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domingo, 19 de dezembro de 2010

Meu Dentista II - A cirurgia

Uma das coisas que me dá uma certa vergonha é a de sorrir e mostrar minha felicidade com o bocão aberto, escancarador de alegria. Nos últimos 15 anos, assim como meu vigor físico, meu sorriso vem encolhendo numa contração tímida, com as simpáticas covinhas vincando minhas bochechas. Isso porque me faltam alguns dentes, carência que resolvi suprir me submetendo aos planos de tratamento do meu dentista, figura que pode ostentar em seu curriculum vitae, ter sido meu aluno na tenra infância e  que pode retribuir em anos posteriores, a insuficiência crônica daquele mestre.
Em meio ao tratamento, que incluia uma vasta operação de guerra numa boca que mais parecia uma aldeia polonesa depois da passagem de uma divisão Panzer, na II Guerra, me foi dada a opção de retratar um dente ou fazer a extração do distinto. Confesso que foi uma decisão muito difícil, pois o referido molar era o suporte central da minha mastigação e de certa forma era uma relíquia pessoal, pois ao longo do tempo e pelo empenho de  vários profissionais se constituiu num monumento à engenharia bucal, com armação de pinos e amálgama, depois  a inserção de um núcleo, até chegar àquele dilema dentário. Foram 26 anos de tentativa de preservação do meu querido dentinho de estimação. Mas, não deu mais e, diante da perspectiva de colocar uma ferragem nova pra esmagar alimentos, optei pela extração.
Marcada a cirurgia, compareci tranquilo, pensando que seria rápido, iria pra casa, tomar as papinhas frias e sorvete para a cicatrização e pronto. Eu sou expert no assunto.

Na sala, específica para a cirurgia, havia a temível cadeira, dominando o cenário. Notei que faltavam algumas coisas, como o aparelho que "toca" a broca, coloca água ou ar e o sugador de saliva. Os demais apetrechos para o "evento" estavam bem na minha frente, despojados e brilhantes, inclusive aquele, de aspecto assustador, similar a um alicate inoxidável, cintilando na mesinha. Para minha surpresa, o meu dentista me apresentou uma colega acadêmica e me informou que ela faria os procedimentos. Ele seria o seu assistente. Ante a minha contrariedade, ela me garantiu que era "muito boa" naquilo, que seria fácil e cômodo, pois tinha mãos leves. Bem, aí já era tarde e, muito incomodado "fechei os olhos e entreguei a Deus". Na anestesia, já senti as mãos leves da moça que, ao contrário do meu dentista, deveria repetir a disciplina de Aplicar Injeções ou pensar em outra profissão. Estivador, talvez.

Passado o primeiro "impacto" e primeiro ato do drama, após alguns saltos na cadeira,  a anestia fez efeito e logo estavam afastando a gengiva do dente a fim de facilitar o procedimento. Próximo passo, afrouxar o dente e extraí-lo. Com sorte, sairia inteiro, era só costurar e eu iria pra casa. Mas, a senhorita mãos leves começou a forçar e forçar... Junto, minha cabeça começava a ir pra lá e pra cá e nada do dente sequer se mexer. A sensação é a de que todos os ossos daquela região fisiológica sofrem uma pressão brutal e de que podem partir-se de uma hora pra outra. Meu dentista teve a sua vez e também desistiu. Chama-se então o professor. Meu dentista me disse ao pé do ouvido que esse era o cabeção da área e que ficaria tudo bem. Eu acreditei.

Chega o mestre, e recomeça o sacolejo da minha cabeça. Vários termos técnicos são citados entre eles, os profissionais, quando de repente o professor pára e diz: Traz o motor! Bom, ali gelei do dedão do pé ao lóbulo da orelha. Meus cabelos já estavam em pé. Não só minha boca estava escancarada. meus olhos estavam do tamanho dela, querendo sair das órbitas. Então o poderoso mestre sai da sala e meu dentista foi providenciar o tal do motor, que estava em lugar incerto naquele momento.  Naquela agitação, percebo que passa um outro professor que comenta sobre meu caso. Diante da situação, ele fala em fazer um "envelopinho" e também saí da sala. Após um tempo para mim deprimentemente longo, surge o motor, ao qual acoplam uma broca. O mestre cabeção retorna e diz que a broca tem de ser da "mais grossa" e deve-se retirar mais da gengiva. Então, do nada, eis que diante dos meus olhos a senhorita das mãos leves ergue um  flamante bisturi e, em movimentos verticais e laterais daquele simpático apetrecho pergunta.: Professor eu corto de cima pra baixo ou de lado? Primeira vez que me deu a vontade de me sumir dali. Meu corpo enrigeceu de tal forma que o estofo da cadeira se transformou instantaneamente num pedaço de pau, com as costas e a bunda começando a doer, num incômodo crescente. Comecei a rezar. E praguejar internamente também.

Feitos os cortes, há o comentário de que o professor fulano havia mencionado em fazer o envelopinho. Mestre cabeção responde: Que envelopinho, que nada! Ligam o tal do motor e o brocão começa seu estrago no caminho recém aberto pelas mãos leves e seu bisturi. Por Deus! Parece que o dente tinha se fixado ao osso e teria de haver uma raspagem posterior nele, o osso. E eu ouvindo tudo aquilo, sem ao menos poder gritar por socorro, quando aparece todo paramentado para a cirurgia o nobre defensor do envelopinho. Quando percebeu que o seu envelopinho tinha sido descartado, fez um muxoxo e saiu para não voltar mais.

