotografias de homens e mulheres que há mais de meio século não estavam entre nós.
Foram tantas histórias que, de tão pessoais e reservadas a apenas um núcleo familiar, achei que não deveria registrar, apenas guardei comigo, como um legado confiado, pelos meus "velhinhos". Nas muitas ocasiões que visitei sozinho a galeria, peguei-me conversando com os quadros lindamente emoldurados, refletindo, fazendo paralelos entre as diversas versões que seus familiares deram àquelas vidas, viajando no tempo, avaliando as decisões que eles tomaram e selaram os destinos da Sociedade.
Ainda hoje, ao escrever, questiono-me se devo usar seus verdadeiros sobrenomes nos relatos, ou criar fakes, evitando assim eventuais constrangimentos aos descendentes. Pensando ser a polêmica desnecessária e, em respeito a memória dos meus entrevistados, que partilharam um pouco de suas vidas comigo, quando possível, trocarei os nomes, sem prejuízo da história, que é o objetivo final destes textos.
Sem uma metodologia de trabalho acadêmica, ia de espírito livre e desarmado entrevistar os diversos descendendentes de um mesmo ex-presidente e, então, deparava-me com relatos idênticos nos vários ramos da família. Para horror dos historiadores de verdade, nunca os anotei no papel. Na realidade, estava mais interessado no foco da pesquisa que eram as fotografias.
Normalmente saia da casa carregado de fotos e histórias que, com o passar dos meses iam-se somando, acumulando, dando uma boa perspectiva de como era a vida dos pioneiros poloneses na cidade de Porto Alegre. Este conto, que chamei de mande lembranças minhas, dá uma pequena noção de quão interessante foi aquela Odisséia.
A partir da lista que me apresentaram, logo percebi que haviam três pessoas com o sobrenome Zórawski, nas primeiras décadas de vida da associação. Conversando com os mais antigos membros ativos da sociedade, concluí que eram completamente desconhecidos dos tempos modernos.
Quando tive a oportunidade de entrevistar o ex-presidente Wladislaw Zurawski, já com 90 anos, perguntei se ele conhecia algum daqueles três: Józef, Sylwester e Adam Zórawski, visto que a pronúncia dos sobrenomes ser a mesma: JURAFSKI. Ele me disse que conheceu Sylwester, mas não havia relação de parentesco e muito menos sabia de algum descendente dele. Porta fechada! Volto a lista novamente. Eram eles parentes, vizinhos, primos, irmãos, tios e sobrinhos? Muitos pontos de interrogação...
Paralelamente ao sucesso do andamento da pesquisa com os outros ex-presidentes, volta e meia questionava se aquele sobrenome não estava inserido na árvore genealógica da família que ora eu estava visitando. Nada. E as pesquisas de Diego Pufal recém estavam iniciando.
Quando tive a oportunidade de entrevistar o ex-presidente Wladislaw Zurawski, já com 90 anos, perguntei se ele conhecia algum daqueles três: Józef, Sylwester e Adam Zórawski, visto que a pronúncia dos sobrenomes ser a mesma: JURAFSKI. Ele me disse que conheceu Sylwester, mas não havia relação de parentesco e muito menos sabia de algum descendente dele. Porta fechada! Volto a lista novamente. Eram eles parentes, vizinhos, primos, irmãos, tios e sobrinhos? Muitos pontos de interrogação...
Paralelamente ao sucesso do andamento da pesquisa com os outros ex-presidentes, volta e meia questionava se aquele sobrenome não estava inserido na árvore genealógica da família que ora eu estava visitando. Nada. E as pesquisas de Diego Pufal recém estavam iniciando.
Inconformado, visitei os arquivos das fichas dos sócios. Depois de horas de empoeirada pesquisa, ficha a ficha, achei a inscrição de Ronaldo Zórawski, morador de Gravataí. Uma ficha relativamente recente, do início dos anos oitenta. Peguei o endereço e fui atrás. Como não dirijo, viajei de ônibus.
