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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Pessoas é por aí
Em algum canto da memória as imagens e diálogos ficaram muito bem preservados, intactos. Algumas sensações, ainda vívidas, mesmo meio século depois, chegam fácil, transportando-me no tempo. Hoje posso dizer que a viagem foi realmente dura, desde a concepção. Pela morte de papai, assumi uma família que foi minha durante muito tempo. Mas, que culpa tive se casualmente ele estava sóbrio quando eu anunciei que ia embora. Disse assim, sem mais, num dia normal, logo que cheguei em casa, depois de pegar um panfleto com propaganda em Zyrardów. O velho saiu de si, enlouqueceu, chamou minhas responsabilidades, que era o filho mais velho, enfim, ia me dar uns bofetes se o seu deteriorado estado físico permitisse. Como não conseguiu me demover, mergulhou noutra viagem etílica, percorrendo com afinco os bares da redondeza, esbravejando contra minha ideia, amaldiçoando-a. Lá pelo terceiro boteco e pela sexta garrafa, as artérias cederam e ele morreu com algum estardalhaço, derrubando os bancos e a mesa.
Não senti muito ou não senti como devia aquela perda. No correr dos anos, os porres e as pancadas inexplicáveis, criaram em mim uma couraça de indiferença por aquele homem bruto e ignorante que embuchou mamãe umas dez vezes. Como o tempo, o couro foi se esticando em direção aos demais membros da família, inclusive mamãe. Dos dez filhos do casamento, restaram três, Sofia, Margarida e eu, Jan. Os outros morreram de doenças comuns e de acidentes incomuns. Eram pessoas com quem eu convivia sem o menor entusiasmo, pelo menos até papai bater as botas.
De repente vi-me responsável por três mulheres carentes. Mamãe não tinha atrativo nenhum. Aos 40 anos, de muito poucos atributos, muita falta de dentes, parecia ter o dobro da idade. Não teria pretendentes. Minhas irmãs, uma com 12 e a outra com 8, precisariam de alguém que tomasse conta delas. E o escolhido pelo destino era eu.
Durante o velório, uma ideia nasceu e foi crescendo. Enquanto ouvia as condolências fui materializando-a e antes do caixão encostar na terra, estava decidido: as levaria comigo. Pelo menos mamãe sabia cozinhar, era forte e as gurias manteriam minhas poucas roupas em ordem. Para isso, precisava colocar algumas coisas em ordem, vender a casa, arranjar os documentos necessários e, o mais difícil, contar ao velho Franek meus planos. Ia ser doloroso.
Francisco Szulc foi ao mesmo tempo patrão, instrutor, educador, incentivador e amigo. Tcheco de nascimento, criou uma ferraria, era um mestre artesão na sua arte. Não tinha muita clientela porque era um pouco lento para uma cidade que crescia rápido demais. Mas seus trabalhos eram excelentes.
Comecei a trabalhar com ele antes dos 14 anos. Durante os seis anos que passei lá, conciliei os estudos com a prática diária na forja, misturando metais ferventes, dando formas a porcas, parafusos, portões, panelas e ferraduras. Sentia-me bem por não precisar ir pra casa e por ganhar alguns trocados, pagos religiosamente. O dinheiro deixava com a mãe pra auxiliar no orçamento do mês. Papai sempre me achou um imprestável com discursos
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Procuro..
Não sei do propósito da minha existência. Ando sempre
revirando pedrinhas, folhas de livros, troca de olhares e ardor, mas não tem
maneira. Consolo-me em buscar sempre e deixar que os outros busquem também,
livremente.
Na infância tive quem me ensinasse o valor das flores. Ao
que sou muito grato. Sem essa transcendência não teria conseguido enfrentar a
materialidade onipresente dos nossos tempos. Seria um tronco oco.
Ao dar os primeiros passos pelo mundo, encontrei quem me
desse aconchego e abrigo. Boa parte destes pedia algo em troca. Dava o que
tinha, mas guardei mais as lições daqueles que me amparavam sem nada propor.
Encontrei solitários e desesperados. Geralmente não viam
nada além do seu umbigo. Estendiam sua mão, mas nada partilhavam do que tinham.
Destes, a lição de não repisar seus passos.
