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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Um jogo para ficar na memória

O ano eu não sei ao certo, acho que foi em 1993. O mês, muito menos, sei que sentia frio e, do dia, parece que era um sábado, pois depois do jogo, tive folga. E não sei se ocorreu alguma outra vez  nesta vida, mas um dia,  a Felusp FM (já era 107.1 - o lado direito do seu rádio) jogou uma partida de futebol de salão (futsal) contra a IPANEMA FM. E eu estava lá, pela 107.1. O "match" aconteceu no ginásio da ULBRA, que possuía duas excelentes canchas (quadras) para o inolvidável prélio. É claro que o tempo impede-me de lembrar alguns detalhes. Sei que meu mano Genilson (grande goleiro) foi,   Pajasa, meu camarada de boas e ruins prestigiou e algumas ouvintes também estiveram presentes pra diversão de uma galera curiosa e festiva que resolveu aparecer por lá. 
O grande jogo teve divulgação nas duas emissoras, inclusive com vinhetas e chamadas. Criou-se uma expectativa sensacional. Só o público foi decepcionante. Compareceram umas quarenta pessoas no ginásio. Com os atletas, deveria ter umas sessenta almas no local. Imaginei que mais gente iria comparecer pra assistir ao nosso exuberante futebol. Exuberante?... Tirando o Douglas Flor do nosso time e o alemão Vitor Hugo, do time adversário, que tinham certa intimidade amadora com  a pelota,  o restante, mesmo fazendo uma seleção, perderia folgado pro time do Santa Luzia (Instituto para cegos de POA).
O aquecimento levou mais de 30 minutos, isso porque não conseguiamos definir quem seriam os cinco titulares que abririam as hostilidades, pois na hora, apareceram mais de dez atletas, todos dizendo que Maradona tinha sido seu discípulo. Nesse meio tempo, o Roberto Pintaúde, que era professor da casa, demonstrava suas exímias habilidades peladeiras, que o credenciaram a sair jogando. Nosso goleiro, o Capitão Caverna, do programa Avalanche, "murchou" seu entusiasmo inicial naquela longa indefinição. Mas, infelizmente jogou...e afundou o time, sem o "punch" inicial. Meu irmão, só ria, me olhando do banco. O chefe, Mauro Borba, devido ao cargo, tinha de sair jogando de titular e, pra completar,  o "pivô", Celso Garavello, como decano da rádio, se escalou. Não me lembro se completei aquela fiasqueira ou entrei depois que o caldo entornou. Só sei que corria feito louco pela quadra, pois além de estarmos perdendo feio, sempre tinha um do banco gritando, querendo entrar. Não me lembro se o Beto DJ, ou o Reinaldo ou o Fossati estavam no grande evento. Mas cada vez que eu chegava perto da linha lateral ouvia sempre: Já cansou, Estácio? Evidente que eu me fazia de surdo. 
Do lado adversário, lembro do bom goleiro (que disseram ser um estagiário), que depois do jogo decidido, foi substituido pelo Montanha (aí que conseguimos diminuir a diferença no placar). Tinha o alemão Vitor, que gastou a bola e, um cara cabeludo, que ficava sapateando em volta da redonda, não deixando a gente se aproximar e, muito menos, tocando a bola pra frente. Era hilário, ele grandalhão, no meio da quadra e nós em volta dele. Apelidei a critura de Cátia Sumam.
Na real, e, ao fim, foi um episódio lamentável do ponto de vista esportivo, com gols do outro lado da quadra, a bola vazando os goleiros a "poderosos" 10 km por hora, gente pisando na bola, encontrões, empurra-empurra e o glorioso Caverna demonstrando  uma ruindade única. O Douglas fez uns tres gols no Montanha chutando de longe. Foi quando nos tocamos que o cara era míope, mas daí já era tarde demais e o árbitro acabou com aquele sofrimento, com um largo placar que, é claro, não recordo
De curioso mesmo, a torcida. Algumas entusiamadas tietes estiveram lá pra nos aplaudir. Uma delas, trajada a rigor: mini-saia preta rodada, meias esportivas pretas na altura dos joelhos, um Kichute clássico, uma miniblusa colada e um rosto de correr o Conde Drácula, se enfiou vestiário adentro, quando determinado atleta, substituido, foi tomar água. Precisou da segurança da Universidade pra poder sair e se desvencilhar daquela enlouquecida admiradora. 
 

