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sábado, 30 de julho de 2011

Os poloneses V - dificuldades com a língua

Graças a Getúlio Vargas, meu pai (O Estácio de verdade) apenas falava o idioma polonês. Óbvio que um polonês arcaico e tosco, mas falava. Aonde soubesse que tinha um polaco, ia lá praticar a língua de seus antepassados. Sob as instruções escolares e patrióticas de papai, meu universo geográfico de infância resumia-se a quatro capitais: Varsóvia, Brasília, Porto Alegre e Vila Áurea. Já meu avô, que foi educado antes da era Vargas e o Estado Novo, sabia ler, escrever e falar polonês. 
Papai tentou me ensinar o polonês. Como não tenho nenhuma aptidão para línguas, as lições se encerraram quando tive de pronunciar "o pão nosso de cada dia nos dai hoje", da oração do Pai Nosso. A partir daí houve um hiato de longos anos até eu entrar no Coral da Sociedade Polônia e enveredar pelas pesquisas da Galeria de Ex-presidentes desta.
A senha que usava para entrar nas casas era: Niech bedie pochawalony Jezus Christus!
Ao ouvir o ancestral cumprimento, meu entrevistado ou entrevistada abria um sorriso e me respondia: Na wieki, wieków, Amen!
Nunca dominei o idioma, mas pela prática das músicas do coral, minha pronúncia até que era razoável, passando a impressão de ser íntimo das coisas polonesas. O Senhor Zenon Galecki dizia que meu polonês era do tipo: "zamkni porta, porque przenika vento". Tirando as brincadeiras, aprendi muito com os entrevistados e meus rudimentos polacos abriam certa cumplicidade que eu tanto necessitava para colher os dados da pesquisa.
Mas nada se comparou com a lição recebida da Sra. Janina Figurski, bibliotecária. Logo no início das pesquisas, cheguei cedo na sociedade e, estando ela na recepção, lasquei, como havia aprendido com os tios:
- Dzien Dobre! Jak sie masz? (Bom dia! Como tu estás?). Ouvi de sopetão a resposta:
Nie pamiętam świń leczonych dziś! (Não me lembro de ter tratado dos porcos contigo hoje!)
Após pedir a tradução e observar mil desculpas pela minha "troglodice",  recebi uma aula sobre a importância que os poloneses dão a uma espécie de protocolo ancestral, onde deve-se diferenciar as categorias logo nos cumprimentos preliminares.
Depois disso, nunca mais entrei num lar ou cumprimentei um polaco como íntimo. Sempre usei e uso o:
- Jak sie pan ma? ou
- Jak sie pani ma? (Como o Senhor - Senhora - está?)


Na Sociedade polonesa, dona Janina era conhecida como Panie Figurska (Senhora Figusrki), denominação mais que merecida, visto ser ela a maior autoridade em cultura polonesa no estado. Vi muita gente que não conhece polonês se referir a ela como: Dona Panie!! 
O riso era geral!
Guardo desta senhora o entusiasmo com que me movia nas pesquisas e seus comentários sobre o que eu produzi. Seu respaldo e referência me permitiram escrever sobre a colônia polonesa de forma adequada e correta. Além da cultura geral e, especificamente da cultura polonesa, Panie Janina Figurski legou o apelido da minha filha: Anusia, o diminutivo polonês para Anna:
Serdecznie dziękuję!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Os poloneses IV - Os ex-combatentes