A vida me deu mulheres generosas e amores exigentes. Àquelas
que não pude atender, minha compreensão pela dor causada involuntariamente. Às
poucas que se deram sem nada exigir, guardo um enorme respeito pelo seu coração
amplo. E uma silenciosa torcida pela sua felicidade.
Encontrei velhas árvores e muita sombra sob seus ramos.
Tive de cuidar de muitos brotinhos. Reguei-os com o melhor
de mim.
Um por do sol primaveril me fazia muito bem. Mas, nada me
deixava mais feliz que uma manhã de sábado no meu bairro. Sei, difícil fazer
voltar a juventude e pelas ruas não existem mais aqueles rostos queridos. Tenho
de prosseguir...
O passado é uma mala que pode se tornar pesada demais.
Ganhei de brinde filhas. Nelas, os verbos ensinar,
exemplificar, acompanhar ... Confesso que aprendo muito mais, apenas as
observando. As exigências paternais não me fizeram um homem melhor, apenas realçaram
o quanto sou inepto.
Incessante mesmo é a busca por um Deus que faça sentido. Que
dê um norte a uma fé frágil. Algumas vezes acreditei encontrá-lo num abraço
solidário, no trabalho com paixão, num olhar compreensivo e caloroso. Nunca,
nunca mesmo, encontrei Deus ao pé de santos e padres.
Um lindo dia de sol é o que motiva este corpo um tanto
deteriorado pelos excessos a prosseguir sua busca solitária. Quem sabe minha
alma ao se desprender desta carcaça encontre a serenidade e as respostas que abarcaram
uma vida inteira. Sigo esta senda. Um olho no céu é os pés levitando na terra.
Se meu sorriso te agrada, saiba que tenho prazer em te ver
sorrir mais ainda. É a tua felicidade o que mais importa agora...
sábado, 13 de julho de 2013
Conversando com o Facebook num sábado de noite.
Sabe sr. Facebook (olá Obama, você aqui? Fique a vontade. Desculpe, mas não tenho cafezinho, não), ando um pouco entediado com as análises sobre as manifestações e os consequentes CRTL-C CRTL-V que entopem minha página. É gente apoiando a Dilma, mais um povo linchando o PT, convite pra manifestação, doação de bichinhos e outras atividades meritórias, ou nem tanto, dependendo do ponto de vista político de cada um. Há também as correntes solidárias, fotos de comidas exóticas, viagens sensacionais, os cartõezinhos religiosos, pessoas desancando o Papa e outras convidando para um momento de oração. Colorados insanos e gremistas doidos tem feito da minha página um rosário de ofensas. Evito comentar e postar alguma coisa do meu time, pois sempre aparece um sem noção que se faz de mal entendido e começa uma briga surreal. Numa determinação um tanto rude, uso como norma, a pena capital para palavrões. Deleto no ato. Deve haver elegância no uso de palavras deselegantes. Sugiro xingar em outros idiomas.
Enfim, me parece que todos tem opinião, todos tem algo a dizer. Dia desses, um querido amigo, Lucas Barroso, jovem jornalista que escreve muito bem, registrou que não quer ser julgado e nem julgar neste "tribunal virtual". Eu, de chato, fui lá e meti o bedelho no texto dele. Só por essa frase, passou ao rol de pessoas que dou atenção ao que escreve.
Nos tempos dos PSDB, eu lia Carta Capital e Caros Amigos. Em tempos de PT, me esforço pra ler a VEJA e alguns cronistas do Estadão. Ao fim das contas e de tantas acusações de parte a parte, concluí que nenhum político neste país está a altura do meu voto. Isso me remete à juventude, no tempo das Califórnias, quando Victor Hugo cantava "Pra onde ir..." Soa tão atual, mesmo depois de três décadas...
Pois é Facebook, tal como o senhor Orkut, vocês me aproximaram pessoas que haviam evaporado da minha vida, para o bem e para o mal. A Marianna é o resultado de um reencontro virtual, e por isso não liquidei minha velha continha lá.
Pergunto-me, às vezes, porque dedico mais de uma hora diária lendo cada postagem aqui feita. E olha, que leio quase todas. Como se fosse um vício insaciável saber o que os outros pensam e tem a coragem de dizer...
Confesso que já me deprimi com as notícias sobre a evolução da doença de um desconhecido, bem como vibrei muito com as vitórias e conquistas de muitos outros, principalmente daqueles que foram meus alunos e hoje ocupam seu espaço dignamente.
