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domingo, 2 de janeiro de 2011

As Freiras I - Um churras de ouro

Não posso falar da minha vida nesta última década sem mencionar as freiras, comumente chamadas de irmãs. Afinal, fui funcionário de duas congregações destas mulheres, dedicadas ao serviço de Deus, que exercem seus votos nas escolas, nas obras de assistência social e em hospitais e casas de saúde. Aprendi que por baixo do véu (o hábito, a maioria não usa mais), elas são humanas, fragilmente humanas, com a mesma carga de sentimentos e responsabilidades de qualquer outro cristão.
De algumas delas recebi o presente da amizade e do afeto, que guardo como preciosos bens, naquele cantinho do coração, onde repousa  a esperança e a crença no homem de boa vontade. Afinal, nem todos podem dizer que são amigos de uma freira. Eu posso! E neste período pude viver algumas deliciosas histórias, que ora registro. Como a do centenário do Santa Família, que participei ativamente. Lá estava Ir. Nelsi Muller, que tinha a chave do cofre, fundamental para as celebrações. Característica sua: ter laços com a região de Santa  Cruz do Sul, falar alemão, saber muito de culinária e gostar de festa. Se tiver Banda Marcial, excelente. Se tiver fogos de artifício, é o  ápice.
Foi um ano de grandes comemorações na comunidade do 4o Distrito de Porto Alegre. No último evento que ocorreu no dia da fundação da Escola, teve brinquedos e, à noite, um grande churrasco. Me preparei para ser um dos assadores. Mas, ela me avisa que cuidasse de outras coisas, pois a turma dela ficaria encarregada do churrasco. Bom, lá pela meia tarde, encosta uma Kombi, de onde salta um bando de alemães ruidosos e alegres. Aparentemente eram agricultores, conhecidos ou parentes da Irmã, que deviam ter saído logo depois do almoço, viajado uns 150 km pra preparar um churrasco pra nós. Confesso que estava com muita expectativa. Todos nós (da escola) se diziam assadores e, ficamos na expecativa do que  aqueles deutsch iriam aprontar. Levei-os até a local da festa. Eles olharam e logo colocaram a mão na massa. Continuei preocupado. Aqueles caras nunca tinham visto a churrasqueira, o espaço era pouco pra tanta gente. A responsabilidade era grande. Haveriam de assar para mais de 200 pessoas.
Bom,  fui preparar as minhas coisas, haveria autoridades no evento e me esqueci da alemoada. De vez em quando sentia o cheirinho de carne assando a distância. Após a abertura do cerimonial  e os eventos da festa, foi servido o churrasco, que consistia apenas de vazio e picanha e saladas. Experimentei. Simplesmente maravilhoso, suculento, bem temperado, assado por mãos de verdadeiros profissionais. Primeiro pensei que tive sorte, peguei outro pedaço de carne: a mesma coisa. Troquei de bandeja: parecia que comia a carne do mesmo espeto.  Entreguei os pontos.
Em meio aos elogios  e murmúrios de satisfação que ouvia pela qualidade da carne, atravessei o salão e dei uma passada na churrasqueira, onde os assadores estavam se movimentando. Todos com algo em comum, um vermelhão (devia ser por causa do fogo), os olhos brilhantes, mas ainda bem humorados e dispostos, perguntando se estava boa a carninha... A partir dali, tive de rever meus conceitos de culinária e, passei a ser mais exigente ainda com o  churrasco que eu preparo. Depois, procurei pela Irmã para elogiar. Encontrei-a no pátio, radiante, satisfeita, ouvindo as congratulações pelo fechamento do centenário da Escola com um churrasco de ouro. Ela lamentou comigo que tava faltando a bandinha para a festa ser completa  E ficamos ali, cada um com a sua felicidade, esperando os fogos que iluminaram a escola por alguns  minutos.

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