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domingo, 9 de outubro de 2011

Estreia na Língua Polonesa

Do meu núcleo familiar, sou o último que ainda sabe contar até três ou dizer "bom dia", em polonês. Pode ser que algum primo distante, em algum lugar mais distante ainda, saiba um pouco mais que eu no idioma de nossos ancestrais. Tenho ainda uma tia muito querida, que além do português, aprendeu o italiano e o polonês maternos. Quando a visito, trocamos saudações de chegada e partida no velho e bom polaco.
Meus irmãos e os primos da minha geração decoraram bem os palavrões.
Falando em palavrões, minha introdução na língua de Mickiewicz foi, digamos, sui generis. Eu devia ter uns quatro anos, quando uma irmã de papai vinda da longínqua Erechim, mais o cunhado, a tia Anna e os filhos resolveram aparecer lá em casa.  A sala foi reservada para a conversa, claro toda ela em polonês. Então, nem pensar em sequer passar por ali. E foi um blablablá naquela língua chiada, marcado pelo rude sotaque da colônia. E nós, numa outra peça da casa, sem a mínima noção do que era dito por lá. De repente, um primo sacana me perguntou se eu não queria aprender polonês. E me ensinou uma frase de três letras, que eu deveria dizer para o meu pai. Repeti-a várias vezes, com a alegria infantil de aprender algo novo. Esperando o momento certo,  introduziram-me na sala, e parei diante da poltrona de papai.
Sem camisa, pés descalços, aquele bugrezinho moreno, contrastando grandemente com aquela gente clara, recebe os olhares de um azul metálico severos, pois creio que interrompi um assunto muito importante. Anos depois, soube que era sério mesmo, muito.
Papai, pergunta o que eu queria. E então, bem decoradinho, sentindo-me muito importante, com bela pronúncia, tasquei:
- Tata, dajme dupa?...
Papai trocou de cor umas dez vezes em segundos. Só não apanhei ali porque na peça ao lado formou-se enorme tumulto, com os primos rolando no chão, gritando e dando risadas. Por conseguinte, papai transferiu para eles severa bronca, bem ao estilo polaco, todo o quarteirão ouvindo. Mamãe salvou a situação dizendo que o café estava servido e a conversação interrompida retomou seu rumo, à mesa.
Aproveitando a deixa, sumi instantâneamente. Voltei a tardinha para as despedidas e papai nada falou. Alguns dias depois ele começou a me ensinar os números, a Ave Maria, o sinal da cruz e algumas outras palavras, compondo parte da minha cultura polaca.

Ah, sim, a minha frase... a minha frase... como vou traduzir... Bem, eu singelamente, perguntei se papai não estava a fim de me dar o c...


Um comentário:

Anônimo disse...

Pois é, que mico. Falando nisso como se escreve "que mico" é Polinésia?