sábado, 25 de dezembro de 2010

Meu dentista III - Acidentes de percurso

O meu dentista
Os acadêmicos de odontologia quando recebem seus pacientes, logo nos primeiros atendimentos devem fazer, se necessário, uma limpeza, removendo o tártaro dos dentes. Geralmente eles seguem um ritual comum, sentados atrás da cadeira, ficam um tempo hipnotizante, lixando numa pedra o instrumento que vão utilizar. Não sei o nome daquele. Às vezes, dá o acaso de eu ouvir o nome de um dos aparelhos ou ferragens que, depois, eu sinto em ação se chocando com minha dentição. O barulho daquela atividade é similar a uma faca sendo afiada... Tschik, tschik, tschik, ouve-se na grande sala clínica, com dezenas de consultórios, alinhados, os alunos e seus aventais, os mestres numa mesa central. Confesso que não é muito tranquilizadora aquela trilha sonora, pois até identificar de onde vem o ruído, a lembrança de uma faca sendo amolada às tuas costas, traz alguns incômodos de ordem psicológica.

Meu dentista é um jovem acadêmico, ainda incipiente nesta arte, porém repleto de entusiasmo e correto no trato com os necessitados, como convém a quem é fadado ao sucesso na vida. Devido a sua compreensível inexperiência, fui testemunha de alguns "percalços" inerentes a qualquer neófito. Como o do dia em que apertado pelo tempo despendido, se atrapalhou naquele pequeno circuito de cadeira do paciente, mesa de instrumentos e a cadeira com "rodinhas". Ao se levantar para pegar o sugador, a cadeira de rodinhas foi um pouco para trás. Depois de acomodar o sugador na minha boca, meu dentista faz um movimento de nado sincronizado, de complicada execução: com o tornozelo empurra de novo a cadeira, enquanto os joelhos se dobram acomodando o glúteo para sentar numa cadeira que as rodinhas tinham levado pra longe, sem que ele percebesse. É daqueles momentos  em que tudo para! Sinto uma movimentação no ar e me encolho defensivamente. Ao lado do rosto, vejo passando rapidamente em direção ao teto duas solas de tênis 44. Logo depois o baque surdo das omoplatas se estatelando no chão, o grito dos mais assustados e o estouro dos instrumentos se espalhando. A clínica inteira cristaliza, os professores se postam atentos, os pacientes estremecem (alguns se levantam) e colegas se aproximam solícitos. Meu dentista vai se recompondo, muito encabulado, procurando retomar o mais rápido possível o seu trabalho organizando a baderna já feita.

Entre pequenas zombarias dos acadêmicos mais íntimos, um ou outro gracejo, passamos o resto da consulta quietos. Ele cabisbaixo, concentrado, evitando os olhares da turma e, de vez em quando me xingando, quando percebia minha cara divertida. Aquele ferrinho do início do texto raspava furioso o esmalte dos meus dentes.  