Cheguei no local e era um condomínio, de onde este senhor (com quem nunca falei) havia se mudado a algum tempo. Recordo que fui atendido pelos vizinhos e, depois de explicar a razão da minha pesquisa encontrei simpatia e solidariedade. Levaram-me então à decana dos moradores que disse se recordar dele, mas não sabia para onde tinham ido. Passei um longa tarde de prosa, mas totalmente infrutífera. Voltei pra casa muito decepcionado, imaginando que a galeria poderia ficar incompleta, afinal já havia se passado meio ano e, fora algumas fotografias do Sylwester nas atividades da sociedade, não havia registros que me assegurassem quem eu devia emoldurar.
Com a confiança abalada, no dia seguinte resolvi esfriar a cabeça e visitar uma tia, que morava na Rua Garibaldi. Antes, resolvi passar no mercado público pra comprar umas peras, que ela muito apreciava. Pensei em fazer o caminho a pé, organizando as ideias e as próximas visitas. Estas caminhadas, onde passava a maior parte do tempo meditando, geralmente eram orientadas pelos meus pés, o que, às vezes, tornava um caminho de três quilômetros em cinco ou seis.
Passando por uma pequena rua do centro, percebo pelo canto do olho, retirado, quase escondido, o escritório de administração de um grande cemitério da cidade. Quase torci o pé, pois meu cérebro ordenou que eu continuasse caminhando mas o meu corpo todo tomou a direção daquela porta.
Depois da identificação, apresentações e explicações de praxe a um atendente, me encaminharam a um superior, onde repeti a mesma ladainha. Impaciente já pensava em ir embora quando o cidadão me passou uma longa lista, com os sobrenomes dos sepultados naquele cemitério.
Mais uma porta se abria, com diversos corredores a serem percorridos.
Nem preciso citar o primeiro sobrenome que procurei e, com um frio na barriga, juro que tremia de ansiedade quando li: Józef Zórawski, número da sepultura tal... Logo abaixo, mais familiares e, por fim, nome, telefone e o endereço do responsável. O mais engraçado foi o endereço: Rua Garibaldi.
Ri alto na hora, o que deixou algumas pessoas de olhar esquisito pra mim. A pessoa que eu procurava vivia a duas quadras da minha tia, na rua em que me criei no Bom Fim. Tão logo cheguei na tia marquei a entrevista para a mesma tarde. Nem almocei direito.
Fui recebido pela senhora Zywia Anusz, neta de Józef Zórawski, que para minha grata surpresa preservava um grande acervo fotográfico, documental e bibliográfico da família, com a foto de quase todos os irmãos. Pois, Józef, Sylwester e Adam eram irmãos e os três igualmente foram presidentes da Sociedade Polônia. Entre tantes fotos históricas havia a da apresentação da peça Lobzowianie e do grupo de voluntários que sairam de POA para lutar pela Polônia na I Guerra Mundial, no exército azul de Haller. O motivo da foto dos combatentes estar com ela, só desvendei uma década depois, quando li o Relatório de Michal Chmielewski ao governador Borges de Medeiros sobre a passagem do Tenente Henryk Abczynski pelas colônias polonesas no estado, buscando recrutas. Józef Zórawski, foi o presidente do comitê que liderou a comunidade naqueles tempos de guerra. Da foto, dona Zywia sabia apenas que a tarja com a Águia da Polônia, que está no braço de cada voluntário foi confeccionada pela sua avó, Maria Pawlowski Zórawski.
Passando por uma pequena rua do centro, percebo pelo canto do olho, retirado, quase escondido, o escritório de administração de um grande cemitério da cidade. Quase torci o pé, pois meu cérebro ordenou que eu continuasse caminhando mas o meu corpo todo tomou a direção daquela porta.
Depois da identificação, apresentações e explicações de praxe a um atendente, me encaminharam a um superior, onde repeti a mesma ladainha. Impaciente já pensava em ir embora quando o cidadão me passou uma longa lista, com os sobrenomes dos sepultados naquele cemitério.
Mais uma porta se abria, com diversos corredores a serem percorridos.
Nem preciso citar o primeiro sobrenome que procurei e, com um frio na barriga, juro que tremia de ansiedade quando li: Józef Zórawski, número da sepultura tal... Logo abaixo, mais familiares e, por fim, nome, telefone e o endereço do responsável. O mais engraçado foi o endereço: Rua Garibaldi.