Andava eu enfronhado nos livros e documentos da sociedade, e me recordo da surpresa que tinha com as informações pouco conhecidas sobre as escolas, festas, teatros, outras associações e o cotidiano dos poloneses  em Porto Alegre. Mas nada mexeu tanto comigo como as menções sobre os voluntários da II Guerra. Voluntários? Nunca havia ouvido falar nisso e, como historiador amador, busquei conhecer mais sobre o tema. Minha surpresa aumentou quando, numa homenagem realizada pela Sociedade Polônia, em 1997, me deparei em carne e osso com os senhores Mieczyslaw Niemiec -que participou do Dia D, combatente ferido na Batalha de Falaise, o senhor Wojciech Plewinski - do exército nacional chamado Armia Krajowa e Marjan Zuba, voluntário do Dia D, que também tombou ferido. 
Todo o menino da minha geração tinha um fascínio cativo pelos soldados. Mas aqueles não eram apenas soldados  e sim, heróis de guerra. Eles realmente lutaram. Estiveram na linha de frente, diante de canhões e metralhadoras inimigas. Havia elegido três heróis da noite para o dia.
Mais adiante, fiz amizade com eles e pude entrevistar os Srs Zuba e Niemiec. Este havia sido presidente da Sociedade Polônia. Através deles fiquei sabendo que partiram em 1942, numa ampla mobilização que buscava nas Américas, recrutas para o exército polonês organizado pelo governo exilado em Londres. Ambos gostavam de conversar sobre as experiências vividas e, como minha maior qualidade é saber ouvir, aprendi muito com eles. Mais do que nos livros. 
Este comportamento patriótico dos poloneses me enchia de orgulho e, era inflado dele, que dizia ter amigos que lutaram na França. Mais adiante soube que na I Guerra havia um outro grupo de poloneses que partiram daqui em socorro aos seus concidadãos, formando o Exército Azul de Haller em fins de 1917.
Ainda está vivo hoje o sr. Niemiec e as entrevistas que pude fazer foram uma experiência de vida única, muito distante do romantismo dos filmes que evocam os combates das grandes guerra. Ele dizia que aqueles soldados não lutavam contra o povo alemão, mas sim, pela " nossa e vossa liberdade". 
Do senhor Zuba guardo uma pitoresca história. A escritora gaúcha Letícia Wierzchowski procurava colegas de farda do seu avô Jan que foi um destes voluntários. Nos reunimos na Sociedade Polônia e, durante duas horas ela conversou com o seu Zuba sobre as experiências deste, tentando construir o ambiente para o seu livro, Uma Ponte Para Terebin. Zuba nos passou a sensação de que os anos haviam afastado os fatos da memória e muita coisa ficou um pouca vaga. Ao final do encontro, eu e meu compadre oferecemos carona para ele. Eu fiquei no banco de trás e ele se acomodou no banco ao lado do motorista. Eu, gentil, perguntei se ele estava bem confortável. Ele me responde:
- Pra quem pilotou um tanque Cromwell, este banco é um luxo.
Como não querendo nada, pedi que me descrevesse se havia perigo em dirigir aquela arma de guerra.
- Bem, dependia de como estava a torre do canhão, pois se fossemos atingidos por um disparo, o veículo pegava fogo e, se a torre não estivesse reta, não tinha como sair, pois o espaço era apertado e o piloto morria queimado, falou ele. 
- Mas, seu Zuba, o senhor foi ferido com um tiro na perna! Dentro do tanque? Provoquei...
Então, ouvimos eu e Sidnei Ordakowski o impressionante relato, de tal forma claro, que hoje (seu Zuba morreu em 2006), posso descrever quase palavra por palavra:
- Meu carro era o primeiro de uma grande coluna e, ao ultrapassarmos uma curva, não percebemos uma bateria anti-tanques que abriu fogo contra nós. O primeiro disparo atravessou o tanque e um incêndio tomou conta do interior. Logo estávamos pulando pela torre e os inimigos começaram a atirar em nós, alvos fáceis. Nossos companheiros lançaram a nossa frente bombas de fumaça para confundir o inimigo. Ainda atordoado fiquei de pé e vi, numa trincheira, um alemão apontando uma pistola pra mim. Senti uma dor forte na perna e caí no chão. 
Ele tomou fôlego por um momento. Eu mal respirava. Perguntei então como ele havia saído daquela situação, ao que ele respondeu:
- Meu filho, eu era muito novo e gostava de fitas (filmes). Gostava muito de cinema. E aquilo pra mim, parecia uma cena das fitas. Eu, deitado, o tiro havia atravessado a coxa, olhei para céu e me perguntava: Estou vivo ou morri? Estou vivo ou morri? Tocava meu corpo, meus braços, mãos e dedos e, então senti que estava vivo. Senti que queria viver mais! Me levantei e do jeito que deu, comecei a correr e correr em direção aos meus companheiros, fui passando por eles até que me "agarraram", me "sacudiram" e me colocaram numa maca.
Silêncio total no carro...
- E então?
 - Ali foi o fim da Guerra para mim.

