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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Pessoas é por aí



Em algum canto da memória as imagens e diálogos ficaram muito bem preservados, intactos. Algumas sensações, ainda vívidas, mesmo meio século depois, chegam fácil, transportando-me no tempo. Hoje posso dizer que a viagem foi realmente dura, desde a concepção. Pela morte de papai, assumi uma família que foi minha durante muito tempo. Mas, que culpa tive se casualmente ele estava sóbrio quando eu anunciei que ia embora. Disse assim, sem mais, num dia normal, logo que cheguei em casa, depois de pegar um panfleto com propaganda em Zyrardów. O velho saiu de si, enlouqueceu, chamou minhas responsabilidades, que era o filho mais velho, enfim, ia me dar uns bofetes se o seu deteriorado estado físico permitisse. Como não conseguiu me demover, mergulhou noutra viagem etílica, percorrendo com afinco os bares da redondeza, esbravejando contra minha ideia, amaldiçoando-a. Lá pelo terceiro boteco e pela sexta garrafa, as artérias cederam e ele morreu com algum estardalhaço, derrubando os bancos e a mesa.






Não senti muito ou não senti como devia aquela perda. No correr dos anos, os porres e as pancadas inexplicáveis, criaram em mim uma couraça de indiferença por aquele homem bruto e ignorante que embuchou mamãe umas dez vezes. Como o tempo, o couro foi se esticando em direção aos demais membros da família, inclusive mamãe. Dos dez filhos do casamento, restaram três, Sofia, Margarida e eu, Jan. Os outros morreram de doenças comuns e de acidentes incomuns. Eram pessoas com quem eu convivia sem o menor entusiasmo, pelo menos até papai bater as botas.


De repente vi-me responsável por três mulheres carentes. Mamãe não tinha atrativo nenhum. Aos 40 anos, de muito poucos atributos, muita falta de dentes, parecia ter o dobro da idade. Não teria pretendentes. Minhas irmãs, uma com 12 e a outra com 8, precisariam de alguém que tomasse conta delas. E o escolhido pelo destino era eu.


Durante o velório, uma ideia nasceu e foi crescendo. Enquanto ouvia as condolências fui materializando-a e antes do caixão encostar na terra, estava decidido: as levaria comigo. Pelo menos mamãe sabia cozinhar, era forte e as gurias manteriam minhas poucas roupas em ordem. Para isso, precisava colocar algumas coisas em ordem, vender a casa, arranjar os documentos necessários e, o mais difícil, contar ao velho Franek meus planos. Ia ser doloroso.


Francisco Szulc foi ao mesmo tempo patrão, instrutor, educador, incentivador e amigo. Tcheco de nascimento, criou uma ferraria, era um mestre artesão na sua arte. Não tinha muita clientela porque era um pouco lento para uma cidade que crescia rápido demais. Mas seus trabalhos eram excelentes.

Comecei a trabalhar com ele antes dos 14 anos. Durante os seis anos que passei lá, conciliei os estudos com a prática diária na forja, misturando metais ferventes, dando formas a porcas, parafusos, portões, panelas e ferraduras. Sentia-me bem por não precisar ir pra casa e por ganhar alguns trocados, pagos religiosamente. O dinheiro deixava com a mãe pra auxiliar no orçamento do mês. Papai sempre me achou um imprestável com discursos

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