Dona Dilma, posso transferir parte das minhas contas pra senhora ou a sua turma de políticos? Agora que terminaram esses jogos na minha cidade e nossa rotina segue (menos nos feriados dos jogos do escrete canarinho), a senhora podia dar uma forcinha para que as obras dos corredores terminassem de uma vez. É que me disseram, dona Dilma, que era pra melhorar e facilitar o acesso das pessoas ao estádio que o seu antecessor escolheu e a senhora se empenhou (e o BNDS também) pra que ficasse pronto... Ah! Dona Dilma, a senhora não viu? Não? Não ficaram prontos ainda. Sei é uma pena, mas maquiaram bem. Os visitantes nem notaram que aquelas avenidas insignificantes, como a Protásio Alves e Bento Gonçalves tem obras que andam e param. Sim, dona Dilma, ônibus e carros juntos. Até acostumamos. Temos uma mídia otimista, dona Dilma. Tem cronista que ainda fala em legado da Copa. Um tal de caminho não sei do quê... Afinal, hoje em dia, levar uma hora pra andar um quilômetro é parte da modernidade. Mas fique tranquiia, os ônibus estão limpos vazios e cheirosos e as obras lá da zona Sul, onde mora o seu Araújo estão de vento em popa ou terminaram. Não temos do que reclamar. Olha, do metrô subterrâneo eu nem vou lembrar. Fiquei triste com todas as entrevistas, prefeito indo a Brasília, aquele auê todo, esperando o início das obras e depois todo mundo com cara compungida dizendo que não ia dar tempo pra fazer. Até imaginei a senhora aqui inaugurando os primeiros 50 metros da obra. Pô, dona Dilma, até a o ponte do Guaíba virou miragem. Tem gente que diz que é engambelamento, mas eu lhe defendo, dizendo que não condiz com a sua imagem proba e séria. Sim, eu sei que a senhora não usaria aquele chapeuzinho vermelho de obreiro. Seu antecessor usou e depois não entendeu porque só 10% pro Adão Villaverde. Muito astucioso ele... Ah... até acho uma pena que Porto Alegre não possa sediar os jogos das semifinais. Pois é, tinha um estádio aqui pronto, com a capacidade para comportar o evento. Mas a senhora insistiu tanto em restaurar outro. Podia ao menos colocá-lo dentro dos padrões... Sim, entendo 260 milhões já era muito dinheiro...A senhora deve mesmo tratar a coisa pública com seriedade. A propósito, falando em grana, dona Dilma, sou profissional liberal e este mês não faturei nada. A FIFA não me deixou vender uns pasteizinhos perto do estádio. A senhora por acaso tem uns trocados pra me emprestar? Até entro num desses seus planos, desde que tenha alguns milhares de anos pra pagar. A senhora não isentou a FIFA dos impostos e mandou grana pra tudo que é pais vermelho do continente? Aliás, tá com a cor do meu balancete este mês... Consegue uma alforriazinha pra mim também? Só não vendo o meu voto e nem troco de time. Dona Dilma, por favor não me apareça com o Maluf num palanque. Eu ia ficar com muita vergonha.
Total de visualizações de página
segunda-feira, 30 de junho de 2014
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Reliquias
Relíquias
Como viajo geralmente sozinho, no silêncio e na observação, sou espectador privilegiado das coisas que se sucedem diante dos meu sentidos. Desde o longínquo dia em que o Paulo Coelho ensinou-me como prestar atenção ao mundo que me cerca, acostumei-me a registrar as cores, os cheiros, até as nuances mais delicadas dos fatos.
Costumo ficar num hotel barato, para que financeiramente compense ficar uma semana longe de casa. Já pernoitei em cada lugar, me deitei em cada travesseiro, me enrolei em colchas que deveriam ter a idade do hotel. Alguns lençóis foram da Guerra dos farrapos, certo...