Tadeu Cerski e Marjan Zuba na Igreja Polonesa em POA

Marjan Zuba, eu e Tadeu Cerski
Em 2005, o Cekaw junto com outras associações prestou uma justa homenagem a todos os ex-combatentes poloneses que haviam servido na Europa durante a II Guerra. Naquela época a lista dos gaúchos-poloneses era de mais de sessenta. Lá estava também o Tenente Coronel Tadeu Cerski, descendente de poloneses, pracinha da FEB e herói de Monte Castelo. Seu emocionante relato sobre sua passagem na aldeia de Monte Cassino, após os sangrentos combates do II Korpus polonês, tocou a todos os presentes.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Desfile São Leopoldo Fest 2011

Algumas pessoas me sugeriram que eu escrevesse algo sobre os Desfiles da São Leopoldo Fest, evento que organizo desde 2008. Afinal, descartando modéstia, movimento mais de 60 entidades e associações e coloco na avenida mais de 1800 pessoas a caminhar, homenageando a imigração alemã.
Uma das programações da São Leopoldo Fest é este desfile oficial, evento que abre as comemorações da festa, com uma amostra do que a cidade representa no cenário riograndense em termos de cultura e desenvolvimento econômico e social. Segue algumas fotos, gentileza da www.revistafeitoria.com.br.










Tinha um gnomo no desfile.....

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Os poloneses III - mande lembranças minhas...

As pesquisas e andanças que culminaram com a criação da Galeria de Ex-presidentes da Sociedade Polônia de Porto Alegre reservaram-me momentos únicos com seus familiares. Os passados, interessantes, engraçados e alguns muito tristes, eram colocados no meu colo, junto com as fotografias de homens e mulheres que há mais de meio século não estavam entre nós. 
Foram tantas histórias que, de tão pessoais e reservadas a apenas um núcleo familiar, achei que não deveria registrar, apenas guardei comigo, como um legado confiado, pelos meus "velhinhos". Nas muitas ocasiões que visitei sozinho a galeria, peguei-me conversando com os quadros lindamente emoldurados, refletindo, fazendo paralelos entre as diversas versões que seus familiares deram àquelas vidas, viajando no tempo, avaliando as decisões que eles tomaram e selaram os destinos da Sociedade.
Ainda hoje, ao escrever, questiono-me se devo usar seus verdadeiros sobrenomes nos relatos, ou criar fakes, evitando assim eventuais constrangimentos aos descendentes. Pensando ser a polêmica desnecessária e, em respeito a memória dos meus entrevistados, que partilharam um pouco de suas vidas comigo, quando possível, trocarei os nomes, sem prejuízo da história, que é o objetivo final destes textos. 
Sem uma metodologia de trabalho acadêmica, ia de espírito livre e desarmado entrevistar os diversos descendendentes de um mesmo ex-presidente e, então, deparava-me com relatos idênticos nos vários ramos da família. Para horror dos historiadores de verdade, nunca os anotei no papel.  Na realidade, estava mais interessado no foco da pesquisa que eram as fotografias. 
Normalmente saia da casa carregado de fotos e histórias que, com o passar dos meses iam-se somando, acumulando, dando uma boa perspectiva de como era a vida dos pioneiros  poloneses na cidade de Porto Alegre. Este conto, que chamei de mande lembranças minhas, dá uma pequena noção de quão interessante foi aquela Odisséia.