Num mea culpa, reconheço que exagero ao postar fotos das minhas filhas que crescem e da mulher com quem divido bons e maus momentos. Ou de algum evento bacana do meu trabalho. Mais ainda escrever frases que só meia dúzia entende o contexto, brincando de ser inteligente ou recomendando músicas de gosto muito exclusivo e restrito, bancando o cool...
Mas, de repente é o objetivo disso tudo, compartilhar o que tenho, com quem eu gosto neste mundinho virtual...
Enfim, me parece que todos tem opinião, todos tem algo a dizer. Dia desses, um querido amigo, Lucas Barroso, jovem jornalista que escreve muito bem, registrou que não quer ser julgado e nem julgar neste "tribunal virtual". Eu, de chato, fui lá e meti o bedelho no texto dele. Só por essa frase, passou ao rol de pessoas que dou atenção ao que escreve.
Nos tempos dos PSDB, eu lia Carta Capital e Caros Amigos. Em tempos de PT, me esforço pra ler a VEJA e alguns cronistas do Estadão. Ao fim das contas e de tantas acusações de parte a parte, concluí que nenhum político neste país está a altura do meu voto. Isso me remete à juventude, no tempo das Califórnias, quando Victor Hugo cantava "Pra onde ir..." Soa tão atual, mesmo depois de três décadas...
Pois é Facebook, tal como o senhor Orkut, vocês me aproximaram pessoas que haviam evaporado da minha vida, para o bem e para o mal. A Marianna é o resultado de um reencontro virtual, e por isso não liquidei minha velha continha lá.
Pergunto-me, às vezes, porque dedico mais de uma hora diária lendo cada postagem aqui feita. E olha, que leio quase todas. Como se fosse um vício insaciável saber o que os outros pensam e tem a coragem de dizer...
Confesso que já me deprimi com as notícias sobre a evolução da doença de um desconhecido, bem como vibrei muito com as vitórias e conquistas de muitos outros, principalmente daqueles que foram meus alunos e hoje ocupam seu espaço dignamente.
Num mea culpa, reconheço que exagero ao postar fotos das minhas filhas que crescem e da mulher com quem divido bons e maus momentos. Ou de algum evento bacana do meu trabalho. Mais ainda escrever frases que só meia dúzia entende o contexto, brincando de ser inteligente ou recomendando músicas de gosto muito exclusivo e restrito, bancando o cool...
Mas, de repente é o objetivo disso tudo, compartilhar o que tenho, com quem eu gosto neste mundinho virtual...
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Os milicos se queixam muito de fazer cri-cri. A atividade exaustiva de tirar as ervas que crescem entre os paralelepípedos das ruas com um ferrinho nas mãos.
Não sei se foi isso que inspirou papai que, volta e meia, nos convocava, nos dava um saquinho e junto, a ordem de catar pedrinhas e retirar as rosetas do gramado. Acocados ou de joelhos, enfrentávamos os três belos tapetes que havia no declive do terreno, esculpídos ainda pelo meu avô na década de 1960. Uma ou outra espetada de uma roseta madura, uma canseira danada sob o sol e estava pronto. Lembro que dava pra caminhar com o pé descalço, deitar e rolar... Um tapete mesmo, como mostra a foto das primas Lourdes e Cleci.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Ausência
Ausência é a falta. Simples assim. É aquele buraco que a despeito de nossa vontade, abre-se sob os pés e nos engole por inteiro. Um rombo que nos tira do prumo e realça as descrenças, levando-nos a reflexão e a repetição contínua do pensamento. Fecham-se os horizontes. A ausência é uma parente próxima da depressão. Você deve estar imaginando que estou falando da falta de dinheiro. RSRSRS. Também poderia ser. Mas, menciono uma ausência mais perene. A falta de meu pai. Amanhã, dia 05/02, fará 28 anos em foi chamado para um plano superior. Como ela era um fervoroso católico praticante, acredito que foi para o céu. Quem sabe de mãos dadas com Santa Rita de Cássia, de quem era tão devoto.