Ri alto na hora, o que deixou algumas pessoas de olhar esquisito pra mim. A pessoa que eu procurava vivia a duas quadras da minha tia, na rua em que me criei no Bom Fim. Tão logo cheguei na tia marquei a entrevista para a mesma tarde. Nem almocei direito.
Fui recebido pela senhora Zywia Anusz, neta de Józef Zórawski, que para minha grata surpresa preservava um grande acervo fotográfico, documental e bibliográfico da família, com a foto de quase todos os irmãos. Pois, Józef, Sylwester e Adam eram irmãos e os três igualmente foram presidentes da Sociedade Polônia. Entre tantes fotos históricas havia a da apresentação da peça Lobzowianie e do grupo de voluntários que sairam de POA para lutar pela Polônia na I Guerra Mundial, no exército azul de Haller. O motivo da foto dos combatentes estar com ela, só desvendei uma década depois, quando li o Relatório de Michal Chmielewski ao governador Borges de Medeiros sobre a passagem do Tenente Henryk Abczynski pelas colônias polonesas no estado, buscando recrutas. Józef Zórawski, foi o presidente do comitê que liderou a comunidade naqueles tempos de guerra. Da foto, dona Zywia sabia apenas que a tarja com a Águia da Polônia, que está no braço de cada voluntário foi confeccionada pela sua avó, Maria Pawlowski Zórawski.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Os poloneses II - A galeria dos Ex-presidentes
Bem, na realidade tudo começou em 1996, quando a Vice-presidente de Marketing, Udi Dus, me pediu para entrevistar e registrar a vida do presidente da Sociedade Polônia, senhor Mário Karpinski. Daí, para fazer a Galeria de Ex-presidentes da Sociedade Polônia, foi um pulo. Era um projeto antigo, que já havia sido tentado, mas não concluído. E como eu cantava no coral da casa, era metido a jornalista e fazia fotos eventualmente, acharam que eu poderia conduzir a pesquisa.
Em meados daquele ano ocorreu uma nova eleição na Sociedade, com duas chapas concorrendo: Sr Jorge Kowalczyk, do grupo da Udi e meus amigos do Coral e a do Sr. Mariano Hossa, de pessoas que eu pouco conhecia à época. Meus amigos perderam e, lembro-me, não ficaram muito felizes. E eu fiquei entre duas opções: sair como boa parte dos meus amigos fez ou ficar e dar continuidade ao projeto. Optei pela segunda via, que não foi bem aceita pelo meu povo.
No dia em que acertei os detalhes da pesquisa, inventei de acompanhar o Tosia numa garrafa de wódka e uns pratos de pierogi. Foi o maior porre da minha vida! Não recordo como achei o caminho de casa (sei que falava o que sabia de polonês com todo mundo) e, óbvio deixei de comer o pastelzinho polonês por uns dez anos.
Como eu não tinha a mínima ideia da história da Sociedade, achava que seria uma barbada. Alguns dias depois, me apresentaram uma lista com 58 nomes, dos quais, sete ainda estavam vivos. Nas primeiras tres décadas era um presidente por ano. Depois do choque inicial, me perguntando por onde começar, foi quando o Presidente do Conselho Deliberativo, senhor José Konat, me disse que se eu conseguisse umas 15 fotos, seria bom e daria pra fazer a inauguração da galeria. Ele não me conhecia.
Dezoito meses depois, na última semana de 1997, com a carta do Senhor Casemiro Galarda, de Curitiba, em que reconhecia o seu professor, Feliks Zdanowski, primeiro presidente, conclui o trabalho
Desta aventura (Odisséia) que foi visitar mais de 200 lares com descendência polonesa por toda a região metropolitana de Porto Alegre, revirar os livros dos arquivos históricos, da Cúria, examinar fotos à exaustão, conversar (e aprender) com historiadores e investigadores de todo o país, resultou uma pequena monografia, editada pela Revista Projeções. Mas, acima de tudo, há o aspecto humano que foi o de ouvir e conviver com estas famílias. Houve risadas, histórias engraçadas e, algumas saudosas lágrimas.