Tem hotel em que a família proprietária mora nele. Então, fui ouvinte involuntário de algumas discussões caseiras, ouvi aqueles ruídos íntimos, um ou outro tabefe, choro de nenê e o colchãozinho de mola rangendo barbaridade quando um casal se atracava no antigo esporte branco. E também das vezes que um cretino com ataque de chifres resolvia ligar a vitrola a todo vapor num sertanejo corneante.
Cada coisa, a sua maneira, poderia resultar num causo. As histórias mais pitorescas ou marcantes, procuro compartilhar.
Em determinada localidade, mais ou menos lá onde judas perdeu as botas, reparei que ao alvorecer não havia galo cantando. Esquisito. Sempre dá uma nostalgia ouvir um galinho distante saudando o sol. Mas, lá, não ouvi nenhum. Em compensação, fui eleito pela comunidade dos mosquitos como o boteco oficial. O dono do hotel havia me dito que fazia anos que não apareciam mosquitos. E me disse isso com uns elefantes de asa, zunindo em volta dele. Considerando a minha taxa de álcool no sangue foi fácil liquidá-los depois. Estavam todos bêbados. Deixei de recordação uma nova decoração no quarto, com dezenas de insetinhos colados à parede.
Voltando ao galinho, no dia do meu aniversário acordei depois da costumeira trocacão de golpes com a mosquitada. Estava escuro e consultei meu relógio que, por alguma tecnologia legal, mostra os ponteiros no escuro. Eram pontualmente, seis horas. A hora que nasci. Enquanto juntava os pontos, eis que naquele exato instante, ergue-se claro e próximo, o típico canto desmilinguido de um garnizé. Foi como se o rif inicial de Heaven and Hell do Black Sabbath atravessasse a alma. Um corte melancólico e funesto. Um péssimo pressentimento se espalhou pelo corpo. E o dia foi sombrio. Triste como o canto do galinho. Comigo pensava se não havia sido o último.
De noite, ao voltar pra casa, reparei que o dono do hotel falava com alguém pelo telefone em espanhol. Fiquei surpreso com a pronúncia clara e o bom vocabulário. Ao desligar, olhou e riu dizendo que estavam lhe oferecendo curso de espanhol. E aí, cometi o erro. Inventei de brincar:
- Mas, Maradona es mui mejor que Pelé! Me gusta mucho el tango.
E até ensaiei uns passinhos no ritmo de Gardel....
Digamos que ele por algum motivo se enterneceu e se afeiçoou a mim. Durante umas duas horas, só falou no idioma de Cervantes. Preocupado com minha barriga, deu-me uma receita muito legal, que sigo buscando. Um tal de kifel. Uma hora cansei daquela algaravia e resolvi agradecer em alemão... Ao que ele respondeu claramente, inclusive com sotaque. Aproveitou e emendou mais umas frases pra mostrar com quem eu estava falando. Resolvi mudar de assunto e falar sobre imigração. Recebi uma lição, na língua de Dante. Sim, ele sabe falar em italiano. Ali, nos cafundós do Rio Grande, na porta de um hotel velho, tem um cara que é poliglota, com uma vasta experiência de vida. Que andou em vários recantos do globo. Claro que ele fala inglês. Viveu anos nos EUA. Dai eu perguntei, meio temeroso se ele sabia falar polonês. A resposta eu guardei na íntegra:
- Não, polonês não. Mas sei Sueco e um pouquinho de Dinamarquês. Tenho um filho na Suécia, morei um ano perto da terra do Papai Noel, a Lapônia.
Detalhe, o referido cidadão aparenta seus cinqüenta anos, com todos os fios de um cabelo dourado, que escorrem abundantes pelos ombros, ponteados de prata. Muito elegante e esbelto, contrasta com a deterioração avançada do hotel.
Eu parado ao lado dele, seria como comparar Don Diego e o Sargento Garcia.
No dia que acertei as contas, em animado colóquio em que ouvia frases com três, quatro idiomas, resolvi dizer que estava de aniversário:
- Hoje completo 47 anos!
Ele me saudou entusiasticamente:
- Parabéns, o meu é amanhã, dia 09. Farei 64 anos.