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Espírito Natalino

Aqui fica o Congo, terra do Mazembe!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Rádio - Quando quase demiti um colega

Essa eu fui culpado. Até hoje o meu colega acredita que foi pura sacanagem minha pra lhe derrubar. Saí da rádio às 6h e fui ficando pra aula de jornal na manhã, que começava pelas oito e meia. O professor não veio ou saiu mais cedo, ou eu não estava com saco, sei que tendo de esperar o transporte pra casa, que saía lá pelo meio dia, subi pra rádio e fiquei de galinhagem no estudio com o João Vicente Finamor. Era um tempo casto na emissora, o Pastor censurava muitas músicas. Por exemplo, HEIN? do Nei Lisboa não podia rodar porque tinha a palavra PORRA. O programador tinha de selecionar as músicas que tivessem palavras ofensivas. Era uma incomodação xarope, que até a IPANEMA tirava um sarro da gente.
Os dois ali, dizendo palhaçadas, o rádio na sala de jornalismo ligado em bom volume, quando deu o intervalo comercial. Sei que fui ajudar pra colocar um CD qualquer e por pura bobagem, liguei o microfone e acabei completando a obra dando um tapão nas costas do negrão, que com aquela voz que Deus lhe deu gritou forte e sonoro CORNO!!
Lembro da gente revirando a fita do DENTEL e o cara furioso, querendo me dar uns bofetes, preocupado com a demissão, para ouvirmos como tinha saído... E, ali, gelados ouvimos as cinco letrinhas bem alto, os dois suando frio. Passando uma semana desgraçada esperando que nos chamassem para explicações... Não deu em nada, mas o Finamor não quis mais brincadeiras no estúdio.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Torresmo

Mano relembrando seus ancestrais poloneses.
Eugênio e o mano sapecando orelhas e pés
Resultado final.
Deve ser bem desagrdável para o porco, mas junto com uns parentes, dividimos um leitão para as festas de fim de ano e carne para os próximos dias. Na função, muito técnica, compartilhada por várias pessoas, tem a atividade de preparar o torresmo. Uma arte,  o corte homogêneo e o cuidado de não queimar a banha. Depois, a prensagem. Meu mano e seu cunhado se empenharam e conseguiram um delicioso resultado, que ora compartilho. Colesterol? Bah! Não existe nessa época do ano.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Meu Dentista II - A cirurgia

Uma das coisas que me dá uma certa vergonha é a de sorrir e mostrar minha felicidade com o bocão aberto, escancarador de alegria. Nos últimos 15 anos, assim como meu vigor físico, meu sorriso vem encolhendo numa contração tímida, com as simpáticas covinhas vincando minhas bochechas. Isso porque me faltam alguns dentes, carência que resolvi suprir me submetendo aos planos de tratamento do meu dentista, figura que pode ostentar em seu curriculum vitae, ter sido meu aluno na tenra infância e  que pode retribuir em anos posteriores, a insuficiência crônica daquele mestre.
Em meio ao tratamento, que incluia uma vasta operação de guerra numa boca que mais parecia uma aldeia polonesa depois da passagem de uma divisão Panzer, na II Guerra, me foi dada a opção de retratar um dente ou fazer a extração do distinto. Confesso que foi uma decisão muito difícil, pois o referido molar era o suporte central da minha mastigação e de certa forma era uma relíquia pessoal, pois ao longo do tempo e pelo empenho de  vários profissionais se constituiu num monumento à engenharia bucal, com armação de pinos e amálgama, depois  a inserção de um núcleo, até chegar àquele dilema dentário. Foram 26 anos de tentativa de preservação do meu querido dentinho de estimação. Mas, não deu mais e, diante da perspectiva de colocar uma ferragem nova pra esmagar alimentos, optei pela extração.
Marcada a cirurgia, compareci tranquilo, pensando que seria rápido, iria pra casa, tomar as papinhas frias e sorvete para a cicatrização e pronto. Eu sou expert no assunto.