Papai sempre foi sisudo e severo com a gente, mas também era muito afetivo. Pensei em escrever o que sei sobre a sua vida, infância, juventude, a doença que o consumiu, seus amores, a paixão por mamãe... Não daria duas páginas, tão pouco sei. Tenho dele aquela imagem austera, rígida. Quando das minhas andanças
entre a parentada, pra conhecer as gentes de onde provenho, fiquei pasmo com a imagem descrita pelos parentes, a de um cara brincalhão e, por vezes, divertido, pregando peças nos primos menores. Foi como ter notícias de outra pessoa. Mas, bem ou mal, vivemos quase 18 anos juntos... E, por mais preparado que estivesse, foi um baque. Depois a ausência, depois a contínua saudade.
Papai sempre foi sisudo e severo com a gente, mas também era muito afetivo. Pensei em escrever o que sei sobre a sua vida, infância, juventude, a doença que o consumiu, seus amores, a paixão por mamãe... Não daria duas páginas, tão pouco sei. Tenho dele aquela imagem austera, rígida. Quando das minhas andanças
entre a parentada, pra conhecer as gentes de onde provenho, fiquei pasmo com a imagem descrita pelos parentes, a de um cara brincalhão e, por vezes, divertido, pregando peças nos primos menores. Foi como ter notícias de outra pessoa. Mas, bem ou mal, vivemos quase 18 anos juntos... E, por mais preparado que estivesse, foi um baque. Depois a ausência, depois a contínua saudade.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
O bom Estácio.
Um pouco de mim para atualizar. Bom, 2013 já está acontecendo, faz seis meses que não escrevo nada e a vida continua sua incessante marcha, realçando minha pequenez. A Marianna chegou, forte e firme, enriqueceu o cotidiano. Nasceu uma semana depois da última postagem e virou de cabeça pra baixo o dia a dia.
Nisso, aquela história de ser pai e as suas implicâncias. Quando vemos, já estamos programando a festa de um ano, ela está querendo engatinhar e seu sorriso sem dentes ilumina a casa. A Anna é uma moça. Linda e faceira. Me desconsola um pouco ele ter saído tão parecida a mim, nos traços psicológicos. Bom, não posso viver por ela. Dei minhas filhas ao mundo que as há de consumir. Procuro municiá-las para enfrentá-lo, mas sabemos todos que é uma batalha ingrata, quando não infrutífera.
Me mudei. Novos ares, quase uma nova vida. E, em novembro, reuni amigos que não via há trinta anos.
Tanta coisa aconteceu, no trabalho, na vida pessoal, na vida familiar. E, no entanto, sigo procurando. Às vésperas de completar 46 anos, sigo buscando um sentido nesta existência. Algo que justifique tanto tempo perdido entre portas meio abertas, escolhas erradas, decisões pífias, a fraqueza em tentar e aquele sentimento que deveria ser melhor. Deveria ser bom, pelo menos. Como disse uma pessoa sobre mim: " O eterno insatisfeito". E, ela está cheia de razão. Quem me fabricou deve ter determinado no DNA: Intenso, Completo e Amplo. Mas, deveria ter me dado umas ferramentas mais adequadas.
Olhando exclusivamente para o meu umbigo, se eu partisse hoje, diria que vivi intensamente. Sem lamentações... Pelo menos, creio eu. Aproveitei cada segundo como um aprendizado, mas para quê? Qual o meu legado?
Que mundo deixo eu para meus entes onde 236 jovens morrem numa ratoeira enfumaçada, quando foram apenas se divertir? Quando a classe política de meus país fede a peixe podre? Quando jovens à minha volta planejam não um bom emprego mas, sim, como farão no próximo assalto. Quando ética, gentileza e compaixão são miragens sociais e a cultura definha aos pouquinhos?
Sei, a vida segue. E eu e vocês nela... e um gosto de sal amargo na garganta me impede de saboreá-la.
Mas, há ainda os mistérios insondáveis que me cercam. Um deles, mais presente no momento é o quanto as pessoas não me levam a sério. E eu que me acreditava importante. Pois veja, das 6.345 opiniões, ponderações, sugestões e mais alguns "ães&ões" que emiti nos últimos seis meses, 6.333 foram embora devidamente ensacadinhas nos caminhões do DMLU; seis eram sobre o Grêmio e as últimas seis, fiquei no limbo, pois eram parte de um animado colóquio com a Marianna. Não sei afinal se aqueles grunhidos eram de aprovação.
Sem contar quando te verbalizam que um cão tem mais valor que uma pessoa, neste caso eu.