Na inauguração da sala, a sociedade convidou representantes de todas as famílias, numa bela festa, ocorrida no salão nobre. No meio da festa, com presença do Cônsul, Marek Makowski, lembro do senhor João Paluszkiewicz, neto do presidente Jan Paluszkiewicz dizer emocionado: - É como se meu avô pudesse ver a Sociedade através dos meus olhos.
Em meados daquele ano ocorreu uma nova eleição na Sociedade, com duas chapas concorrendo: Sr Jorge Kowalczyk, do grupo da Udi e meus amigos do Coral e a do Sr. Mariano Hossa, de pessoas que eu pouco conhecia à época. Meus amigos perderam e, lembro-me, não ficaram muito felizes. E eu fiquei entre duas opções: sair como boa parte dos meus amigos fez ou ficar e dar continuidade ao projeto. Optei pela segunda via, que não foi bem aceita pelo meu povo.
No dia em que acertei os detalhes da pesquisa, inventei de acompanhar o Tosia numa garrafa de wódka e uns pratos de pierogi. Foi o maior porre da minha vida! Não recordo como achei o caminho de casa (sei que falava o que sabia de polonês com todo mundo) e, óbvio deixei de comer o pastelzinho polonês por uns dez anos.
Como eu não tinha a mínima ideia da história da Sociedade, achava que seria uma barbada. Alguns dias depois, me apresentaram uma lista com 58 nomes, dos quais, sete ainda estavam vivos. Nas primeiras tres décadas era um presidente por ano. Depois do choque inicial, me perguntando por onde começar, foi quando o Presidente do Conselho Deliberativo, senhor José Konat, me disse que se eu conseguisse umas 15 fotos, seria bom e daria pra fazer a inauguração da galeria. Ele não me conhecia.
Dezoito meses depois, na última semana de 1997, com a carta do Senhor Casemiro Galarda, de Curitiba, em que reconhecia o seu professor, Feliks Zdanowski, primeiro presidente, conclui o trabalho
Desta aventura (Odisséia) que foi visitar mais de 200 lares com descendência polonesa por toda a região metropolitana de Porto Alegre, revirar os livros dos arquivos históricos, da Cúria, examinar fotos à exaustão, conversar (e aprender) com historiadores e investigadores de todo o país, resultou uma pequena monografia, editada pela Revista Projeções. Mas, acima de tudo, há o aspecto humano que foi o de ouvir e conviver com estas famílias. Houve risadas, histórias engraçadas e, algumas saudosas lágrimas.
Na inauguração da sala, a sociedade convidou representantes de todas as famílias, numa bela festa, ocorrida no salão nobre. No meio da festa, com presença do Cônsul, Marek Makowski, lembro do senhor João Paluszkiewicz, neto do presidente Jan Paluszkiewicz dizer emocionado: - É como se meu avô pudesse ver a Sociedade através dos meus olhos.
![]() |
| Antoni Ciesielski e esposa, um dos pioneiros poloneses em Porto Alegre. |
Poloneses em Porto Alegre - Uma Odisséia I
Estas postagens nasceram da necessidade de registrar os causos, documentos, fotos e, principalmente as pessoas, que dei de cara, me cairam nas mãos, realizei ou descobri, referentes a pesquisa que fiz sobre a comunidade polonesa de Porto Alegre.
O ponto de partida foram as comemorações do centenário da Sociedade Polônia de Porto Alegre, realizadas no período de 1997/98. Estatutariamente, à época, a insituição tinha sido fundadade em novembro de 1898. Graças aos apontamentos do Pe. Jan Piton, de Edmundo Gardolinski e Janina Figurski, a data estava em questionamento.
Sendo ela fundada quando da passagem do viajante Stanislaw Klobukowski pelo estado, no ano de 1896, viagem esta registrada em livro posteriormente, a data original retrocedia em dois anos. Há menção à Towarzystwo Zgoda (Sociedade Concórdia) neste livro e no Kalendarz Polski, editado por F.B.Zdanowski, fundador e primeiro presidente desta associação. Os registros e atas foram perdidos (segundo Janina Figurski, teriam sido confiscados pelas autoridades).