Na sala, específica para a cirurgia, havia a temível cadeira, dominando o cenário. Notei que faltavam algumas coisas, como o aparelho que "toca" a broca, coloca água ou ar e o sugador de saliva. Os demais apetrechos para o "evento" estavam bem na minha frente, despojados e brilhantes, inclusive aquele, de aspecto assustador, similar a um alicate inoxidável, cintilando na mesinha. Para minha surpresa, o meu dentista me apresentou uma colega acadêmica e me informou que ela faria os procedimentos. Ele seria o seu assistente. Ante a minha contrariedade, ela me garantiu que era "muito boa" naquilo, que seria fácil e cômodo, pois tinha mãos leves. Bem, aí já era tarde e, muito incomodado "fechei os olhos e entreguei a Deus". Na anestesia, já senti as mãos leves da moça que, ao contrário do meu dentista, deveria repetir a disciplina de Aplicar Injeções ou pensar em outra profissão. Estivador, talvez.

Passado o primeiro "impacto" e primeiro ato do drama, após alguns saltos na cadeira,  a anestia fez efeito e logo estavam afastando a gengiva do dente a fim de facilitar o procedimento. Próximo passo, afrouxar o dente e extraí-lo. Com sorte, sairia inteiro, era só costurar e eu iria pra casa. Mas, a senhorita mãos leves começou a forçar e forçar... Junto, minha cabeça começava a ir pra lá e pra cá e nada do dente sequer se mexer. A sensação é a de que todos os ossos daquela região fisiológica sofrem uma pressão brutal e de que podem partir-se de uma hora pra outra. Meu dentista teve a sua vez e também desistiu. Chama-se então o professor. Meu dentista me disse ao pé do ouvido que esse era o cabeção da área e que ficaria tudo bem. Eu acreditei.

Chega o mestre, e recomeça o sacolejo da minha cabeça. Vários termos técnicos são citados entre eles, os profissionais, quando de repente o professor pára e diz: Traz o motor! Bom, ali gelei do dedão do pé ao lóbulo da orelha. Meus cabelos já estavam em pé. Não só minha boca estava escancarada. meus olhos estavam do tamanho dela, querendo sair das órbitas. Então o poderoso mestre sai da sala e meu dentista foi providenciar o tal do motor, que estava em lugar incerto naquele momento.  Naquela agitação, percebo que passa um outro professor que comenta sobre meu caso. Diante da situação, ele fala em fazer um "envelopinho" e também saí da sala. Após um tempo para mim deprimentemente longo, surge o motor, ao qual acoplam uma broca. O mestre cabeção retorna e diz que a broca tem de ser da "mais grossa" e deve-se retirar mais da gengiva. Então, do nada, eis que diante dos meus olhos a senhorita das mãos leves ergue um  flamante bisturi e, em movimentos verticais e laterais daquele simpático apetrecho pergunta.: Professor eu corto de cima pra baixo ou de lado? Primeira vez que me deu a vontade de me sumir dali. Meu corpo enrigeceu de tal forma que o estofo da cadeira se transformou instantaneamente num pedaço de pau, com as costas e a bunda começando a doer, num incômodo crescente. Comecei a rezar. E praguejar internamente também.

Feitos os cortes, há o comentário de que o professor fulano havia mencionado em fazer o envelopinho. Mestre cabeção responde: Que envelopinho, que nada! Ligam o tal do motor e o brocão começa seu estrago no caminho recém aberto pelas mãos leves e seu bisturi. Por Deus! Parece que o dente tinha se fixado ao osso e teria de haver uma raspagem posterior nele, o osso. E eu ouvindo tudo aquilo, sem ao menos poder gritar por socorro, quando aparece todo paramentado para a cirurgia o nobre defensor do envelopinho. Quando percebeu que o seu envelopinho tinha sido descartado, fez um muxoxo e saiu para não voltar mais.

