As pesquisas e andanças que culminaram com a criação da Galeria de Ex-presidentes da Sociedade Polônia de Porto Alegre reservaram-me momentos únicos com seus familiares. Os passados, interessantes, engraçados e alguns muito tristes, eram colocados no meu colo, junto com as fotografias de homens e mulheres que há mais de meio século não estavam entre nós.
Foram tantas histórias que, de tão pessoais e reservadas a apenas um núcleo familiar, achei que não deveria registrar, apenas guardei comigo, como um legado confiado, pelos meus "velhinhos". Nas muitas ocasiões que visitei sozinho a galeria, peguei-me conversando com os quadros lindamente emoldurados, refletindo, fazendo paralelos entre as diversas versões que seus familiares deram àquelas vidas, viajando no tempo, avaliando as decisões que eles tomaram e selaram os destinos da Sociedade.
Ainda hoje, ao escrever, questiono-me se devo usar seus verdadeiros sobrenomes nos relatos, ou criar fakes, evitando assim eventuais constrangimentos aos descendentes. Pensando ser a polêmica desnecessária e, em respeito a memória dos meus entrevistados, que partilharam um pouco de suas vidas comigo, quando possível, trocarei os nomes, sem prejuízo da história, que é o objetivo final destes textos.
Sem uma metodologia de trabalho acadêmica, ia de espírito livre e desarmado entrevistar os diversos descendendentes de um mesmo ex-presidente e, então, deparava-me com relatos idênticos nos vários ramos da família. Para horror dos historiadores de verdade, nunca os anotei no papel. Na realidade, estava mais interessado no foco da pesquisa que eram as fotografias.
Normalmente saia da casa carregado de fotos e histórias que, com o passar dos meses iam-se somando, acumulando, dando uma boa perspectiva de como era a vida dos pioneiros poloneses na cidade de Porto Alegre. Este conto, que chamei de mande lembranças minhas, dá uma pequena noção de quão interessante foi aquela Odisséia.
A partir da lista que me apresentaram, logo percebi que haviam três pessoas com o sobrenome Zórawski, nas primeiras décadas de vida da associação. Conversando com os mais antigos membros ativos da sociedade, concluí que eram completamente desconhecidos dos tempos modernos.
Quando tive a oportunidade de entrevistar o ex-presidente Wladislaw Zurawski, já com 90 anos, perguntei se ele conhecia algum daqueles três: Józef, Sylwester e Adam Zórawski, visto que a pronúncia dos sobrenomes ser a mesma: JURAFSKI. Ele me disse que conheceu Sylwester, mas não havia relação de parentesco e muito menos sabia de algum descendente dele. Porta fechada! Volto a lista novamente. Eram eles parentes, vizinhos, primos, irmãos, tios e sobrinhos? Muitos pontos de interrogação...
Paralelamente ao sucesso do andamento da pesquisa com os outros ex-presidentes, volta e meia questionava se aquele sobrenome não estava inserido na árvore genealógica da família que ora eu estava visitando. Nada. E as pesquisas de Diego Pufal recém estavam iniciando.
Quando tive a oportunidade de entrevistar o ex-presidente Wladislaw Zurawski, já com 90 anos, perguntei se ele conhecia algum daqueles três: Józef, Sylwester e Adam Zórawski, visto que a pronúncia dos sobrenomes ser a mesma: JURAFSKI. Ele me disse que conheceu Sylwester, mas não havia relação de parentesco e muito menos sabia de algum descendente dele. Porta fechada! Volto a lista novamente. Eram eles parentes, vizinhos, primos, irmãos, tios e sobrinhos? Muitos pontos de interrogação...
Paralelamente ao sucesso do andamento da pesquisa com os outros ex-presidentes, volta e meia questionava se aquele sobrenome não estava inserido na árvore genealógica da família que ora eu estava visitando. Nada. E as pesquisas de Diego Pufal recém estavam iniciando.
Inconformado, visitei os arquivos das fichas dos sócios. Depois de horas de empoeirada pesquisa, ficha a ficha, achei a inscrição de Ronaldo Zórawski, morador de Gravataí. Uma ficha relativamente recente, do início dos anos oitenta. Peguei o endereço e fui atrás. Como não dirijo, viajei de ônibus.
Cheguei no local e era um condomínio, de onde este senhor (com quem nunca falei) havia se mudado a algum tempo. Recordo que fui atendido pelos vizinhos e, depois de explicar a razão da minha pesquisa encontrei simpatia e solidariedade. Levaram-me então à decana dos moradores que disse se recordar dele, mas não sabia para onde tinham ido. Passei um longa tarde de prosa, mas totalmente infrutífera. Voltei pra casa muito decepcionado, imaginando que a galeria poderia ficar incompleta, afinal já havia se passado meio ano e, fora algumas fotografias do Sylwester nas atividades da sociedade, não havia registros que me assegurassem quem eu devia emoldurar.
Com a confiança abalada, no dia seguinte resolvi esfriar a cabeça e visitar uma tia, que morava na Rua Garibaldi. Antes, resolvi passar no mercado público pra comprar umas peras, que ela muito apreciava. Pensei em fazer o caminho a pé, organizando as ideias e as próximas visitas. Estas caminhadas, onde passava a maior parte do tempo meditando, geralmente eram orientadas pelos meus pés, o que, às vezes, tornava um caminho de três quilômetros em cinco ou seis.