Eu achei que ele era mais novo que eu. Ele aparenta ser mais novo que eu. No máximo, talvez a minha idade. Desde de lá só tenho pensado no tal de kufel. Onde encontrar?
Como viajo geralmente sozinho, no silêncio e na observação, sou espectador privilegiado das coisas que se sucedem diante dos meu sentidos. Desde o longínquo dia em que o Paulo Coelho ensinou-me como prestar atenção ao mundo que me cerca, acostumei-me a registrar as cores, os cheiros, até as nuances mais delicadas dos fatos.
Costumo ficar num hotel barato, para que financeiramente compense ficar uma semana longe de casa. Já pernoitei em cada lugar, me deitei em cada travesseiro, me enrolei em colchas que deveriam ter a idade do hotel. Alguns lençóis foram da Guerra dos farrapos, certo...
Tem hotel em que a família proprietária mora nele. Então, fui ouvinte involuntário de algumas discussões caseiras, ouvi aqueles ruídos íntimos, um ou outro tabefe, choro de nenê e o colchãozinho de mola rangendo barbaridade quando um casal se atracava no antigo esporte branco. E também das vezes que um cretino com ataque de chifres resolvia ligar a vitrola a todo vapor num sertanejo corneante.
Cada coisa, a sua maneira, poderia resultar num causo. As histórias mais pitorescas ou marcantes, procuro compartilhar.
Em determinada localidade, mais ou menos lá onde judas perdeu as botas, reparei que ao alvorecer não havia galo cantando. Esquisito. Sempre dá uma nostalgia ouvir um galinho distante saudando o sol. Mas, lá, não ouvi nenhum. Em compensação, fui eleito pela comunidade dos mosquitos como o boteco oficial. O dono do hotel havia me dito que fazia anos que não apareciam mosquitos. E me disse isso com uns elefantes de asa, zunindo em volta dele. Considerando a minha taxa de álcool no sangue foi fácil liquidá-los depois. Estavam todos bêbados. Deixei de recordação uma nova decoração no quarto, com dezenas de insetinhos colados à parede.
Voltando ao galinho, no dia do meu aniversário acordei depois da costumeira trocacão de golpes com a mosquitada. Estava escuro e consultei meu relógio que, por alguma tecnologia legal, mostra os ponteiros no escuro. Eram pontualmente, seis horas. A hora que nasci. Enquanto juntava os pontos, eis que naquele exato instante, ergue-se claro e próximo, o típico canto desmilinguido de um garnizé. Foi como se o rif inicial de Heaven and Hell do Black Sabbath atravessasse a alma. Um corte melancólico e funesto. Um péssimo pressentimento se espalhou pelo corpo. E o dia foi sombrio. Triste como o canto do galinho. Comigo pensava se não havia sido o último.
De noite, ao voltar pra casa, reparei que o dono do hotel falava com alguém pelo telefone em espanhol. Fiquei surpreso com a pronúncia clara e o bom vocabulário. Ao desligar, olhou e riu dizendo que estavam lhe oferecendo curso de espanhol. E aí, cometi o erro. Inventei de brincar:
- Mas, Maradona es mui mejor que Pelé! Me gusta mucho el tango.
E até ensaiei uns passinhos no ritmo de Gardel....
Digamos que ele por algum motivo se enterneceu e se afeiçoou a mim. Durante umas duas horas, só falou no idioma de Cervantes. Preocupado com minha barriga, deu-me uma receita muito legal, que sigo buscando. Um tal de kifel. Uma hora cansei daquela algaravia e resolvi agradecer em alemão... Ao que ele respondeu claramente, inclusive com sotaque. Aproveitou e emendou mais umas frases pra mostrar com quem eu estava falando. Resolvi mudar de assunto e falar sobre imigração. Recebi uma lição, na língua de Dante. Sim, ele sabe falar em italiano. Ali, nos cafundós do Rio Grande, na porta de um hotel velho, tem um cara que é poliglota, com uma vasta experiência de vida. Que andou em vários recantos do globo. Claro que ele fala inglês. Viveu anos nos EUA. Dai eu perguntei, meio temeroso se ele sabia falar polonês. A resposta eu guardei na íntegra:
- Não, polonês não. Mas sei Sueco e um pouquinho de Dinamarquês. Tenho um filho na Suécia, morei um ano perto da terra do Papai Noel, a Lapônia.