Antes porém, me salvou os olhos. De que jeito? Bem, como não havia o colocador de água na broca, a irrigação necessária deveria ser feita com uma seringa, com a devida agulha na ponta. Quem operava a seringa? Claro! A inesquecível mãos leves, que, entretida com o bighead em descontraída palestra sobre uma formatura recente e as atitudes pouco elogiáveis de determinado professor na cerimônia, mais as características do filho do mestre cabeção que recém chegara a este mundo e outros importantes assuntos para a ocasião, ficava com a seringa colada no meu rosto e a agulha dançando diantes dos meus olhos, conforme seu entusiasmo pelo papo e as respostas do mestre bighead. Vendo aquilo, professor envelopinho chama a atenção dela e dobra a agulha, o que afastou  aquele ente ameaçador alguns centímetros salvadores. E enfim saiu. Fiz uma prece de agradecimento pela sua alma. Mas nunca soube o que seria o tal de "envelopinho".

E a broca  do cabeção mandando ver, meu crânio trepidando a mil quando senti um sinistro cheiro de osso queimado. Pelo canto do olho vi o que aparentava ser faiscas saindo da minha boca. Me lembrei do esmeril de papai, que era funileiro, afiando as brocas da furadeira. Meu dentista me olhava preocupado pois eu parecia um arco-iris que trocava de cor de acordo com os comentários e instruções que eram sugeridas ali. Sabia que ele estava chateado pela conversa que era definitivamente desagradável para qualquer pessoa, ainda mais a um paciente. Fiquei feliz porque um valor ele havia desenvolvido, a ética. E eu senti que aquele colóquio, diante da situação o incomodou deveras.

Após um tempo interminável, o professor desliga a broca e recomeça aquele novo esporte de "empurra  a cabeça do Estácio" e, de repente, eu não ouço, mas meu corpo todo sente: KRUUUUCHHHHH! Sinto que algo se parte dentro da minha boca. Penso comigo se vou voltar a falar novamente.

Suando e com pinguinhos de sangue por todo o avental, master bighead, anuncia que o dente quebrou em pedaços e que seria necessário tirá-los um a um... Segunda vez  que deu aquela  "vontade de me mandar correndo". Ele seca o suor do rosto e diz que se viu apertado com  meu dente, mas que não era nada , pois  assumira aquela vaga, extraindo dentes, nas mesmas condiçoes, inclusive sem o sugador.  Isto implicava ter de usar gaze para secar a saliva e o sangue. Fiquei tão agradecido que quase me mijei ao invés de chorar de gratidão com aquelas palavras consoladoras.

Senhorita mãos leves então reassume o comando das ações e, premida pelo relógio, começa a extrair os cacos do dente. Findo aquele procedimento, após outros longos minutos, ouço a frase mais importante desde que a minha filha nasceu: Pronto, agora é só dar os pontos! Quase chorei de alegria. Minha bunda mais parecia um couro velho estirado cheio de percevejos e me contorcia de inexplicáveis caimbras nas pernas e costas, sob o olhar compungido do meu dentista. Imaginei que ele faria a sutura mas, para meu desespero, dona mãos leves diz que "era ótima" naquilo de sutura e começou um intrincado balé com as mãos, a linha e aquela agulha que mais parece um anzol de robalo, que até me recordou a minha mãe fazendo tricô na sala. As mãos bailando de lá prá cá, idas e vindas, murmúrios de satisfação quando acertava o ponto e algumas pragas quando não dava certo e recomeçava do zero. E a sensação do fiozinho vazando a carne, apesar da anestesia, era bem desagradável.

Bem, depois de mais de três horas e meia de duração, chegou ao fim aquela surreal experiência de vida. Eu não sentia mais minha boca, tinha uma vaga noção de que era um ser vivo, meus músculos estavam tão frouxos que levei um certo tempo para me firmar de pé, amparado pelo meu dentista. Meus olhos procuravam apenas uma coisa: a porta de saída.

Mas, quando colocava a mão fechadura, que me separava do mundo e da salvação, ouvindo distante as congratulações da senhorita mãos leves, às quais retribui, desejando intimamente que, quando chegasse a sua hora, parisse uma bigorna, quente de preferência, eis que aparece uma antiga professora (conhecida de outra cirurgia) muito simpática e querida que, ao ver o meu lamentável estado, sapecou: Quando eu olhei a radiografia e percebi como o paciente era "mignonzinho", senti que vocês teriam dificuldades. MIGNONZINHO!! Mais pareço uma miniatura de lutador de sumô, com 102kg em 1,67. MIGNON? E ela ainda dá  aula na cirurgia!? Se eu pudesse, gritava!