Passando por uma pequena rua do centro, percebo pelo canto do olho, retirado, quase escondido, o escritório de administração de um grande cemitério da cidade. Quase torci o pé, pois meu cérebro ordenou que eu continuasse caminhando mas o meu corpo todo tomou a direção daquela porta.
Depois da identificação, apresentações e explicações de praxe a um atendente, me encaminharam a um superior, onde repeti a mesma ladainha. Impaciente já pensava em ir embora quando o cidadão me passou uma longa lista, com os sobrenomes dos sepultados naquele cemitério.
Mais uma porta se abria, com diversos corredores a serem percorridos.
Nem preciso citar o primeiro sobrenome que procurei e, com um frio na barriga, juro que tremia de ansiedade quando li: Józef Zórawski, número da sepultura tal... Logo abaixo, mais familiares e, por fim, nome, telefone e o endereço do responsável. O mais engraçado foi o endereço: Rua Garibaldi.
Ri alto na hora, o que deixou algumas pessoas de olhar esquisito pra mim. A pessoa que eu procurava vivia a duas quadras da minha tia, na rua em que me criei no Bom Fim. Tão logo cheguei na tia marquei a entrevista para a mesma tarde. Nem almocei direito.
Fui recebido pela senhora Zywia Anusz, neta de Józef Zórawski, que para minha grata surpresa preservava um grande acervo fotográfico, documental e bibliográfico da família, com a foto de quase todos os irmãos. Pois, Józef, Sylwester e Adam eram irmãos e os três igualmente foram presidentes da Sociedade Polônia. Entre tantes fotos históricas havia a da apresentação da peça Lobzowianie e do grupo de voluntários que sairam de POA para lutar pela Polônia na I Guerra Mundial, no exército azul de Haller. O motivo da foto dos combatentes estar com ela, só desvendei uma década depois, quando li o Relatório de Michal Chmielewski ao governador Borges de Medeiros sobre a passagem do Tenente Henryk Abczynski pelas colônias polonesas no estado, buscando recrutas. Józef Zórawski, foi o presidente do comitê que liderou a comunidade naqueles tempos de guerra. Da foto, dona Zywia sabia apenas que a tarja com a Águia da Polônia, que está no braço de cada voluntário foi confeccionada pela sua avó, Maria Pawlowski Zórawski.
Passando por uma pequena rua do centro, percebo pelo canto do olho, retirado, quase escondido, o escritório de administração de um grande cemitério da cidade. Quase torci o pé, pois meu cérebro ordenou que eu continuasse caminhando mas o meu corpo todo tomou a direção daquela porta.
Depois da identificação, apresentações e explicações de praxe a um atendente, me encaminharam a um superior, onde repeti a mesma ladainha. Impaciente já pensava em ir embora quando o cidadão me passou uma longa lista, com os sobrenomes dos sepultados naquele cemitério.
Mais uma porta se abria, com diversos corredores a serem percorridos.
Nem preciso citar o primeiro sobrenome que procurei e, com um frio na barriga, juro que tremia de ansiedade quando li: Józef Zórawski, número da sepultura tal... Logo abaixo, mais familiares e, por fim, nome, telefone e o endereço do responsável. O mais engraçado foi o endereço: Rua Garibaldi.
Ri alto na hora, o que deixou algumas pessoas de olhar esquisito pra mim. A pessoa que eu procurava vivia a duas quadras da minha tia, na rua em que me criei no Bom Fim. Tão logo cheguei na tia marquei a entrevista para a mesma tarde. Nem almocei direito.
Fui recebido pela senhora Zywia Anusz, neta de Józef Zórawski, que para minha grata surpresa preservava um grande acervo fotográfico, documental e bibliográfico da família, com a foto de quase todos os irmãos. Pois, Józef, Sylwester e Adam eram irmãos e os três igualmente foram presidentes da Sociedade Polônia. Entre tantes fotos históricas havia a da apresentação da peça Lobzowianie e do grupo de voluntários que sairam de POA para lutar pela Polônia na I Guerra Mundial, no exército azul de Haller. O motivo da foto dos combatentes estar com ela, só desvendei uma década depois, quando li o Relatório de Michal Chmielewski ao governador Borges de Medeiros sobre a passagem do Tenente Henryk Abczynski pelas colônias polonesas no estado, buscando recrutas. Józef Zórawski, foi o presidente do comitê que liderou a comunidade naqueles tempos de guerra. Da foto, dona Zywia sabia apenas que a tarja com a Águia da Polônia, que está no braço de cada voluntário foi confeccionada pela sua avó, Maria Pawlowski Zórawski.

2 comentários:
Sou Glauco Zorawski, filho de Ricardo de Jesus Zorawski, Filho de Lúcio Zorawski, filho de Sylvester Zorawski. Obrigado pelo belo trabalho.
Sou Alexandro Zorawski; bisneto de Silvestre e Lucinda, neto de Lúcio e Maria Anadir, filho de Ricardo e Ivone, sobrinho de Ronaldo, irmão de Cristiano e Glauco, pai de Ricardo e Rodrigo. Também sou um agradecido de Estácio, que tanta informação importante nos traz.
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