Pra completar a sensação de saco de batatas com braços e pernas, encimado por um porongo oco, vi impassível, na minha idade, gente gritando comigo ou fazendo piadinha de mau gosto na minha cara, pessoas que ora procuro manter a distância. Outra confissão: eu não tenho amigos próximos. O último que ainda visitava esporadicamente me desapontou de uma forma vil e vergonhosa. Teria de ter um post especial para o fato, tão pequeno e triste que foi. Anda tudo preto e branco, com 50 TONS DE CINZA.
Sei, sei é hora de reavaliar... Percebo, parodiando o Barão de Itararé, que de onde menos se espera daí é que não sai nada mesmo, e que é preciso reagir. Quando faço isso, geralmente há lágrimas. Ou deixar como está e amansar esta mágoa amarga, aumentando a postura de coadjuvante servil. Lembro agora, de outro comentário acerca de mim, quando uma pessoa que gosto muito me disse: Tu és tão cordato! Bem, também lembro que uma vez só, demonstrei a ele o desconhecido Estácio e, para meu pesar, ainda guardo seu olhar de medo e até hoje ele me evita.
Nisso, aquela história de ser pai e as suas implicâncias. Quando vemos, já estamos programando a festa de um ano, ela está querendo engatinhar e seu sorriso sem dentes ilumina a casa. A Anna é uma moça. Linda e faceira. Me desconsola um pouco ele ter saído tão parecida a mim, nos traços psicológicos. Bom, não posso viver por ela. Dei minhas filhas ao mundo que as há de consumir. Procuro municiá-las para enfrentá-lo, mas sabemos todos que é uma batalha ingrata, quando não infrutífera.
Me mudei. Novos ares, quase uma nova vida. E, em novembro, reuni amigos que não via há trinta anos.
Tanta coisa aconteceu, no trabalho, na vida pessoal, na vida familiar. E, no entanto, sigo procurando. Às vésperas de completar 46 anos, sigo buscando um sentido nesta existência. Algo que justifique tanto tempo perdido entre portas meio abertas, escolhas erradas, decisões pífias, a fraqueza em tentar e aquele sentimento que deveria ser melhor. Deveria ser bom, pelo menos. Como disse uma pessoa sobre mim: " O eterno insatisfeito". E, ela está cheia de razão. Quem me fabricou deve ter determinado no DNA: Intenso, Completo e Amplo. Mas, deveria ter me dado umas ferramentas mais adequadas.
Olhando exclusivamente para o meu umbigo, se eu partisse hoje, diria que vivi intensamente. Sem lamentações... Pelo menos, creio eu. Aproveitei cada segundo como um aprendizado, mas para quê? Qual o meu legado?
Que mundo deixo eu para meus entes onde 236 jovens morrem numa ratoeira enfumaçada, quando foram apenas se divertir? Quando a classe política de meus país fede a peixe podre? Quando jovens à minha volta planejam não um bom emprego mas, sim, como farão no próximo assalto. Quando ética, gentileza e compaixão são miragens sociais e a cultura definha aos pouquinhos?
Sei, a vida segue. E eu e vocês nela... e um gosto de sal amargo na garganta me impede de saboreá-la.
Mas, há ainda os mistérios insondáveis que me cercam. Um deles, mais presente no momento é o quanto as pessoas não me levam a sério. E eu que me acreditava importante. Pois veja, das 6.345 opiniões, ponderações, sugestões e mais alguns "ães&ões" que emiti nos últimos seis meses, 6.333 foram embora devidamente ensacadinhas nos caminhões do DMLU; seis eram sobre o Grêmio e as últimas seis, fiquei no limbo, pois eram parte de um animado colóquio com a Marianna. Não sei afinal se aqueles grunhidos eram de aprovação.
Sem contar quando te verbalizam que um cão tem mais valor que uma pessoa, neste caso eu.
Pra completar a sensação de saco de batatas com braços e pernas, encimado por um porongo oco, vi impassível, na minha idade, gente gritando comigo ou fazendo piadinha de mau gosto na minha cara, pessoas que ora procuro manter a distância. Outra confissão: eu não tenho amigos próximos. O último que ainda visitava esporadicamente me desapontou de uma forma vil e vergonhosa. Teria de ter um post especial para o fato, tão pequeno e triste que foi. Anda tudo preto e branco, com 50 TONS DE CINZA.