Com mais esta inexplicável aparição acreditei que era zombaria demais do destino. Liguei então o piloto automático e não sei como achei o caminho de casa, segurando o maxilar e um papelzinho na mão pra limpar a incontível baba. Foi quando, sozinho, criei coragem e olhei  pelo espelho o tamanho do estrago. Havia uma cratera ali!

Dias depois, quando estava secando, juro, dava pra enxergar a raiz do dente de trás. Fiquei mais de mês comendo papinha e alimentos macios, sentindo a saudade de um churrasco de costela e  amargando o arrependimento de nao ter escovado meus dentes como deveria.




Quando o sono derrubava o apresentador e a rádio.

Esta é uma historinha muito comum àqueles locutores-operadores que trabalham (ram) na madrugada. Eu fiz o horário da meia-noite às 6h (ah se eu tivesse colocado na justiça quando saí) durante um ano e pouco na 107.1 FM. Locução e programação a partir das duas. Fiz o diabo com a liberdade e a ajuda dos ouvintes. Tinha dias que dava certo, mas tinha dias que ficava devendo e muito como programador. Mas uma coisa invencível era o sono, o cansaço. Sozinho no estúdio, garrafinha térmica com café preto, palitinho nos olhos, dançar, trovar com ouvintes e pular feito um desvairado era a rotina quando o sono batia com força. Colocava o LP no velho e bom prato Technics e, pumba... Acordava com o telefone tocando, nariz colado na mesa de aúdio, e o barulhinho que o disco fazia quando chegava ao fim... A muito ouvinte agradeci o socorro.
Eu não ia nos shows da rádio por opção e geralmente trocava de horário com algum colega que queria ir. Num show do Paralamas, com a movimentação da banda na Universidade, fui ficando na rádio e troquei, com o Beto DJ emendando os horários da noite e madrugada. Na real, fiquei umas 30 horas sem dormir. Já tinham os modernos aparelhos de CDs (portanto o ruidinho caracteríscito do LP era coisa do passado), quando resolvi dar uma "encostadinha" no sofá. Quando dei por conta, o Mauro Borba me acordava enquanto o querido amigo e colega Ronaldo Fossati colocava a rádio "no ar". Tinham voltado do show para a rádio e no meio da BR116, sem "problemas técnicos", a 107 saiu do ar. Não dei muita explicação, porque não tinha o que defender e o chefe foi bem compreensivo diante da situação. Era seguir adiante. Há um capítulo sobre o sono na madruga no livro do Mauro. Ele só não deu nome ao boi...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Meu dentista - I

