| O meu dentista |
Os acadêmicos de odontologia quando recebem seus pacientes, logo nos primeiros atendimentos devem fazer, se necessário, uma limpeza, removendo o tártaro dos dentes. Geralmente eles seguem um ritual comum, sentados atrás da cadeira, ficam um tempo hipnotizante, lixando numa pedra o instrumento que vão utilizar. Não sei o nome daquele. Às vezes, dá o acaso de eu ouvir o nome de um dos aparelhos ou ferragens que, depois, eu sinto em ação se chocando com minha dentição. O barulho daquela atividade é similar a uma faca sendo afiada... Tschik, tschik, tschik, ouve-se na grande sala clínica, com dezenas de consultórios, alinhados, os alunos e seus aventais, os mestres numa mesa central. Confesso que não é muito tranquilizadora aquela trilha sonora, pois até identificar de onde vem o ruído, a lembrança de uma faca sendo amolada às tuas costas, traz alguns incômodos de ordem psicológica.
Meu dentista é um jovem acadêmico, ainda incipiente nesta arte, porém repleto de entusiasmo e correto no trato com os necessitados, como convém a quem é fadado ao sucesso na vida. Devido a sua compreensível inexperiência, fui testemunha de alguns "percalços" inerentes a qualquer neófito. Como o do dia em que apertado pelo tempo despendido, se atrapalhou naquele pequeno circuito de cadeira do paciente, mesa de instrumentos e a cadeira com "rodinhas". Ao se levantar para pegar o sugador, a cadeira de rodinhas foi um pouco para trás. Depois de acomodar o sugador na minha boca, meu dentista faz um movimento de nado sincronizado, de complicada execução: com o tornozelo empurra de novo a cadeira, enquanto os joelhos se dobram acomodando o glúteo para sentar numa cadeira que as rodinhas tinham levado pra longe, sem que ele percebesse. É daqueles momentos em que tudo para! Sinto uma movimentação no ar e me encolho defensivamente. Ao lado do rosto, vejo passando rapidamente em direção ao teto duas solas de tênis 44. Logo depois o baque surdo das omoplatas se estatelando no chão, o grito dos mais assustados e o estouro dos instrumentos se espalhando. A clínica inteira cristaliza, os professores se postam atentos, os pacientes estremecem (alguns se levantam) e colegas se aproximam solícitos. Meu dentista vai se recompondo, muito encabulado, procurando retomar o mais rápido possível o seu trabalho organizando a baderna já feita.
Entre pequenas zombarias dos acadêmicos mais íntimos, um ou outro gracejo, passamos o resto da consulta quietos. Ele cabisbaixo, concentrado, evitando os olhares da turma e, de vez em quando me xingando, quando percebia minha cara divertida. Aquele ferrinho do início do texto raspava furioso o esmalte dos meus dentes.
Meu dentista é um jovem acadêmico, ainda incipiente nesta arte, porém repleto de entusiasmo e correto no trato com os necessitados, como convém a quem é fadado ao sucesso na vida. Devido a sua compreensível inexperiência, fui testemunha de alguns "percalços" inerentes a qualquer neófito. Como o do dia em que apertado pelo tempo despendido, se atrapalhou naquele pequeno circuito de cadeira do paciente, mesa de instrumentos e a cadeira com "rodinhas". Ao se levantar para pegar o sugador, a cadeira de rodinhas foi um pouco para trás. Depois de acomodar o sugador na minha boca, meu dentista faz um movimento de nado sincronizado, de complicada execução: com o tornozelo empurra de novo a cadeira, enquanto os joelhos se dobram acomodando o glúteo para sentar numa cadeira que as rodinhas tinham levado pra longe, sem que ele percebesse. É daqueles momentos em que tudo para! Sinto uma movimentação no ar e me encolho defensivamente. Ao lado do rosto, vejo passando rapidamente em direção ao teto duas solas de tênis 44. Logo depois o baque surdo das omoplatas se estatelando no chão, o grito dos mais assustados e o estouro dos instrumentos se espalhando. A clínica inteira cristaliza, os professores se postam atentos, os pacientes estremecem (alguns se levantam) e colegas se aproximam solícitos. Meu dentista vai se recompondo, muito encabulado, procurando retomar o mais rápido possível o seu trabalho organizando a baderna já feita.
Entre pequenas zombarias dos acadêmicos mais íntimos, um ou outro gracejo, passamos o resto da consulta quietos. Ele cabisbaixo, concentrado, evitando os olhares da turma e, de vez em quando me xingando, quando percebia minha cara divertida. Aquele ferrinho do início do texto raspava furioso o esmalte dos meus dentes.
Um comentário:
Minha nossa... ainda bem que não sou eu, mas como é divertido ler tuas idas ao dentista!!!
heheheh
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