A partir da lista que me apresentaram, logo percebi que haviam três pessoas com o sobrenome Zórawski, nas primeiras décadas de vida da associação. Conversando com os mais antigos membros ativos da sociedade, concluí que eram completamente desconhecidos dos tempos modernos.
Quando tive a oportunidade de entrevistar o ex-presidente Wladislaw Zurawski, já com 90 anos, perguntei se ele conhecia algum daqueles três: Józef, Sylwester e Adam Zórawski, visto que a pronúncia dos sobrenomes ser a mesma: JURAFSKI. Ele me disse que conheceu Sylwester, mas não havia relação de parentesco e muito menos sabia de algum descendente dele. Porta fechada! Volto a lista novamente. Eram eles parentes, vizinhos, primos, irmãos, tios e sobrinhos? Muitos pontos de interrogação...
Paralelamente ao sucesso do andamento da pesquisa com os outros ex-presidentes, volta e meia questionava se aquele sobrenome não estava inserido na árvore genealógica da família que ora eu estava visitando. Nada. E as pesquisas de Diego Pufal recém estavam iniciando.
Inconformado, visitei os arquivos das fichas dos sócios. Depois de horas de empoeirada pesquisa, ficha a ficha, achei a inscrição de Ronaldo Zórawski, morador de Gravataí. Uma ficha relativamente recente, do início dos anos oitenta. Peguei o endereço e fui atrás. Como não dirijo, viajei de ônibus. 
Cheguei no local e era um condomínio, de onde este senhor (com quem nunca falei) havia se mudado a algum tempo. Recordo que fui atendido pelos vizinhos e, depois de explicar a razão da minha pesquisa encontrei simpatia e solidariedade. Levaram-me então à decana dos moradores que disse se recordar dele, mas não sabia para onde tinham ido. Passei um longa tarde de prosa, mas totalmente infrutífera. Voltei pra casa muito decepcionado, imaginando que a galeria poderia ficar incompleta, afinal já havia se passado meio ano e, fora algumas fotografias do Sylwester nas atividades da sociedade, não havia registros que me assegurassem quem eu devia emoldurar.
Com a confiança abalada, no dia seguinte resolvi esfriar a cabeça e visitar uma tia, que morava na Rua Garibaldi. Antes, resolvi passar no mercado público pra comprar umas peras, que ela muito apreciava. Pensei em fazer o caminho a pé, organizando as ideias e as próximas visitas. Estas caminhadas, onde passava a maior parte do tempo meditando, geralmente eram orientadas pelos meus pés, o que, às vezes, tornava um caminho de três quilômetros em cinco ou seis.
Passando por uma pequena rua do centro, percebo pelo canto do olho, retirado, quase escondido, o escritório de administração de um grande cemitério da cidade. Quase torci o pé, pois meu cérebro ordenou que eu continuasse caminhando mas o meu corpo todo tomou a direção daquela porta.
Depois da identificação, apresentações e explicações de praxe a um atendente, me encaminharam a um superior, onde repeti a mesma ladainha. Impaciente já pensava em ir embora quando o cidadão me passou uma longa lista, com os sobrenomes dos sepultados naquele cemitério.
Mais uma porta se abria, com diversos corredores a serem percorridos.
Nem preciso citar o primeiro sobrenome que procurei e, com um frio na barriga, juro que tremia de ansiedade quando li: Józef Zórawski, número da sepultura tal... Logo abaixo, mais familiares e, por fim, nome, telefone e o endereço do responsável. O mais engraçado foi o endereço: Rua Garibaldi.
Ri alto na hora, o que deixou algumas pessoas de olhar esquisito pra mim. A pessoa que eu procurava vivia a duas quadras da minha tia, na rua em que me criei no Bom Fim. Tão logo cheguei na tia marquei a entrevista para a mesma tarde. Nem almocei direito.
Fui recebido pela senhora Zywia Anusz, neta de Józef Zórawski, que para minha grata surpresa preservava um grande acervo fotográfico, documental e bibliográfico da família, com a foto de quase todos os irmãos. Pois, Józef, Sylwester e Adam eram irmãos e os três igualmente foram presidentes da Sociedade Polônia. Entre tantes fotos históricas havia a da apresentação da peça Lobzowianie e do grupo de voluntários que sairam de POA para lutar pela Polônia na I Guerra Mundial, no exército azul de Haller. O motivo da foto dos combatentes estar com ela, só desvendei uma década depois, quando li o Relatório de Michal Chmielewski ao governador Borges de Medeiros sobre a passagem do Tenente Henryk Abczynski pelas colônias polonesas no estado, buscando recrutas. Józef Zórawski, foi o presidente do comitê que liderou a comunidade naqueles tempos de guerra. Da foto, dona Zywia sabia apenas que a tarja com a Águia da Polônia, que está no braço de cada voluntário foi confeccionada pela sua avó, Maria Pawlowski Zórawski.

