Não sei do propósito da minha existência. Ando sempre
revirando pedrinhas, folhas de livros, troca de olhares e ardor, mas não tem
maneira. Consolo-me em buscar sempre e deixar que os outros busquem também,
livremente.
Na infância tive quem me ensinasse o valor das flores. Ao
que sou muito grato. Sem essa transcendência não teria conseguido enfrentar a
materialidade onipresente dos nossos tempos. Seria um tronco oco.
Ao dar os primeiros passos pelo mundo, encontrei quem me
desse aconchego e abrigo. Boa parte destes pedia algo em troca. Dava o que
tinha, mas guardei mais as lições daqueles que me amparavam sem nada propor.
Encontrei solitários e desesperados. Geralmente não viam
nada além do seu umbigo. Estendiam sua mão, mas nada partilhavam do que tinham.
Destes, a lição de não repisar seus passos.
A vida me deu mulheres generosas e amores exigentes. Àquelas
que não pude atender, minha compreensão pela dor causada involuntariamente. Às
poucas que se deram sem nada exigir, guardo um enorme respeito pelo seu coração
amplo. E uma silenciosa torcida pela sua felicidade.
Encontrei velhas árvores e muita sombra sob seus ramos.
Tive de cuidar de muitos brotinhos. Reguei-os com o melhor
de mim.
Um por do sol primaveril me fazia muito bem. Mas, nada me
deixava mais feliz que uma manhã de sábado no meu bairro. Sei, difícil fazer
voltar a juventude e pelas ruas não existem mais aqueles rostos queridos. Tenho
de prosseguir...
O passado é uma mala que pode se tornar pesada demais.
Ganhei de brinde filhas. Nelas, os verbos ensinar,
exemplificar, acompanhar ... Confesso que aprendo muito mais, apenas as
observando. As exigências paternais não me fizeram um homem melhor, apenas realçaram
o quanto sou inepto.
Incessante mesmo é a busca por um Deus que faça sentido. Que
dê um norte a uma fé frágil. Algumas vezes acreditei encontrá-lo num abraço
solidário, no trabalho com paixão, num olhar compreensivo e caloroso. Nunca,
nunca mesmo, encontrei Deus ao pé de santos e padres.
Um lindo dia de sol é o que motiva este corpo um tanto
deteriorado pelos excessos a prosseguir sua busca solitária. Quem sabe minha
alma ao se desprender desta carcaça encontre a serenidade e as respostas que abarcaram
uma vida inteira. Sigo esta senda. Um olho no céu é os pés levitando na terra.
Se meu sorriso te agrada, saiba que tenho prazer em te ver
sorrir mais ainda. É a tua felicidade o que mais importa agora...
Um comentário:
lindo e expressivo texto, narrativas de uma vida bem vivida ...
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