Sendo ela fundada quando da passagem do viajante Stanislaw Klobukowski pelo estado, no ano de 1896, viagem esta registrada em livro posteriormente, a data original retrocedia em dois anos. Há menção à Towarzystwo Zgoda (Sociedade Concórdia) neste livro e no Kalendarz Polski, editado por F.B.Zdanowski, fundador e primeiro presidente desta associação. Os registros e atas foram perdidos (segundo Janina Figurski, teriam sido confiscados pelas autoridades).
A mudança de data era vista com simpatia pelos descendentes e a comunidade em geral e apareceram relatos que procuravam corroborar a história.
Um destes ouvi da senhora Honória Kurylo, neta de Honorata Przybilski.
De acordo com o estatuto, as celebrações de aniversário da Sociedade ocorriam no dia 11 de Novembro (que é a data de Independência da Polônia, alcançada com o Tratado de Versailles, em 1918), época de alto calor em Porto Alegre.
Em meio às discussões entre os associados sobre a data real, Dona Honória era categórica ao afirmar:
-" Minha avó, Honorata Jung Przybylski", esteve na reunião em que criou-se a Sociedade. E ela dizia que fazia um frio tenebroso e que todo mundo estava bem agasalhado. Como pode ser em novembro então?"
Geralmente matava o assunto. Honorata era filha de August Jung, polonês de Zyrardów e casou com Wladyslaw Przybylski. Ambos foram lideranças daquela comunidade e, posteriormente, presidentes da Sociedade. No foto acima, (bodas de ouro do casal Wladyslaw e Ludwiga Wilkoszynski), a veneranda senhora aparece sentada ao lado do Padre Jan Wróbel, a segunda da direita para a esquerda, de óculos e chapéu.
Um destes ouvi da senhora Honória Kurylo, neta de Honorata Przybilski.
De acordo com o estatuto, as celebrações de aniversário da Sociedade ocorriam no dia 11 de Novembro (que é a data de Independência da Polônia, alcançada com o Tratado de Versailles, em 1918), época de alto calor em Porto Alegre.
Em meio às discussões entre os associados sobre a data real, Dona Honória era categórica ao afirmar:
-" Minha avó, Honorata Jung Przybylski", esteve na reunião em que criou-se a Sociedade. E ela dizia que fazia um frio tenebroso e que todo mundo estava bem agasalhado. Como pode ser em novembro então?"
Geralmente matava o assunto. Honorata era filha de August Jung, polonês de Zyrardów e casou com Wladyslaw Przybylski. Ambos foram lideranças daquela comunidade e, posteriormente, presidentes da Sociedade. No foto acima, (bodas de ouro do casal Wladyslaw e Ludwiga Wilkoszynski), a veneranda senhora aparece sentada ao lado do Padre Jan Wróbel, a segunda da direita para a esquerda, de óculos e chapéu.
domingo, 24 de abril de 2011
Domingo... a tardinha.
Puxando da memória, não consigo ter a lembrança de um fim de tarde de domingo em que eu estava alegre e feliz. Apesar da vista maravilhosa que tenho da sacada do apartamento e da visão privilegiada do entardecer que Porto Alegre proporciona, a melancolia do fim de domingo se insinua e vai se espalhando pelo meu corpo, absorvendo, comendo os restinhos da alegria do fim de semana.
Nada é tão broxante como um fim de tarde de domingo. Lembrar que no outro dia as tarefas, contas, compromissos e afazeres me aguardam, inibe qualquer euforia momentânea. Numa época que andei endividado tinha verdadeiras ânsias e cefaleias ao sentir o sábado correndo célere.
Já tentei atravessar o domingo bêbado, mas a dor de cabeça e ressaca na segunda, aliadas a incompreensão de familiares e amigos me fizeram repensar a extensão do trago depois do churrasco. Tentei ir à Missa, caminhar, estudar, ver televisão e até incomodar a patroa para um "selvagem vespertino" mas ainda assim as horas se arrastam e, com elas, o peso de que o inexorável amanhã está chegando. Quando o Grêmio perde, então, até o tico encolhe de tristeza.
Sobrou me conformar e esperar, escrevendo esta azeda abobrinha no blog. Coloco uma fotinho de mais um por do sol. Só que este, represente bem meu ânimo nestas horas inconsoláveis que prenunciam o início de mais uma semana.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
44
Hoje, às seis horas, completo 44 anos. Parabéns pra mim!