Nesta foto aparecem os dois irmãos Zórawski. Józef foi casado com Maria Pawlowski e Sylwester casou com Lucinda Majdecki
Poderia-se pensar que, a partir daí, estava tudo resolvido, encontrei o que procurava e ganhei uma amiga que muito me ajudou a estabelecer laços de parentesco construídos em Porto Alegre, na virada do século XIX. Mas, ao contrário, minha penada alma inqueita, a partir das novas informações, encaminhou novos contatos com outros familiares, culminando depois de indas e vindas por arquivos e endereços, com o encontro com o filho de Sylwester, senhor Francisco Lúcio Zórawski. 
Na primeira visita, recebeu-me muito arredio, dizendo que nada tinha a falar, conversando comigo longe do portão.
- Não tenho nada a dizer, nunca fui na sociedade, acho que não posso lhe ajudar...
- Mas, seu Lúcio, o seu pai foi uma figura muito importante, não há alguma história de que o senhor se lembre, alguma fotografia?
- Não, não tenho nada, muito menos fotografias...
- Ok, tudo bem, as fotos eu tenho... queria ouvir histórias dos seus tios...
- O senhor tem fotos da minha mãe? Perguntou-me baixinho, percebi uma nota de aguda emoção na voz e um olhar atento se estendeu sobre mim... Com o senhor, aqui?
- Sim, tenho...
Quando disse que tinha (havia levado uma pasta enorme que andava comigo prá lá e prá cá, com tudo o que eu levantava de fotos e documentos) ele, abriu o portão e me pediu para entrar. Sentamos só nós dois na sala. No que abri a pasta e mostrei a foto acima, registrei uma cena que viverá sempre na memória: emocionado, segurando o xerox da fotografia, com as duas mãos, ele falava alto:
- O senhor tem essa foto! O senhor tem essa foto! 
Em seguida, chamou sua esposa. No que ela entrou na sala, ele continuou: 
Olha aqui, a foto que te falei e achei que nunca mais veria! Depois, apontava para os atores, aqui está a  mãe e o "colete", aqui a tia Maria, os tios Jozef e o Domaradzki. Aqui está papai, bem mocinho...
Deixei-o curtir aquele momento de reminiscências. Depois, obtive as informações que precisava e soube da existência de um texto que Sylwester havia escrito em polonês numa Bíblia, onde narrava a história da família Zórawski até chegar no Brasil. Me preparam um café, me convidaram para almoçar, ficaram sabendo dos parentes que eu havia visitado e, antes de sair, quase duas horas depois, perguntei se ele aceitaria aquele xerox colorido da foto como um presente meu...
- Visivelmente emocionado, ele agradeceu.
Posteriormente fiquei sabendo que a mãe do seu Lúcio morreu logo depois do seu nascimento. E que a lembrança mais antiga dele era a de brincar com o coletinho que sua mãe havia usado naquela encenação.


Na minha segunda visita àquela casa, com o convite para a inauguração da galeria, notei que a foto havia sido emoldurada e ornamentava a parede da casa. Seu Lúcio estava doente, agradeceu o convite e disse que seu filho Ricardo (irmão de Ronaldo) iria receber a homenegem. Disse mais ainda: 
- Tenho certeza que ao pronunciar o nome de Sylwester Zórawski, as portas da Sociedade Polônia se abririrão para os seus descendentes. 
Na saída, ele me pergunta sobre dona Zywia, sua prima em segundo grau. Digo que está bem e que iria visitá-la naquela mesma semana. Ele me responde: 


- Mande lembranças minhas à ela, por favor.