Detalhe, o referido cidadão aparenta seus cinqüenta anos, com todos os fios de um cabelo dourado, que escorrem abundantes pelos ombros, ponteados de prata. Muito elegante e esbelto, contrasta com a deterioração avançada do hotel.
Eu parado ao lado dele, seria como comparar Don Diego e o Sargento Garcia.
No dia que acertei as contas, em animado colóquio em que ouvia frases com três, quatro idiomas, resolvi dizer que estava de aniversário:
- Hoje completo 47 anos!
Ele me saudou entusiasticamente:
- Parabéns, o meu é amanhã, dia 09. Farei 64 anos.
Eu achei que ele era mais novo que eu. Ele aparenta ser mais novo que eu. No máximo, talvez a minha idade. Desde de lá só tenho pensado no tal de kufel. Onde encontrar?
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Pois é... E agora? Voltar não dá mais.
Dia bom pra escrever algo. Passar a entrada do aniversário fazendo algo que gosto muito tem tudo a ver. Sobre a efeméride nem vou citar. Fiz 47 anos e pronto. Os joelhos, as juntas, o fôlego e até a voz estão indo pro beleléu. Firmes, ainda, os apetites... todos aqueles em que você pensou agora, mesmo com esse sorrisinho safado. De bom, a mulher e minhas filhas. E a família, já que a minha é bem legal, com tipos e perfis variados. Todos muito honestos e retos.
Agora, aos 47 anos, me percebo um ranzinza rabugento implicando com a cidade, que já nem chamo mais de minha. Pô! Ou eu estou esclerosando ou caminhamos céleres para um caos urbano. Ali, no contato direto, tete a tete, é um pega pra capar medonho... Como dizia papai, ninguém da passagem pra ninguém. Todos cobrando seu pedágio psicológico, monetário, afetivo, etc... Eu ouvi e vi coisas durante o último ano que foram revoltantes. E o pior, me calei. Talvez daí essa raiva, esse pessimismo. Ficar ouvindo um cara falar das experiências com uma menor de idade, numa vilinha qualquer a preços módicos reforçou meu sonho adolescente de ir embora. Sonhos estes que jazem naquele baú amargo das coisas que deixei de fazer. Ir pra onde? Aos 47!?
Porto Alegre parou, se estupidificou, se corrompeu. Com tantos governos ineptos, edis inúteis e uma população que faz jus aos que lhe governam, só poderia desembocar no trânsito caótico, na delinqüência, na pobreza e nas mazelas. Ou será que estou demente? Você tem tranqüilidade para sair à noite na cidade? Está contente com o transporte coletivo (ê o que eu uso - pra você que anda de carro, já não pensou em atirar em alguém nas ruas?)? Acha que formamos algo nas Escolas públicas? Tirou a sorte grande no SUS e conseguiu atendimento?
Mas, temos dois estádios lindos! E uma empresa de comunicação que pinta o RS com as cores do arco-íris. Olhando o face, veja o que se gastou de reflexão, de tempo, de esforço sobre os comparativos entre a Arena e o Beira-Rio. Sobre qual é melhor... E as pessoas, essas mesmas, trancadas nos engarrafamentos, resfolegam emitindo pareceres e teses que garantam a supremacia do seu time sobre o outro. Algumas poderiam ser temas acadêmicos, de tão chatos e detalhados. Futebol é um produto cultural hoje em dia. Dá forma a nossa cultura, brasileira. Até os caudilhos se mixaram (vide o Tarso que raspou o bigode, diferente do Olívio, que ainda tem bigode e cabelo no peito, sobre ele, disse o Elio Gaspari: "uma das últimas memórias da moralidade do partido da estrela"). Isso remonta a minha juventude, quando fui votar pela primeira vez, aos 19 anos. Quanta decepção. Devia ter ido pro Canadá, um tempo depois. Mas, eu acreditei que esse país mudaria, que meu estado cresceria e que Porto Alegre se humanizaria. Isso é o que eu chamo de começar bem os festejos do meu aniversário.