Parabéns?!
Ao repassar meus recuerdos, fazer o balanço, pesar prós e contras, mensurar alegrias e tristezas, stresses e relax, não consigo contabilizar o saldo. Não sei se é positivo ou negativo.
| Até hoje não sei quem está me segurando na cadeira... |
E, me incomoda estar ficando velho.
Confesso.
Nada como uma juventude saudável e sorridente. Meus joelhos que o digam.
E de que valem a experiência e sabedoria numa época em que valores, ideais, ideias e princípios mudam a cada troca de estação?
Admiro pessoas que são apegadas à vida, gostam de viver.
Vêem objetivos e propósitos, físicos e metafísicos nos acontecimentos diários que tem aquele efeito transcendental, espiritual e estranhamente confortador.
Pode parecer até apatia, efeito da idade, não sei, mas percebo que, gradualmente, tenho ficado mais quieto, distante e, para alguns, arredio.
O que me assusta mesmo é que não estou nem aí. Pensem o que quiserem. Vivo até quando Deus quiser, mas quero viver - e morrer - tendo a liberdade como sensação plena. Na falta de alegrias exorbitantes, me sentir livre é o meu presente excelso de 44 anos.
quarta-feira, 23 de março de 2011
Ficha Limpa
![]() |
| Data venia V.Excia. |
![]() |
| Jader |
domingo, 20 de março de 2011
Amigos
Os meus familiares dizem que sou demasiado atencioso com as pessoas. Que falo demais, explico e reitero demais. Pode ser, eu tenho a afetividade entre minhas características mais marcantes. Não custa nada um - Olá, como vai você? Precisa de Algo? Abraço então.... Depois que inventaram o celular, gastei alguns trocados nesses rápidos diálogos.
De minha parte, creio que, após alguns anos, tombos e decepções, ando um pouco mais reservado, procurando e telefonando menos para importunar meus camaradas e parentes. Quando penso no assunto e faço uma avaliação honesta, vejo que, ao fim das contas, apenas trato as pessoas da forma como gostaria de ser tratado. Por um lado, esta prática da empatia cotidiana me rendeu bons frutos: me orgulho de ter muitos amigos e (penso que) sou querido por toda a família.
De minha parte, creio que, após alguns anos, tombos e decepções, ando um pouco mais reservado, procurando e telefonando menos para importunar meus camaradas e parentes. Quando penso no assunto e faço uma avaliação honesta, vejo que, ao fim das contas, apenas trato as pessoas da forma como gostaria de ser tratado. Por um lado, esta prática da empatia cotidiana me rendeu bons frutos: me orgulho de ter muitos amigos e (penso que) sou querido por toda a família.
Gente que está próxima pra trocar experiências, compartilhar de um sonho, um objetivo, uma vitória conquistada. Falar do bom doce ou do malvado destino que temperam suas vidas e, às vezes, ouvir um pouco da tragicomédia que enceno diariamente.
No meu firmamento habita uma plêiade de amigos. Alguns, de longa data, como a Carla, já que fizemos a primeira comunhão há uns bons 36 anos. Outros, como a patroa Márcia, são mais recentes, 23 anos. Fomos, voltamos e acabamos resolvendo viver juntos após um interregno de 18 anos... E assim, com tantos outros...
No meu firmamento habita uma plêiade de amigos. Alguns, de longa data, como a Carla, já que fizemos a primeira comunhão há uns bons 36 anos. Outros, como a patroa Márcia, são mais recentes, 23 anos. Fomos, voltamos e acabamos resolvendo viver juntos após um interregno de 18 anos... E assim, com tantos outros...
sábado, 19 de março de 2011
A Declamação
Era dia de aniverrsário do Reitor. E não era qualquer um. Era do todo-poderoso Rubem Eugen Becker, pastor criador, espírito e alma da ULBRA.
