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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Minhas primeiras professoras

Sou daquelas pessoas que pode afirmar que foi alfabetizada em casa, especificamente sob os cuidados do pai. Nem bem tinha três anos, arranjou ele um caderno e, através de uma pedagogia antiga,  foi me ensinando a somar as letras, os sons correspondentes e a formar palavras. Resultado: antes dos quatro anos, eu sabia ler e escrever. O velho até comprou um dicionário que seguidamente me fazia consultar pra melhorar o vocabulário. Somado às aulas de matemática, acabei sendo uma espécie de prodígio para a idade.    
Portanto, um mês antes de eu completar os seis anos, fui com minha mãe fazer a matrícula no "Grupo Escolar América". Fomos atendidos pela secretária, senhora Maria Elvira. Enquanto ocorriam as tratativas iniciais, eu vi um livrinho na mesa, com algumas estampas. Curioso, peguei-o e, naturalmente comecei a ler. Dona Elvira percebeu. Perguntou se eu estava gostando das figurinhas. Eu disse que sim, e continuei lendo. Foi quando ela notou que eu ficava demais na mesma página pra estar vendo só uma figurinha. Desconfiada perguntou: 
- Tu estás entendendo o que está escrito?
- Sim!
- Tu sabes ler?
-  Sim.
- Então lê pra nós em voz alta.
Quando eu terminei o primeiro parágrafo, lido com clareza (valeu velho!!!) e segurança, percebi minha mãe orgulhosa e o olhar incrédulo de Dona Elvira. Ela sai da sala e volta com a diretora da Escola, a inesquecível Rosali Vicentini. Me pedem então que eu continue de onde parei e fui lendo, lendo e lendo...
Exibido, após fechar o livro, disse que sabia somar e diminuir e estava aprendendo a multiplicar e dividir. Deram-me então umas continhas que resolvi rapidinho, fazendo a prova dos três para ver se estava certo. Pronto, me colocaram direto na segunda série! Não lembro do meu primeiro dia de aula e da minha professora da segunda série. Na realidade, não me adaptei com a turma mais velha, alguns repetentes com uns 12 anos de idade e a tal de letra cursiva, ainda misteriosa pra mim. Passava as aulas viajando, olhando pela janela. Na segunda semana, sofri uma reprovação parando na sala B da primeira série. 
Paradoxalmente ao meu estado de avanço, eu era muito desorganizado e tinha os mais lindos garranchos da turma. Quando passava a borracha pra corrigir, meu caderno ficava um verdadeiro pano de chão surrado. Teve uma vez que minha querida professora (não menciono o nome por motivos óbvios), enquanto eu escrevia, olhou meu caderno por sobre o meu ombro e indignada, puxou meus cabelos com força: 
- Que letra horrível, relaxado!
Não levantei a cabeça e continuei com a escrita, os olhos cheios de água pela dor e humilhação. Talvez um dia ruim para ela, mas para mim uma recordação para a vida toda. Afora os jogos de futebol onde, pela minha ruindade eu era sempre o goleiro, não guardo nenhuma outra lembrança daquele ano de 1973.
Já no segundo ano, estava sempre a frente dos colegas pelas obrigatórias lições de casa com papai. Pela minha timidez e, eventuais estouros arianos, a turma sempre me aprontava alguma, sabendo do medo que eu tinha de chamarem meus pais à escola. E, naquele ano foram três vezes em que me vi em apuros: apanhei quando entreguei o bilhete, curti o castigo e apanhei também quando voltei pra casa, depois do sermão da professora. Estranho que minhas notas nunca baixavam do conceito Avançado, ou seja um 10 com estrelinhas. Também não vou citar o nome desta professora. Dei graças quando terminou o ano letivo.
No terceiro ano, as coisas mudaram e tive a minha primeira grande professora, a Ivone Cardoso. Adorava as aulas dela, e uma das grandes lições foi a de aprender a mastigar direito uma bala. Naquele ano, conheci outra professora bacana: Mariza Santos. Ela dava aulas de religião, montou um coral e, ainda, me recebeu em sua casa, na festa de aniversário do filho. Até hoje a visito esporadicamente. Naquele ano, acharam por bem me trocar de turma. Fui para a terceira série A, a turma dos mais adiantados. Podia ser ruim no futebol, nos romances e alvo do pessoal mais sacana da turma, mas andava de peito estufado por estar entre os melhores da minha série. Terminei o ano estudando com a professor Zílá, de quem só guardo o nome na memória. Neste ano fiz minha primeira comunhão, também adiantado. Daquela turminha da catequese, que encontrava nos sábados, tinha a professora Cleuza Maria Pokorski, a Jaqueline e a Carla Oliveira, de quem ainda sou amigo até hoje. Carla é filha de uma professora com quem nunca tive aulas, mas era muito respeitada na Escola, a professora Adeti.