Eu disse que mandaria, com toda a certeza. 
Ele me olhou mais uma vez, enquanto sua esposa se preparava para abrir a porta.
- Que Deus te abençoe pelo que tem feito! 
Foi a última vez que o vi.


Quando estive com dona Zywia, transmiti a mensagem, a qual ela agradeceu. Continuamos conversando mas não pude deixar de, em certo momento, perguntar:
- Há quanto tempo a senhora não o vê?
Ela pensou um pouco e falou:
- Acho que desde o enterro do pai dele, o Sylwester!
- Isso foi quando?
- Ah! Acho que foi em 1944, mais ou menos.
Ou seja... quase cinquenta anos... 
Foi quando percebi que aquele trabalho estava indo além de juntar fotos e papéis.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Os poloneses II - A galeria dos Ex-presidentes

Bem, na realidade tudo começou em 1996, quando a Vice-presidente de Marketing, Udi Dus, me pediu para entrevistar e registrar a vida do presidente da Sociedade Polônia, senhor Mário Karpinski. Daí, para fazer a Galeria de Ex-presidentes da Sociedade Polônia, foi um pulo. Era um projeto antigo, que já havia sido tentado, mas não concluído. E como eu cantava no coral da casa, era metido a jornalista e fazia fotos eventualmente, acharam que eu poderia conduzir a pesquisa.
Em meados daquele ano ocorreu uma nova eleição na Sociedade, com duas chapas concorrendo: Sr Jorge Kowalczyk, do grupo da Udi e meus amigos do Coral e a do Sr. Mariano Hossa, de pessoas que eu pouco conhecia à época. Meus amigos perderam e, lembro-me, não ficaram muito felizes. E eu fiquei entre duas opções: sair como boa parte dos meus amigos fez ou ficar e dar continuidade ao projeto. Optei pela segunda via, que não foi bem aceita pelo meu povo.
No dia em que acertei os detalhes da pesquisa, inventei de acompanhar o Tosia numa garrafa de wódka e uns pratos de pierogi. Foi o maior porre da minha vida! Não recordo como achei o caminho de casa (sei que falava o que sabia de polonês com todo mundo) e, óbvio deixei de comer o pastelzinho polonês por uns dez anos.
Como eu não tinha a mínima ideia da história da Sociedade, achava que seria uma barbada. Alguns dias depois, me apresentaram uma lista com 58 nomes, dos quais, sete ainda estavam vivos. Nas primeiras tres décadas era um presidente por ano. Depois do choque inicial, me perguntando por onde começar, foi quando o Presidente do Conselho Deliberativo, senhor José Konat, me disse que se eu conseguisse umas 15 fotos, seria bom e daria pra fazer a inauguração da galeria. Ele não me conhecia.
Dezoito meses depois, na última semana de 1997, com a carta do Senhor Casemiro Galarda, de Curitiba, em que reconhecia o seu professor, Feliks Zdanowski, primeiro presidente, conclui o trabalho

Desta aventura (Odisséia) que foi visitar mais de 200 lares com descendência polonesa por toda a região metropolitana de Porto Alegre, revirar os livros dos arquivos históricos, da Cúria, examinar fotos à exaustão, conversar (e aprender) com historiadores e investigadores de todo o país, resultou uma pequena monografia, editada pela Revista Projeções. Mas, acima de tudo, há o aspecto humano que foi o de ouvir e conviver com estas famílias. Houve risadas, histórias engraçadas e, algumas saudosas lágrimas.
Na inauguração da sala, a sociedade convidou representantes de todas as famílias, numa bela festa, ocorrida no salão nobre. No meio da festa, com presença do Cônsul, Marek Makowski, lembro do senhor João Paluszkiewicz, neto do presidente Jan Paluszkiewicz dizer emocionado: - É como se meu avô pudesse ver a Sociedade através dos meus olhos.
Antoni Ciesielski e esposa, um dos pioneiros poloneses em Porto Alegre.