Agora, aos 47 anos, me percebo um ranzinza rabugento implicando com a cidade, que já nem chamo mais de minha. Pô! Ou eu estou esclerosando ou caminhamos céleres para um caos urbano. Ali, no contato direto, tete a tete, é um pega pra capar medonho... Como dizia papai, ninguém da passagem pra ninguém. Todos cobrando seu pedágio psicológico, monetário, afetivo, etc... Eu ouvi e vi coisas durante o último ano que foram revoltantes. E o pior, me calei. Talvez daí essa raiva, esse pessimismo. Ficar ouvindo um cara falar das experiências com uma menor de idade, numa vilinha qualquer a preços módicos reforçou meu sonho adolescente de ir embora. Sonhos estes que jazem naquele baú amargo das coisas que deixei de fazer. Ir pra onde? Aos 47!?
Porto Alegre parou, se estupidificou, se corrompeu. Com tantos governos ineptos, edis inúteis e uma população que faz jus aos que lhe governam, só poderia desembocar no trânsito caótico, na delinqüência, na pobreza e nas mazelas. Ou será que estou demente? Você tem tranqüilidade para sair à noite na cidade? Está contente com o transporte coletivo (ê o que eu uso - pra você que anda de carro, já não pensou em atirar em alguém nas ruas?)? Acha que formamos algo nas Escolas públicas? Tirou a sorte grande no SUS e conseguiu atendimento?
Mas, temos dois estádios lindos! E uma empresa de comunicação que pinta o RS com as cores do arco-íris. Olhando o face, veja o que se gastou de reflexão, de tempo, de esforço sobre os comparativos entre a Arena e o Beira-Rio. Sobre qual é melhor... E as pessoas, essas mesmas, trancadas nos engarrafamentos, resfolegam emitindo pareceres e teses que garantam a supremacia do seu time sobre o outro. Algumas poderiam ser temas acadêmicos, de tão chatos e detalhados. Futebol é um produto cultural hoje em dia. Dá forma a nossa cultura, brasileira. Até os caudilhos se mixaram (vide o Tarso que raspou o bigode, diferente do Olívio, que ainda tem bigode e cabelo no peito, sobre ele, disse o Elio Gaspari: "uma das últimas memórias da moralidade do partido da estrela"). Isso remonta a minha juventude, quando fui votar pela primeira vez, aos 19 anos. Quanta decepção. Devia ter ido pro Canadá, um tempo depois. Mas, eu acreditei que esse país mudaria, que meu estado cresceria e que Porto Alegre se humanizaria. Isso é o que eu chamo de começar bem os festejos do meu aniversário.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Pessoas é por aí
Em algum canto da memória as imagens e diálogos ficaram muito bem preservados, intactos. Algumas sensações, ainda vívidas, mesmo meio século depois, chegam fácil, transportando-me no tempo. Hoje posso dizer que a viagem foi realmente dura, desde a concepção. Pela morte de papai, assumi uma família que foi minha durante muito tempo. Mas, que culpa tive se casualmente ele estava sóbrio quando eu anunciei que ia embora. Disse assim, sem mais, num dia normal, logo que cheguei em casa, depois de pegar um panfleto com propaganda em Zyrardów. O velho saiu de si, enlouqueceu, chamou minhas responsabilidades, que era o filho mais velho, enfim, ia me dar uns bofetes se o seu deteriorado estado físico permitisse. Como não conseguiu me demover, mergulhou noutra viagem etílica, percorrendo com afinco os bares da redondeza, esbravejando contra minha ideia, amaldiçoando-a. Lá pelo terceiro boteco e pela sexta garrafa, as artérias cederam e ele morreu com algum estardalhaço, derrubando os bancos e a mesa.
