N'alguns livros ou romances, encontrei relatos de que, muito antigamente, na Grécia dos áureos tempos, os mestres caminhavam entre as colunatas, conversando, divagando e filosofando, enquanto seus alunos (discípulos), respeitosamente, capturavam aqueles ensinamentos. Tudo muito belo. Até imagino todo aquele pessoal de branco, em movimento de acordo com as ideias suscitadas... pra lá e prá cá... Porque branco? Acho que por causa dos filmes que eu vi em que aparecia um Platão cirscunspecto ou um Sócrates com a tacinha de cicuta. Geralmente eles aparecem usando togas brancas. Nessas, me recordo de um antigo amigo, arquiteto brilhante, que sugeriu que, quando se visitassem os cemitérios, as pessoas deveriam receber togas brancas pra caminhar por lá. Se seria prático eu não garanto, mas teria um charme especial, ah, com certeza.Mas, voltando aos modernos primos dos descendentes de Esculápio ou Asclépio, os professores do meu dentista merecem um capítulo à parte pois são elementos vitais na clínica dentária e, pessoalmente, admiro a responsabilidade que carregam supervisionando os alunos durante os tratamentos, na prática diária.
Geralmente iniciam a jornada já atendendo o aluno ainda pelos corredores. E como tem dúvidas aqueles jovens.O quartel-general fica na mesa no centro da clínica. Em vez das togas milenares, usam aventais azuis ou verdes, compondo com alunos, pacientes e alguns funcionários da universidade, um apreciável universo humano, onde a dor e o aprendizado dela derivado, mesclam-se a uma certa vaidade intelectual. Passam o turno circulando entre os futuros dentistas, fazendo observações pontuais. São muito educados com os pacientes, nos cumprimentando antes de averiguar cada solicitação, mas mantendo sempre uma parcimoniosa distância, evitando ultrapassar os limites de um profissionalismo acadêmico. Pessoalmente, os considerei frios e remotos, com uma única exceção. Mas me conformei logo, pois estava ali para ser tratado e não para formar um grupo de amigos.
Então, como o espectro dos meus problemas dentários é bem amplo, acabei tendo contato com muitos professores, de acordo com sua área de atuação, cirurgia, prótese, canal, etc...Alguns guardarei pra sempre na memória ou no caderninho. O Old School, o Cabeção Cirúrgico, Mister Envelopinho e a Velhinha Mignon são exemplares dessa plêiade.
Tem um que me chamou a atenção logo de início pelos cabelos brancos. De velho ali, só ele e o prédio. Notei como os alunos não o procuram. Meu dentista me disse que ele é um tanto anacrônico e com algumas características não muito recomendáveis, como a de esquecer de colocar as luvas. Em priscas eras, era normal o dentista não usá-las. E eu vi o velhinho abrir uma boca sem luvas. Antes de acontecer o inevitável, o aluno colocou na frente dele um par delas...Ufa!! Tem um outro que fala grosso, tem pose de galo no terreiro e parece gostar da imagem antipática que seu aspecto geral demonstra. Boa parte dos alunos, eu percebo, o evita. Só vai quando realmente precisa.
Alguns vem de outros estados, complementando seus estudos e trazendo junto seu sotaque. Tinha uma jovem que era do nordeste. Muito competente, meu dentista a consultava seguidamente. Eu, de minha parte, adorava ouvir aquele português vindo de mais de 2 mil km de distância. E era um alento quando eu estava com dor.
Falando em alento, tinha um de São Paulo, palmeirense roxo. Um dia, meu dentista estava tentando moldar um dente. Eu lá deitado, quando meu "bom" dentista coloca o moldador com o gesso mole, assim bloquenado meus canais respiratórios. Comecei o fiasco com leves convulsões, passando a espasmos bruscos, buscando um pouco de ar. Meu "querido" dentista não percebeu que eu ia embalar num sono eterno, concentrado que estava em fazer o molde. Quero crer que ele pensou que eram cãimbras.
Então, como se guiado pelo destino, surge no limiar da porta esse professor paulista. Contempla e, principalmente, percebe minha agonia, faz uma pequena careta, tipo: Ai, meu Deus! E vem praticamente correndo na minha direção. Endireita a minha cadeira. Volto a respirar. Quando imagino que vai passar uma descompostura no meu dentista, ele, ao contrário, discreta e pausadamente, o orienta, discorre sobre o procedimento, a melhor maneira de praticar, os resultados... Deu uma aula! Sem alarde, com respeito ao aluno. Percebi que estava diante de um professor nato. Os cabeções phd's que me perdoem. 

Fui pra casa e busquei na memória os educadores que marcaram minha vida. Todos eles tinham três características candentes que harmonizavam com o tratamento que eu havia presenciado: humanismo, sensibilidade e humildade. Evidente que, com o decorrer do semestre fui notando como cresceu o respeito dos alunos com ele. Meu dentista até comentou sobre isso.
Naquele ambiente um tanto quanto asséptico de emoções, nasceu até um nível de afetividade dos estudantes para com aquele professor, paulista, palmeirense, que fala com o claro sotaque de sua terra.
E como era fim de ano pensei: Um brinde, ao Mestre com carinho!
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