Sei, sei é hora de reavaliar... Percebo, parodiando o Barão de Itararé, que de onde menos se espera daí é que não sai nada mesmo, e que é preciso reagir. Quando faço isso, geralmente há lágrimas. Ou deixar como está e amansar esta mágoa amarga, aumentando a postura de coadjuvante servil. Lembro agora, de outro comentário acerca de mim, quando uma pessoa que gosto muito me disse: Tu és tão cordato! Bem, também lembro que uma vez só, demonstrei a ele o desconhecido Estácio e, para meu pesar, ainda guardo seu olhar de medo e até hoje ele me evita.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
A espera de Marianna
Amigos, ontem foi uma radiosa segunda-feira. Daquelas que me fazem questionar porque nasci na porra deste país e a insanidade de colocar filhos nele.
Começamos a semana arrumando o quarto da Marianna. Depois fomos almoçar na Petiskeira. Lá fiz o pedido e, pra agilizar, resolvi pagar a conta antes de vir a comida. No caixa, percebi que havia um ligeiro acréscimo no valor. Para minha surpresa estava embutida e registrada uma "gorjeta opcional" que não me foi comunicada. Evidente que não autorizei. Achei sacanagem, azedando o almoço.
Ah! Havia pedido que minha cerveja fosse servida antes da comida. Nada. Chegou um rapaz, colocou os pratos e perguntou se não faltava nada. Respondi que faltava a bebida. Lá foi ele.. As papilas degustativas já sentiam o sabor da cevada e... três, quatro, cinco minutos...nada. Trouxeram a comida (fria), e perguntaram (de novo) se não estava faltando nada. Se a patroa, com 38 semanas, não estivesse com bastante fome, tinha pedido meu dinheiro de volta e ido a um Restaurante de verdade. Claro que fiz devolverem o dinheiro da cerveja (deu pra comprar duas em casa) e a Petiskeira passou agora ao rol de terceira opção alimentar. Depois de passar pela segunda exploração que é o valor do estacionamento, fomos pra casa. Eu, irritado.
Lá pelas 16h e 30min nos movimentamos para a última consulta no Hospital Divina Providência, com os preparativos para o parto, etc... Fizemos a opção deste hospital depois do episódio da obstetra picareta que achacou a Márcia (registrei aqui naquele texto da empregada doméstica). Mas, enfim, este país está uma bosta, enlameado tal qual aquela gente enrolada no STF... Um retrato da malandragem, picaretagem, sacanagem. Tive nojo ontem. E temi pelo futuro de minhas filhas nesta barca podre chamada sociedade brasileira.
Chegamos lá no HDP às 17h 09min, segundo o ticket de estacionamento. Bem amigos, pra encurtar o causo, saímos quatros horas depois, às 21h 15min.
Detalhe, não foi a única vez que isso aconteceu lá com a patroa.
Nunca é menos de uma hora e meia pra uma consulta.
Ironia da atendente logo de cara: - Tenho duas notícias. Uma boa: a médica já chegou! A outra, é que vocês são os últimos da fila. Às 18h mais ou menos, ela fechou a banca e foi embora, ficando as gestantes ali esperando. O que me incomoda é que não há o cuidado de uma triagem. A mulher tá com os tornozelos do tamanho da panturrilha de tão inchados. Poderia ter sido atendida antes. Quem sabe mais um médico? Acho que tem pacientes do SUS, mas não justifica 4horas.
Amanhã vou perguntar à Unimed e à Ouvidoria do Hospital se eles acham humano esse tipo de tratamento a uma gestante. Vou perguntar o que eles achariam se a mãe deles estivesse naquela situação. Prometo!
Fechei o dia bufando, querendo complicar na saída, mas a ouvidoria do Hospital só funciona em horário comercial. E, por fim a mulher me implorou pra ficar quieto quando comecei a chiar pra pagar 15,50 de estacionamento no Hospital. Isso mesmo! Vá de ônibus, de lotação, táxi.
Só o que falta é eles complicarem na hora do parto, que nem os caras da lanchonete que me deixaram sem cerveja... Sabe-se lá. Pensar em defender seus direitos, mesmo que custe 0,05 centavos te tacham de chato. Por isso as coisas estão dessa forma.
Mas, estamos prontos pra copa e pras olimpídas...
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