Já na quarta série estudei com a professora Marília Goularte, irmã da Mariza. Tirando o episódio da perda da bola da turma que estava sob minha responsabilidade e das consequentes noites insones até a situação se resolver e do sarampo que me deixou uma semana em casa, estudando na cama, foi um ano bom e divertido.
Na quinta, sexta, sétima e oitava séries, as coisas se misturam na lembrança, pois nem das salas de aula recordo com clareza. Nesta ápoca aconteceu de que os rudimentos escolares de papai se esgotaram e ele não conseguia acompanhar as equações matemáticas que misturavam letras com números. Abrandaram-se as aulas em casa repercutindo nas notas finais do boletim. Começaram a aparecer os primeiros vermelhos, motivo de muita apreensão a cada fim de bimestre. A linda professora Tiê Namba, dava suas aulas de matemática ante o olhar apaixonado dos meninos. O professor de Educação Física Aramis Batastini (dizem que morreu), permitia que eu "amaciasse seus tênis novos", o que me dava uma alegria enorme ao tirar os meus bambas e congas que usava à época. Naquele tempo a gente economizava até nos guidis. Teve a Francelina Inês Hasselströn, muito querida, mães de dois filhos, amigos meus.
Tive aulas com a Terezinha Rêgo que, por motivos mais que óbvios, guardei o nome. Tive aulas de Inglês: The book on the table! Foi a única frase que aprendi. E também tive uma professora de português que possuía uma olhar esquisito e comportamento explosivo, motivos de pilhéria de toda a turma. Por fim, tivemos uma regente de oitava série, professora de história que morava no Pedrinha (Passo das Pedras). Suas aulas começavam nos livros e terminavam por discutir os problemas brasileiros, qualidade na TV, a carestia, entre tantos assuntos que davam um prazer enorme discutir. E ela nos deixava falar. Foram as melhores aulas daquele oitavo ano. Lembro dela nos paraninfando na missa de formatura, na Igreja do Pedrinha. Uma falha não recordar seu nome.
Recebi meu boletim das mãos da professora Mariza que ao longo daqueles anos, contou sempre comigo nas apresentações teatrais, jograis, coro, enfim, qualquer atividade aonde eu pudesse mostrar minhas habilidades artísticas que, infelizmente, na minha família ninguém percebia. Violão eu aprendi a tocar sozinho. No coral, minha voz se sobrepunha a dos demais e eu fazia bem qualquer papel nas encenações: de São Francisco ao pinheirinho de natal.
Fim do primeiro estágio. Novos vôos, professores e amores me esperavam no Dom Diogo de Souza, no ano da graça de 1981. Mas nutro um carinho mais que especial pelo meu coleginho, onde passei oito anos. De vez em quando vou lá, levar meu sobrinho e sentir aquele clima, que era o meu cotidiano infantil. 
Parece que ainda me vejo caminhando despreocupado pelos seus corredores, e ouço dona Rosali me chamando com aquela voz única, inconfundível, que fazia gelar o sangue nas veias:
-Estácio Nievinski Filho! O que tu estás fazendo fora da sala?
-Vo..vo..vou.. no ba..ba..nheiro..ro.., dona Rosali...
-Vai rápido!
Dona Rosali foi uma das pessoas mais impressionantes que conheci. Grande diretora. Daquelas vocacionadas   que unia rigidez e afeto, carinho e inflexibilidade no trato com os alunos. No dia do seu aniversário, 05 de abril, a escola toda se reunia em frente às bandeiras, para leitura de jograis e homenagens a ela. Enquanto transcorria o evento, recordava sempre que era aniversário de uma amada prima: Cleci Lizete. Por curiosidade do destino, ela também foi aluna da Rosali, mais de uma década antes. 
Naturalmente, perdi o contato com a diretora e suas filhas, mas um dia, por acaso cruzei por ela na entrada de um Shopping. Parei e saudei imponente, voz de locutor, bem alto:
- Rosali Maria Vicentini!
Ela parou, me deu um sorriso carinhoso e quase trinta anos depois, me respondeu:
- Estácio Nievinski Filho!
Aos meus primeiros verdadeiros mestres, meu respeito e meu carinho...

PS: Hoje, 05/10/2011, ao atravessar a faixa de pedestres, na esquina da Prefeitura, reencontrei dona Rosali. Conversamos rapidamente. Ela me comunicou que se aposentou ano passado, depois de 54 anos dedicados aos magistério. 

Um comentário:

Anônimo disse...

muito legal mesmo, melhor que recordar, é encontrar as pessoas que fizeram parte da nossa vida.