Como havia prometido para o meu dentista, vou deixar registrado aqui, em capítulos, as peripécias a que me expus, ao topar ser paciente dos acadêmicos de odontologia de uma universidade. Resolvi escrever ao perceber que das pessoas que iniciaram seus tratamentos comigo, uma considerável parte saltava fora. Eu, ia permanecendo, seguindo a risca o plano de ação dos professores e do meu dentista. Notava como era comum a desistência dos "colegas", suas seguidas faltas, deixando os alunos esperando, avental branco e de broca na mão.
Não tenho a intenção da crítica, antes pretendo ajudar, mostrando o ponto de vista do paciente, o cara que sofre lá, sentadinho, boca escancarada e olhos arregalados. Há a questão humana (dor e medo) que colide com a postura profissional e técnica dos professores e alunos. Vou ilustrar.
Para meu azar, meus dentes mais complicados ficam em posição de difícil acesso e, em alguns casos, as raízes eram um tanto curvas. Num deles tive de retratar os canais. Vamos lá então, abre o dente com a broca a todo o vapor, expõem-se os canais e lá vai o extrator de nervo (era esse o nome que eu ouvia) cumprir sua rotina de limpar o orifício. Seria assim se não fossem as interrupções ao chamar o professor para avaliar passo a passo o desempenho do acadêmico, o que transforma o processo numa maratona de duas a três horas de função na minha boca. Num dos canais, tinha uma complicação. Chama-se o monitor. O monitor assume e vai mais um tempo, para mim excessivamente longo. Não resolve, chama-se o professor da área e segue a furunfação na minha boca, agora com a assistência do monitor, meu dentista e de alguns alunos que, naturalmente se interessam por um caso mais difícil. Daqui a pouco minha mandíbula rangendo pelo esforço de se manter aberta para que uma mão inteira pudesse operar, passa alguem que sugere algo, ao que professor responde, exibido: Eu sou da OLD SCHOOL!  E continua por mais uma meia hora, até que se dá por vencido, meio constrangido, é verdade. Daí fiquei preocupado. Estava ali há mais duas horas e, aparentemente com um problema insolúvel. Ele dá uma ordem ao meu dentista e vai para outro caso. O coração velho já batia descompassado quando o aluno, coloca umas duas gotas de uma solução no meu dente, fuça mais um pouco com o equipamento e diz: pronto. Depois, em seguida, fecha o dente e diz que terminou. É óbvio que perguntei o porque daquilo tudo. Então ele me explica que o procedimento naqueles casos era tentar ao máximo sem a aplicação da solução pois assim os alunos poderiam treinar diante da adversidade. Fiquei dois dias com dor na musculatura da mandíbula e com uma vontade crescente de não retornar, temendo colocar minhas nádegas naquela cadeirinha. Mas a pior dor acho que foi se sentir como uma cobaia experimental. Hoje eu sei como se sente um ratinho de laboratório. OLD SCHOOL é a casa do C...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

The End

Ontem foi o que eu imagino, quero e desejo, meu último dia como professor. Há anos venho falando nisso. Agora, acho que agora vai dar. Participei da celebração de Natal dos pequerruchos da Escola que ora trabalho. Foram mais de 15 anos em sala de aula, aprendendo bem mais do que ensinando alguma coisa. Milhares de vidas iniciantes que passaram pela minha tão cansada. A grande maioria, alegres crianças, mas também lidei com adolescentes, com suas neuroses, expectativas, paixões e solidão. Sim, parei num plano de psiquiatria. Não fui exceção. Ser professor hoje exige vigor físico e saber tecnológico, um poderoso autocontrole aliado a sólidos conhecimentos da matéria e, por fim, uma monumental capacidade de silêncio interior, que forma uma capa protetora (carapaça) que engrossa com o passar dos tempos, tornando-o  insensível, insípido e inodoro. Parei antes! Preciso viver mais uns 20 anos...

Acho que nada se compara ao dia a dia da escola. Tanto para o bem como para o mal. Há o trabalho árduo e muito mal recompensado dos professores e o constante burburinho das salas - é um som único que se espalha pelos corredores, pátios, enfim, todos os cantinhos da escola. Nela habita o aluno que quer e busca, aquele outro que não quer nada com compromisso e os infantes (a maioria) que a gente empurra ano afora, esperando que pegue no tranco. Tive uma aluna que hoje é veterinária e faz Mestrado na USP e meu dentista, coitado, sofreu o diabo nas mãos de um professor inexperiente, mas bem intencionado, eu garanto. 
A movimentação cotidiana da escola geralmente é invariável. Acontece o corre-corre quando uma criança se machuca, a chatice da coordenação quando as coisas dão errado, a reclamação dos pais, exigindo resultados do aluno que muitas vezes não sabe como parou ali, está sem a mínima ideia de onde aquilo vai dar e que conta as horas pra voltar pro videogame, chat, msn, facebook, orkut e outros modernos instrutores. Tive alguns colegas para quem um email era uma carta alienígena e os recursos da revolução digital, estorvos.
Completamente ultrapassados, perderam seus empregos maldizendo dos avanços que os atropelaram sem piedade. Recebi no peito o impacto das mudanças, tendo de buscar alternativas que me habilitassem a conciliar as exigências curriculares, tecnologia e o essencial, mas sempre relegado olhar humano àquelas criaturinhas. Sem este olhar não existe a educação, não acontece a formação de um homem/mulher apto e capaz. Quando percebi que meu olhar estava vesgo e se fechando na hora errada, senti que era hora de pendurar o Caderno Diário e buscar outro caminho. 
Na minha porta bate um grande vazio que ainda não sei como complementar. 