Não senti muito ou não senti como devia aquela perda. No correr dos anos, os porres e as pancadas inexplicáveis, criaram em mim uma couraça de indiferença por aquele homem bruto e ignorante que embuchou mamãe umas dez vezes. Como o tempo, o couro foi se esticando em direção aos demais membros da família, inclusive mamãe. Dos dez filhos do casamento, restaram três, Sofia, Margarida e eu, Jan. Os outros morreram de doenças comuns e de acidentes incomuns. Eram pessoas com quem eu convivia sem o menor entusiasmo, pelo menos até papai bater as botas.
De repente vi-me responsável por três mulheres carentes. Mamãe não tinha atrativo nenhum. Aos 40 anos, de muito poucos atributos, muita falta de dentes, parecia ter o dobro da idade. Não teria pretendentes. Minhas irmãs, uma com 12 e a outra com 8, precisariam de alguém que tomasse conta delas. E o escolhido pelo destino era eu.
Durante o velório, uma ideia nasceu e foi crescendo. Enquanto ouvia as condolências fui materializando-a e antes do caixão encostar na terra, estava decidido: as levaria comigo. Pelo menos mamãe sabia cozinhar, era forte e as gurias manteriam minhas poucas roupas em ordem. Para isso, precisava colocar algumas coisas em ordem, vender a casa, arranjar os documentos necessários e, o mais difícil, contar ao velho Franek meus planos. Ia ser doloroso.
Francisco Szulc foi ao mesmo tempo patrão, instrutor, educador, incentivador e amigo. Tcheco de nascimento, criou uma ferraria, era um mestre artesão na sua arte. Não tinha muita clientela porque era um pouco lento para uma cidade que crescia rápido demais. Mas seus trabalhos eram excelentes.
Comecei a trabalhar com ele antes dos 14 anos. Durante os seis anos que passei lá, conciliei os estudos com a prática diária na forja, misturando metais ferventes, dando formas a porcas, parafusos, portões, panelas e ferraduras. Sentia-me bem por não precisar ir pra casa e por ganhar alguns trocados, pagos religiosamente. O dinheiro deixava com a mãe pra auxiliar no orçamento do mês. Papai sempre me achou um imprestável com discursos
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Procuro..
Não sei do propósito da minha existência. Ando sempre
revirando pedrinhas, folhas de livros, troca de olhares e ardor, mas não tem
maneira. Consolo-me em buscar sempre e deixar que os outros busquem também,
livremente.
Na infância tive quem me ensinasse o valor das flores. Ao
que sou muito grato. Sem essa transcendência não teria conseguido enfrentar a
materialidade onipresente dos nossos tempos. Seria um tronco oco.
Ao dar os primeiros passos pelo mundo, encontrei quem me
desse aconchego e abrigo. Boa parte destes pedia algo em troca. Dava o que
tinha, mas guardei mais as lições daqueles que me amparavam sem nada propor.
Encontrei solitários e desesperados. Geralmente não viam
nada além do seu umbigo. Estendiam sua mão, mas nada partilhavam do que tinham.
Destes, a lição de não repisar seus passos.
A vida me deu mulheres generosas e amores exigentes. Àquelas
que não pude atender, minha compreensão pela dor causada involuntariamente. Às
poucas que se deram sem nada exigir, guardo um enorme respeito pelo seu coração
amplo. E uma silenciosa torcida pela sua felicidade.
Encontrei velhas árvores e muita sombra sob seus ramos.
Tive de cuidar de muitos brotinhos. Reguei-os com o melhor
de mim.
Um por do sol primaveril me fazia muito bem. Mas, nada me
deixava mais feliz que uma manhã de sábado no meu bairro. Sei, difícil fazer
voltar a juventude e pelas ruas não existem mais aqueles rostos queridos. Tenho
de prosseguir...
O passado é uma mala que pode se tornar pesada demais.
Ganhei de brinde filhas. Nelas, os verbos ensinar,
exemplificar, acompanhar ... Confesso que aprendo muito mais, apenas as
observando. As exigências paternais não me fizeram um homem melhor, apenas realçaram
o quanto sou inepto.
