Quando participei como painelista do Seminário Internacional da Etnia Polonesa na URI, em Erexim (Bah! Em outubro fará dez anos), fomos convidados para um jantar, na noite anterior ao evento, na Sociedade Rui Barbosa. Várias autoridades acadêmicas, PHD'S, Doutores, Mestres e eu, de curioso, por lá. Completamente desconhecido, fui sendo apresentado aos demais "colegas" do Seminário como o radialista e professor que fazia pesquisas sobre os polacos de Porto Alegre. Filho de um descendente polonês de quatro costados e uma cabocla do litoral de Santa Catarina, minha pele, diferente dos meus irmãos, é bem mais morena. Quando pequeno, parecia um indiozinho. Meu pai dizia "czarna polska", ou seja, polaco preto. Fisicamente, herdei dos poloneses o branco dos olhos e o sobrenome complicado. Psicologicamente, um temperamento dos infernos. Não é a toa que os poloneses dizem: "Em nossas veias ferve o sangue dos falcões".
Logo de cara, na entrada da venerável sociedade, fomos recebidos pelos locais mais importantes. Uma polonesa nata, estranhando o "moreno / negrão" (czarna) no meio da delegação de Porto Alegre, segurou minha mão e, em polonês pergunta: Ty jest polski? (tu é polonês?). Na hora me fiz de esquerdo, pedi ajuda do Sidnei, dizendo que não entedia, fiquei ali meio sem graça, meio chateado, com o sangue indo pros 60 graus de temperatura. E prossegui nos cumprimentos me irritando mais ainda porque alguns caras insistiam em falar em polonês comigo. Quando percebiam que eu não entendia nada, faziam um muxoxo de desaprovação e me deixavam falando sozinho (em português). De repente, uma famosa historiadora, sei lá porque, se achega e diz: Ty jest Polski? Aí o sangue do polakon chegou aos 96 graus. Saia fumacinha das orelhas quando devolvi: I Ty, jest Brazjliy? (E tu, é brasileira?) Ela sorriu amarelo e desapareceu. Depois de mais algumas formalidades, jantamos e fomos descansar afim de estarmos prontos para os trabalhos no dia seguinte.
Logo de cara, na entrada da venerável sociedade, fomos recebidos pelos locais mais importantes. Uma polonesa nata, estranhando o "moreno / negrão" (czarna) no meio da delegação de Porto Alegre, segurou minha mão e, em polonês pergunta: Ty jest polski? (tu é polonês?). Na hora me fiz de esquerdo, pedi ajuda do Sidnei, dizendo que não entedia, fiquei ali meio sem graça, meio chateado, com o sangue indo pros 60 graus de temperatura. E prossegui nos cumprimentos me irritando mais ainda porque alguns caras insistiam em falar em polonês comigo. Quando percebiam que eu não entendia nada, faziam um muxoxo de desaprovação e me deixavam falando sozinho (em português). De repente, uma famosa historiadora, sei lá porque, se achega e diz: Ty jest Polski? Aí o sangue do polakon chegou aos 96 graus. Saia fumacinha das orelhas quando devolvi: I Ty, jest Brazjliy? (E tu, é brasileira?) Ela sorriu amarelo e desapareceu. Depois de mais algumas formalidades, jantamos e fomos descansar afim de estarmos prontos para os trabalhos no dia seguinte.
Olha, no Seminário não apareceu gente, pessoas... Em compensação o local tava apinhado de polacos. Tinha mais de 500. De tudo quanto é canto. Eu subi no palco, dei meu recado. Falei , falei e, no geral, me sai bem, sabia bastante sobre o tema. Fui um dos únicos três palestrantes que não usaram o recurso do texto pra relatar seus estudos e, como sou um apaixonado pelo estudo, isso ficou claro na forma vibrante que falei. Desci de lá com convite pra jantar, com alguns colegas querendo deixar seu cartão, trocar informações, pedir um pouco do meu material de pesquisa, etc... Se eu fosse mais sacana, podia ter casado na festa. No contexto geral, ficou a ideia de que em Porto Alegre, tem um polaco negão que sabe sobre o assunto.
Mas, existem as pessoas inesquecíveis. Eu estava bem feliz, conversando descontraído, quando ... tchan! tchan! tchan!tchan! retorna a famosa historiadora, desta vez com uma amiga. A historiadora me diz: Estácio, minha amiga aqui está encantada com tanta gente clara, de olhos azuis e perguntou se não existiam poloneses morenos ou pretos. Daí me lembrei de te apresentar pra ela. Fulana, este é o Estácio... Estácio, essa é fulana...
Exerci todo o meu autocontrole. Ia ficar chato acabar levando o Seminário para as páginas policiais da cidade. Se ela tivesse feito antes, eu teria apresentado as fotos na palestra de umas duas ou três famílias de crioulos legítimos, de sobrenome polonês que vivem na região metropolitana de Porto Alegre. Mas, como o tempo era curto, e o assunto poderia incitar uma discussão mais profunda, deixei para uma outra oportunidade.
A partir dali, comecei a valorizar também minha variada ancestralidade materna e a falar abertamente que um dos meus bisavós era mulato.
Faz dez anos que meu afilhado, amigo e admirador da referida historiadora, insiste para que eu interaja e participe de eventos em que ela pontifica nas pesquisas e destila sua sabedoria. Agora, espero que ele entenda porque sempre recuso, muitas vezes com os dentes rilhando e a cara vermelha, que nem a bandeira da Polônia.
Um comentário:
Bueno, eu compartilho, embora não sendo polaca, dessa sensação de estar entre os poloneses e ter que fazer cara de paisagem quando falam comigo em polonês.... e eu não entendo uma palavra. Bem descrita a sensação do sangue esquentando fazendo o rosto ferver .... mas, faz parte!!!!!
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