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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Mestre de Cerimônias

Uma das atividades que exerço com razoável competência e me dá uma recompensa pessoal e financeira é a de Mestre de Cerimônias. O cidadão aquele que, do púlpito, lendo ou improvisando, conduz um evento, tornando-o intelígível e eventualmente participativo para quem assiste. Tenho de estar apresentável, asseado, escanhoado, limpo, cheiroso, enfim... Guardar atenção a todos os detalhes, os meus, as pessoas e ao local. Posso dizer que já vi acontecer de tudo nos cerimoniais, peças e encenações que apresentei ou dirigi. Ou quase tudo, porque num deles, uma pessoa da platéia morreu depois do encerramento do evento, a caminho do atendimento. Por isso, não sei se incluo o fato no rol das curiosidades. Esta listinha é uma espécie de sala de troféus, sabe. 
Num evento ao vivo, não tem remendo, recomeço. São as pessoas no picadeiro. Expostas. Algumas poucas tem tranquilidade, outras ficam ansiosas e maioria bastante nervosa. Estas últimas, havendo necessidade de falar, proporcionam as melhores histórias. Nesta que conto agora, quem se deu bem mal fui eu.
Era uma formatura, num lugar qualquer, em período antigo. Após a colação de grau, tinha o indefectível agradecimento. É quando o formando chega perto do púlpito e começa a tremer,  não sabe onde colocar as mãos, derruba a água, faz o diabo... Tudo isso para, no final, dizer: "eu queria agrade... buáááááááá!!!!" paíííííí, mãíííííííí"  e mais uma infinidade de grunhidos, que credito aos parentes. Ou então aquele que agradece a "Paty, a Tety, o Du, a Tuta e o meu cachorro Alfredo", de onde deduzo ser o único vivente a ter um nome na residência. Voltando ao fatídico dia, percebi que a menina  da vez estava muito nervosa já nas fotos. Apesar de bonita e estar bem maquiada, notei que trocava de cor. Amarelo, verde, vermelho... Isto é comum de acontecer, afinal é o momento culminante na formação acadêmica. Rola muita emoção e eu, precavido, já estava providenciando um copo de água especial para ela e me aproximei pra aparar a queda, caso ocorresse o desmaio. Ao chegar mais perto, ouço o início do breve discurso da garota, bem pausado, decorado com antecedência. Ela tremia mais que velho com alzheimer: "Eu quero agradecer a todas as pessoas que participaram deste processo..." 
No que me posto ao lado dela, com todas as melhores intenções do mundo, copo com água geladinha na mão,  invento de respirar e, então sobe narina adentro um tenebroso cheiro de repolho azedo temperado com carcaça de galinha podre . Tonteei . No paradoxo do nervosismo, a menina havia relaxado os intestinos e soltado um poderoso e fedorento flato. Isso! Ela queimou uma bota no palco! Não entendeu? Ela peidou! E olha, daqueles de concurso... Não garanto que ele, o pum, não tenha vindo acompanhado e que aquela toga tenha sido reaproveitada algum dia. Os membros da mesa, próximos, com aquela clássica olhadela entre si : "foi tu??" E eu,  o Mestre de Cerimônias, ali, firme, sorriso simpático, copo na mão, suplicando o fim daquele suplício escatológico... Atordoado, pensava em duas coisas na hora. Como uma pessoazinha  pequena e graciosa como aquela pudesse produzir uma "bomba" de tamanho efeito moral e quanto tempo ainda levaria o discurso da criatura, que depois de tudo solto, do estrago cometido, cúmplice, ela olha pra mim e sorri! Não tenho a menor ideia da cara que fiz em resposta.
E, para coroar, finalmente, chamei o próximo aluno e saí da região de efeito daquele mortífero gás. O cara percorreu toda a mesa, tirou as fotos, e ao se preparar pra falar, cheirou o ambiente, ainda infestado, com uma cara de nojo, me mirou e, falou entre os dentes: "Bah meu, foi tu?" Só que a música tinha baixado, o microfone tava ligado, e captou a  antológica frase.
E o Mestre de Cerimônias, ali, firme, sorriso simpático, etc...

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