Ontem foi o que eu imagino, quero e desejo, meu último dia como professor. Há anos venho falando nisso. Agora, acho que agora vai dar. Participei da celebração de Natal dos pequerruchos da Escola que ora trabalho. Foram mais de 15 anos em sala de aula, aprendendo bem mais do que ensinando alguma coisa. Milhares de vidas iniciantes que passaram pela minha tão cansada. A grande maioria, alegres crianças, mas também lidei com adolescentes, com suas neuroses, expectativas, paixões e solidão. Sim, parei num plano de psiquiatria. Não fui exceção. Ser professor hoje exige vigor físico e saber tecnológico, um poderoso autocontrole aliado a sólidos conhecimentos da matéria e, por fim, uma monumental capacidade de silêncio interior, que forma uma capa protetora (carapaça) que engrossa com o passar dos tempos, tornando-o insensível, insípido e inodoro. Parei antes! Preciso viver mais uns 20 anos...
Acho que nada se compara ao dia a dia da escola. Tanto para o bem como para o mal. Há o trabalho árduo e muito mal recompensado dos professores e o constante burburinho das salas - é um som único que se espalha pelos corredores, pátios, enfim, todos os cantinhos da escola. Nela habita o aluno que quer e busca, aquele outro que não quer nada com compromisso e os infantes (a maioria) que a gente empurra ano afora, esperando que pegue no tranco. Tive uma aluna que hoje é veterinária e faz Mestrado na USP e meu dentista, coitado, sofreu o diabo nas mãos de um professor inexperiente, mas bem intencionado, eu garanto.
A movimentação cotidiana da escola geralmente é invariável. Acontece o corre-corre quando uma criança se machuca, a chatice da coordenação quando as coisas dão errado, a reclamação dos pais, exigindo resultados do aluno que muitas vezes não sabe como parou ali, está sem a mínima ideia de onde aquilo vai dar e que conta as horas pra voltar pro videogame, chat, msn, facebook, orkut e outros modernos instrutores. Tive alguns colegas para quem um email era uma carta alienígena e os recursos da revolução digital, estorvos.
Completamente ultrapassados, perderam seus empregos maldizendo dos avanços que os atropelaram sem piedade. Recebi no peito o impacto das mudanças, tendo de buscar alternativas que me habilitassem a conciliar as exigências curriculares, tecnologia e o essencial, mas sempre relegado olhar humano àquelas criaturinhas. Sem este olhar não existe a educação, não acontece a formação de um homem/mulher apto e capaz. Quando percebi que meu olhar estava vesgo e se fechando na hora errada, senti que era hora de pendurar o Caderno Diário e buscar outro caminho.
Na minha porta bate um grande vazio que ainda não sei como complementar.

3 comentários:
Não há perdas onde há dedicação e paixão!
Você fez sorrir, provocou a curiosidade, envolvou os pequenos com grandes atenções.
Eles não lhe darão dinheiro, não sonharão em reencontrá-lo algum dia, sequer poderão lembrar de você em vinte anos, mas estarão atendendo seus pacientes com esmero e amor, cantarão usando a alma, dirigirão o automóvel da família com muita atenção. Ao fim e ao cabo, sua dedicação trará retorno. Não somente para você, nem diretamente para você. Será um retorno maior e mais complexo.
Parabéns, sempre professor, Estácio!
Não há perdas onde há dedicação e paixão!
Você fez sorrir, provocou a curiosidade, envolvou os pequenos com grandes atenções.
Eles não lhe darão dinheiro, não sonharão em reencontrá-lo algum dia, sequer poderão lembrar de você em vinte anos, mas estarão atendendo seus pacientes com esmero e amor, cantarão usando a alma, dirigirão o automóvel da família com muita atenção. Ao fim e ao cabo, sua dedicação trará retorno. Não somente para você, nem diretamente para você. Será um retorno maior e mais complexo.
Parabéns, sempre professor, Estácio!
É minha Lívia na foto?! Foi muito bom ela ter passado pelas suas mãos. Ela adorava suas aulas de música, foram dois anos maravilhosos. Abraço.
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