Poloneses em Porto Alegre - Uma Odisséia I

Estas postagens nasceram da necessidade de registrar os causos, documentos, fotos e, principalmente as pessoas, que dei de cara, me cairam nas mãos, realizei ou descobri, referentes a pesquisa que fiz sobre a comunidade polonesa de Porto Alegre. 

O ponto de partida foram as comemorações do centenário da Sociedade Polônia de Porto Alegre, realizadas no período de 1997/98. Estatutariamente, à época, a insituição tinha sido fundadade em  novembro de 1898.   Graças aos apontamentos do Pe. Jan Piton, de Edmundo Gardolinski e Janina Figurski, a data estava em questionamento.
Sendo ela fundada quando da passagem do viajante Stanislaw Klobukowski pelo estado, no ano de 1896,  viagem esta registrada em livro posteriormente, a data original retrocedia em dois anos. Há menção à Towarzystwo Zgoda (Sociedade Concórdia) neste livro e no Kalendarz Polski, editado por F.B.Zdanowski, fundador e primeiro presidente desta associação. Os registros e atas foram perdidos (segundo Janina Figurski, teriam sido confiscados pelas autoridades).
A mudança de data era vista com simpatia pelos descendentes e a comunidade em geral e apareceram relatos que procuravam corroborar a história.
Um destes ouvi da senhora Honória Kurylo, neta de Honorata Przybilski.
De acordo com o estatuto, as celebrações de aniversário da Sociedade ocorriam no dia 11 de Novembro (que é a data de Independência da Polônia, alcançada com o Tratado de Versailles, em 1918), época de alto calor em Porto Alegre.
Em meio às discussões entre os associados sobre a data real, Dona Honória era categórica ao afirmar:
 -" Minha avó, Honorata Jung Przybylski", esteve na reunião em que criou-se a Sociedade. E ela dizia que fazia um frio tenebroso e que todo mundo estava bem agasalhado. Como pode ser em novembro então?"
Geralmente matava o assunto. Honorata era filha de August Jung, polonês de Zyrardów e casou com Wladyslaw Przybylski. Ambos foram lideranças daquela comunidade e, posteriormente, presidentes da Sociedade.  No foto acima, (bodas de ouro do casal Wladyslaw e Ludwiga Wilkoszynski), a veneranda senhora aparece sentada ao lado do Padre Jan Wróbel, a segunda da direita para a esquerda, de óculos e chapéu.

domingo, 24 de abril de 2011

Domingo... a tardinha.

Puxando da memória, não consigo ter a lembrança de um fim de tarde de domingo em que eu estava alegre e feliz. Apesar da vista maravilhosa que tenho da sacada do apartamento e da visão privilegiada do entardecer que Porto Alegre proporciona, a melancolia do fim de domingo se insinua e vai se espalhando pelo meu corpo, absorvendo, comendo os restinhos da alegria do fim de semana. 
Nada é tão broxante como um fim de tarde de domingo. Lembrar que no outro dia as tarefas, contas, compromissos e afazeres me aguardam, inibe qualquer euforia momentânea. Numa época que andei endividado tinha verdadeiras ânsias e cefaleias ao sentir o sábado correndo célere. 
Já tentei atravessar o domingo bêbado, mas a dor de cabeça e ressaca na segunda, aliadas a incompreensão de familiares e amigos me fizeram repensar a extensão do trago depois do churrasco. Tentei ir à Missa, caminhar, estudar, ver televisão e até incomodar a patroa para um "selvagem vespertino" mas ainda assim as horas se arrastam e, com elas, o peso de que o inexorável amanhã está chegando. Quando o Grêmio perde, então, até o tico encolhe de tristeza. 
Sobrou me conformar e esperar, escrevendo esta azeda abobrinha no blog. Coloco uma fotinho de mais um por do sol. Só que este, represente bem meu ânimo nestas horas inconsoláveis que prenunciam o início de mais uma semana.