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terça-feira, 26 de julho de 2011

Os poloneses IV - Os ex-combatentes

Andava eu enfronhado nos livros e documentos da sociedade, e me recordo da surpresa que tinha com as informações pouco conhecidas sobre as escolas, festas, teatros, outras associações e o cotidiano dos poloneses  em Porto Alegre. Mas nada mexeu tanto comigo como as menções sobre os voluntários da II Guerra. Voluntários? Nunca havia ouvido falar nisso e, como historiador amador, busquei conhecer mais sobre o tema. Minha surpresa aumentou quando, numa homenagem realizada pela Sociedade Polônia, em 1997, me deparei em carne e osso com os senhores Mieczyslaw Niemiec -que participou do Dia D, combatente ferido na Batalha de Falaise, o senhor Wojciech Plewinski - do exército nacional chamado Armia Krajowa e Marjan Zuba, voluntário do Dia D, que também tombou ferido. 
Todo o menino da minha geração tinha um fascínio cativo pelos soldados. Mas aqueles não eram apenas soldados  e sim, heróis de guerra. Eles realmente lutaram. Estiveram na linha de frente, diante de canhões e metralhadoras inimigas. Havia elegido três heróis da noite para o dia.
Mais adiante, fiz amizade com eles e pude entrevistar os Srs Zuba e Niemiec. Este havia sido presidente da Sociedade Polônia. Através deles fiquei sabendo que partiram em 1942, numa ampla mobilização que buscava nas Américas, recrutas para o exército polonês organizado pelo governo exilado em Londres. Ambos gostavam de conversar sobre as experiências vividas e, como minha maior qualidade é saber ouvir, aprendi muito com eles. Mais do que nos livros. 
Este comportamento patriótico dos poloneses me enchia de orgulho e, era inflado dele, que dizia ter amigos que lutaram na França. Mais adiante soube que na I Guerra havia um outro grupo de poloneses que partiram daqui em socorro aos seus concidadãos, formando o Exército Azul de Haller em fins de 1917.
Ainda está vivo hoje o sr. Niemiec e as entrevistas que pude fazer foram uma experiência de vida única, muito distante do romantismo dos filmes que evocam os combates das grandes guerra. Ele dizia que aqueles soldados não lutavam contra o povo alemão, mas sim, pela " nossa e vossa liberdade". 
Do senhor Zuba guardo uma pitoresca história. A escritora gaúcha Letícia Wierzchowski procurava colegas de farda do seu avô Jan que foi um destes voluntários. Nos reunimos na Sociedade Polônia e, durante duas horas ela conversou com o seu Zuba sobre as experiências deste, tentando construir o ambiente para o seu livro, Uma Ponte Para Terebin. Zuba nos passou a sensação de que os anos haviam afastado os fatos da memória e muita coisa ficou um pouca vaga. Ao final do encontro, eu e meu compadre oferecemos carona para ele. Eu fiquei no banco de trás e ele se acomodou no banco ao lado do motorista. Eu, gentil, perguntei se ele estava bem confortável. Ele me responde:
- Pra quem pilotou um tanque Cromwell, este banco é um luxo.
Como não querendo nada, pedi que me descrevesse se havia perigo em dirigir aquela arma de guerra.
- Bem, dependia de como estava a torre do canhão, pois se fossemos atingidos por um disparo, o veículo pegava fogo e, se a torre não estivesse reta, não tinha como sair, pois o espaço era apertado e o piloto morria queimado, falou ele. 
- Mas, seu Zuba, o senhor foi ferido com um tiro na perna! Dentro do tanque? Provoquei...
Então, ouvimos eu e Sidnei Ordakowski o impressionante relato, de tal forma claro, que hoje (seu Zuba morreu em 2006), posso descrever quase palavra por palavra:
- Meu carro era o primeiro de uma grande coluna e, ao ultrapassarmos uma curva, não percebemos uma bateria anti-tanques que abriu fogo contra nós. O primeiro disparo atravessou o tanque e um incêndio tomou conta do interior. Logo estávamos pulando pela torre e os inimigos começaram a atirar em nós, alvos fáceis. Nossos companheiros lançaram a nossa frente bombas de fumaça para confundir o inimigo. Ainda atordoado fiquei de pé e vi, numa trincheira, um alemão apontando uma pistola pra mim. Senti uma dor forte na perna e caí no chão. 
Ele tomou fôlego por um momento. Eu mal respirava. Perguntei então como ele havia saído daquela situação, ao que ele respondeu:
- Meu filho, eu era muito novo e gostava de fitas (filmes). Gostava muito de cinema. E aquilo pra mim, parecia uma cena das fitas. Eu, deitado, o tiro havia atravessado a coxa, olhei para céu e me perguntava: Estou vivo ou morri? Estou vivo ou morri? Tocava meu corpo, meus braços, mãos e dedos e, então senti que estava vivo. Senti que queria viver mais! Me levantei e do jeito que deu, comecei a correr e correr em direção aos meus companheiros, fui passando por eles até que me "agarraram", me "sacudiram" e me colocaram numa maca.
Silêncio total no carro...
- E então?
 - Ali foi o fim da Guerra para mim.

Tadeu Cerski e Marjan Zuba na Igreja Polonesa em POA

Marjan Zuba, eu e Tadeu Cerski
Em 2005, o Cekaw junto com outras associações prestou uma justa homenagem a todos os ex-combatentes poloneses que haviam servido na Europa durante a II Guerra. Naquela época a lista dos gaúchos-poloneses era de mais de sessenta. Lá estava também o Tenente Coronel Tadeu Cerski, descendente de poloneses, pracinha da FEB e herói de Monte Castelo. Seu emocionante relato sobre sua passagem na aldeia de Monte Cassino, após os sangrentos combates do II Korpus polonês, tocou a todos os presentes.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito interessante e valioso relato!