Papai Noel antecipado...

Depois de dois dias rindo muito com o desenlace do jogo SCI 0x2 Amigos do Paulão (zagueiro do GFP), consegui um pouco de serenidade pra continuar montando este diário sem cabeça nem pé. Sei que um dia haverá a volta, mas a flauta é sagrada e é dever de todo o torcedor exercê-la com afinco quando a oportunidade se escancara. Ainda mais quando o grande colorado nos dá um inolvidável presente de fim de ano. Hoje eu digo: Acredito em Papai Noel e ele usa roupa vermelha e tem trenó. Seus assessores duendes são os onze africanos que ensinaram a boa e oportuna lição da humildade a todos os esportistas, amantes do ludopédio.
Imagem do ano?

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

domingo, 12 de dezembro de 2010

Santos sacerdotes...

Não sou um primor de religioso. Conheço algumas crenças e pessoas de diversos credos. Tenho amigos espíritas, umbandistas. Tenho amigos pastores e padres. Estranho que nenhum dos meus amigos se diz ateu. Aliás, conheço poucos ateus. Porque estou falando nisso? Bem, é que em tempos de falação generalizantes sobre padres pedófilos, me lembrei de dois homens consagrados, com quem pude conviver, aprender, admirar suas obras e tê-los como referência espiritual. Refiro-me a frei Arno Reckziegel e o sacerdote polônes Leon Lisiewicz, mais conhecido como o Padre Léo da Igreja Polonesa.
Não pretendo alugar ninguém repassando a biografia destes, prefiro recordar do sorriso estampado a cada encontro, o espírito de acolhida e a forma terna como lidavam com os pequenos. Frei Arno explicava a Liturgia às crianças, pacientemente a cada celebração no Santa Família. Padre Léo, por sua vez, ergueu uma obra voltada às crianças pobres do 4o Distrito, em prédio anexo à Igreja dos Poloneses. Lástima que poucos conheçam a história de ambos. A eles, meu perene agradecimento e minha homenagem.

http://www.franciscanos.org.br/noticias/noticias2008/noticia189.php
http://www.poloniapoa.org/revista/09/biografia.pdf

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Coisas que a gente devia mas não esquece...

Essa é outra do tempo em que eu culpava os outros. É triste. Vale pelo tamanho da tristeza penso eu...

Não gosto de vir nesta casa. Nela está o entulho da minha infância. Cada parede recende a lamentos e murmúrios de dor, angústia e expectativa. No assoalho, eu deitava colando o nariz no chão, beijando o pó, enquanto as mãos tapavam os ouvidos. Assim acreditava que fugia da constante presença da morte.

Uma mescla de perene tristeza e fugaz alegria resumem os meus dias naquele pátio sem ornamentos. Limpo, simples e pobre. A doença que matou meu pai comigo nasceu. Tive mais sorte que ele ao curá-la antes de completar um ano. Ele enterrou sua juventude e o restante dos dias maduros dentro dos frascos, suas promessas de reabilitação e uma religiosa esperança. Depois eu já moço, enterrei seu corpo. E trouxe comigo uma saudade que não consegui sepultar.