Alguém tinha ouvido a brincadeira no estúdio B da rádio e lançou a ideia a um superior, sem eu saber. De repente, recebo a convocação e, naquela data, após exaustivos ensaios sobre uma trilha do Gipsy Kings, que quando revi postura, impostação e gestos, tremendo dos calcanhares aos olhos, vou ao galpão, onde ocorreria a festa. Até o ex-governador Alceu Collares, recem contratado como professor, estava na platéia. O Vice-reitor anuncia então que em nome de todos os funcionários da insituição, um locutor da rádio da Ulbra (eu - não disseram meu nome) faria a homenagem. Silêncio! A despacito entro no palco daquele salão rúsitco, logo sobe a trilha, o clima de suspense aumenta, arrumo as melenas, dou a última sacudida na pilcha e, olhos nos olhos do reitor, estendo os braços e tasco em alto e bom som:
- Chinoca, me dá um abraço!...
- Chinoca, me dá um abraço!...
E continuei a bela poesia de Odilon Ramos, sem me preocupar com o que ocorria em volta: muita costela assada ficou entalada na garganta, feições estáticas e olhares incrédulos. Meu chefe Mauro Borba, entrou em surto, pois como muitos, segurou o riso... ou gargalhada...
Mas, depois da última estrofe, penso eue me sai bem... muito bem. O Pastor aparentemente gostou, ou para salvar o estranhamento de muitos, cordialmente aplaudiu, se levantou e me abraçou agradecendo.
Ao final, fiquei com a fitinha gravada de recordação que algum parente pediu emprestado e nunca mais devolveu...
Teve gente que jura até hoje que foi deboche. Eu gostei de fazer. E o fiz com sinceridade de propósitos.
Mas, depois da última estrofe, penso eue me sai bem... muito bem. O Pastor aparentemente gostou, ou para salvar o estranhamento de muitos, cordialmente aplaudiu, se levantou e me abraçou agradecendo.
Ao final, fiquei com a fitinha gravada de recordação que algum parente pediu emprestado e nunca mais devolveu...
Teve gente que jura até hoje que foi deboche. Eu gostei de fazer. E o fiz com sinceridade de propósitos.
domingo, 6 de março de 2011
O Fotógrafo!
![]() |
| William VN |
Afora o luto pela passagem do Tio Pinto (mais adiante, quando puder me lembrar das coisas boas sem me emocionar demais, vou escrever algo) e minha iniciação no mundo da fotografia profissional (a Photo Vox é uma realidade), o período tem sido de pouco produção. Reconheço minha dívida aos milhares de leitores deste blog, prometendo num futuro não muito distante retomar estas histórias bastante pessoais.
Nas fotografias, tenho levado um auxiliar: meu afilhado William que tem se saído bem como coadjuvante na captura das fotos. Vejam uma foto minha feita por ele: O cara tem futuro! Coloco junto uma foto do jovem e promissor retratista.sábado, 19 de fevereiro de 2011
Mudança de categoria...
Hoje me peguei pensando de que, na família, já estou compondo aquele grupo dos mais antigos, dono de ideias obsoletas, ultrapassado, sem entender o que os primos e sobrinhos adolescentes falam. Sem falar que eu apareço em fotos preto e branco.
Depois, conversando com a patroa Márcia, falei numa reverência àquelas pessoas que foram as minhas primeiras referências nesta vida: "Eles eram de outra cepa, com outra formação, pareciam indestrutíveis e em nosso imaginário, haviam superado todas as dificuldades da vida".
Mas, assim como os conhecidos e os distantes, nossos amados entes também vão saindo de cena, saindo do nosso cotidiano, entregando seus corpos cansados à terra e suas almas a Deus. Ficam discretos num porta-retrato, os olhos zelando a casa e a saudade perene pelos cantos do lar.
Depois, conversando com a patroa Márcia, falei numa reverência àquelas pessoas que foram as minhas primeiras referências nesta vida: "Eles eram de outra cepa, com outra formação, pareciam indestrutíveis e em nosso imaginário, haviam superado todas as dificuldades da vida".
Mas, assim como os conhecidos e os distantes, nossos amados entes também vão saindo de cena, saindo do nosso cotidiano, entregando seus corpos cansados à terra e suas almas a Deus. Ficam discretos num porta-retrato, os olhos zelando a casa e a saudade perene pelos cantos do lar.
Assinar:
Postagens (Atom)





