Antes porém, me salvou os olhos. De que jeito? Bem, como não havia o colocador de água na broca, a irrigação necessária deveria ser feita com uma seringa, com a devida agulha na ponta. Quem operava a seringa? Claro! A inesquecível mãos leves, que, entretida com o bighead em descontraída palestra sobre uma formatura recente e as atitudes pouco elogiáveis de determinado professor na cerimônia, mais as características do filho do mestre cabeção que recém chegara a este mundo e outros importantes assuntos para a ocasião, ficava com a seringa colada no meu rosto e a agulha dançando diantes dos meus olhos, conforme seu entusiasmo pelo papo e as respostas do mestre bighead. Vendo aquilo, professor envelopinho chama a atenção dela e dobra a agulha, o que afastou  aquele ente ameaçador alguns centímetros salvadores. E enfim saiu. Fiz uma prece de agradecimento pela sua alma. Mas nunca soube o que seria o tal de "envelopinho".

E a broca  do cabeção mandando ver, meu crânio trepidando a mil quando senti um sinistro cheiro de osso queimado. Pelo canto do olho vi o que aparentava ser faiscas saindo da minha boca. Me lembrei do esmeril de papai, que era funileiro, afiando as brocas da furadeira. Meu dentista me olhava preocupado pois eu parecia um arco-iris que trocava de cor de acordo com os comentários e instruções que eram sugeridas ali. Sabia que ele estava chateado pela conversa que era definitivamente desagradável para qualquer pessoa, ainda mais a um paciente. Fiquei feliz porque um valor ele havia desenvolvido, a ética. E eu senti que aquele colóquio, diante da situação o incomodou deveras.

Após um tempo interminável, o professor desliga a broca e recomeça aquele novo esporte de "empurra  a cabeça do Estácio" e, de repente, eu não ouço, mas meu corpo todo sente: KRUUUUCHHHHH! Sinto que algo se parte dentro da minha boca. Penso comigo se vou voltar a falar novamente.

Suando e com pinguinhos de sangue por todo o avental, master bighead, anuncia que o dente quebrou em pedaços e que seria necessário tirá-los um a um... Segunda vez  que deu aquela  "vontade de me mandar correndo". Ele seca o suor do rosto e diz que se viu apertado com  meu dente, mas que não era nada , pois  assumira aquela vaga, extraindo dentes, nas mesmas condiçoes, inclusive sem o sugador.  Isto implicava ter de usar gaze para secar a saliva e o sangue. Fiquei tão agradecido que quase me mijei ao invés de chorar de gratidão com aquelas palavras consoladoras.

Senhorita mãos leves então reassume o comando das ações e, premida pelo relógio, começa a extrair os cacos do dente. Findo aquele procedimento, após outros longos minutos, ouço a frase mais importante desde que a minha filha nasceu: Pronto, agora é só dar os pontos! Quase chorei de alegria. Minha bunda mais parecia um couro velho estirado cheio de percevejos e me contorcia de inexplicáveis caimbras nas pernas e costas, sob o olhar compungido do meu dentista. Imaginei que ele faria a sutura mas, para meu desespero, dona mãos leves diz que "era ótima" naquilo de sutura e começou um intrincado balé com as mãos, a linha e aquela agulha que mais parece um anzol de robalo, que até me recordou a minha mãe fazendo tricô na sala. As mãos bailando de lá prá cá, idas e vindas, murmúrios de satisfação quando acertava o ponto e algumas pragas quando não dava certo e recomeçava do zero. E a sensação do fiozinho vazando a carne, apesar da anestesia, era bem desagradável.

Bem, depois de mais de três horas e meia de duração, chegou ao fim aquela surreal experiência de vida. Eu não sentia mais minha boca, tinha uma vaga noção de que era um ser vivo, meus músculos estavam tão frouxos que levei um certo tempo para me firmar de pé, amparado pelo meu dentista. Meus olhos procuravam apenas uma coisa: a porta de saída.

Mas, quando colocava a mão fechadura, que me separava do mundo e da salvação, ouvindo distante as congratulações da senhorita mãos leves, às quais retribui, desejando intimamente que, quando chegasse a sua hora, parisse uma bigorna, quente de preferência, eis que aparece uma antiga professora (conhecida de outra cirurgia) muito simpática e querida que, ao ver o meu lamentável estado, sapecou: Quando eu olhei a radiografia e percebi como o paciente era "mignonzinho", senti que vocês teriam dificuldades. MIGNONZINHO!! Mais pareço uma miniatura de lutador de sumô, com 102kg em 1,67. MIGNON? E ela ainda dá  aula na cirurgia!? Se eu pudesse, gritava!

Com mais esta inexplicável aparição acreditei que era zombaria demais do destino. Liguei então o piloto automático e não sei como achei o caminho de casa, segurando o maxilar e um papelzinho na mão pra limpar a incontível baba. Foi quando, sozinho, criei coragem e olhei  pelo espelho o tamanho do estrago. Havia uma cratera ali!

Dias depois, quando estava secando, juro, dava pra enxergar a raiz do dente de trás. Fiquei mais de mês comendo papinha e alimentos macios, sentindo a saudade de um churrasco de costela e  amargando o arrependimento de nao ter escovado meus dentes como deveria.




Um comentário:

Corti disse...

Grande Professor, haeuheuhe
Um belo texto, uma grande história
fiquei vidrado até o último ponto final.
Pode virar um livro essa nossa grande saga na Faculdade em? eahuaehuae
Abraços, Feliz Natal, e desculpe pelas atrocidades! eahuaehuaeh