Incessante mesmo é a busca por um Deus que faça sentido. Que
dê um norte a uma fé frágil. Algumas vezes acreditei encontrá-lo num abraço
solidário, no trabalho com paixão, num olhar compreensivo e caloroso. Nunca,
nunca mesmo, encontrei Deus ao pé de santos e padres.
Um lindo dia de sol é o que motiva este corpo um tanto
deteriorado pelos excessos a prosseguir sua busca solitária. Quem sabe minha
alma ao se desprender desta carcaça encontre a serenidade e as respostas que abarcaram
uma vida inteira. Sigo esta senda. Um olho no céu é os pés levitando na terra.
Se meu sorriso te agrada, saiba que tenho prazer em te ver
sorrir mais ainda. É a tua felicidade o que mais importa agora...
sábado, 13 de julho de 2013
Conversando com o Facebook num sábado de noite.
Sabe sr. Facebook (olá Obama, você aqui? Fique a vontade. Desculpe, mas não tenho cafezinho, não), ando um pouco entediado com as análises sobre as manifestações e os consequentes CRTL-C CRTL-V que entopem minha página. É gente apoiando a Dilma, mais um povo linchando o PT, convite pra manifestação, doação de bichinhos e outras atividades meritórias, ou nem tanto, dependendo do ponto de vista político de cada um. Há também as correntes solidárias, fotos de comidas exóticas, viagens sensacionais, os cartõezinhos religiosos, pessoas desancando o Papa e outras convidando para um momento de oração. Colorados insanos e gremistas doidos tem feito da minha página um rosário de ofensas. Evito comentar e postar alguma coisa do meu time, pois sempre aparece um sem noção que se faz de mal entendido e começa uma briga surreal. Numa determinação um tanto rude, uso como norma, a pena capital para palavrões. Deleto no ato. Deve haver elegância no uso de palavras deselegantes. Sugiro xingar em outros idiomas.
Enfim, me parece que todos tem opinião, todos tem algo a dizer. Dia desses, um querido amigo, Lucas Barroso, jovem jornalista que escreve muito bem, registrou que não quer ser julgado e nem julgar neste "tribunal virtual". Eu, de chato, fui lá e meti o bedelho no texto dele. Só por essa frase, passou ao rol de pessoas que dou atenção ao que escreve.
Nos tempos dos PSDB, eu lia Carta Capital e Caros Amigos. Em tempos de PT, me esforço pra ler a VEJA e alguns cronistas do Estadão. Ao fim das contas e de tantas acusações de parte a parte, concluí que nenhum político neste país está a altura do meu voto. Isso me remete à juventude, no tempo das Califórnias, quando Victor Hugo cantava "Pra onde ir..." Soa tão atual, mesmo depois de três décadas...
Pois é Facebook, tal como o senhor Orkut, vocês me aproximaram pessoas que haviam evaporado da minha vida, para o bem e para o mal. A Marianna é o resultado de um reencontro virtual, e por isso não liquidei minha velha continha lá.
Pergunto-me, às vezes, porque dedico mais de uma hora diária lendo cada postagem aqui feita. E olha, que leio quase todas. Como se fosse um vício insaciável saber o que os outros pensam e tem a coragem de dizer...
Confesso que já me deprimi com as notícias sobre a evolução da doença de um desconhecido, bem como vibrei muito com as vitórias e conquistas de muitos outros, principalmente daqueles que foram meus alunos e hoje ocupam seu espaço dignamente.
Num mea culpa, reconheço que exagero ao postar fotos das minhas filhas que crescem e da mulher com quem divido bons e maus momentos. Ou de algum evento bacana do meu trabalho. Mais ainda escrever frases que só meia dúzia entende o contexto, brincando de ser inteligente ou recomendando músicas de gosto muito exclusivo e restrito, bancando o cool...
Mas, de repente é o objetivo disso tudo, compartilhar o que tenho, com quem eu gosto neste mundinho virtual...
Enfim, me parece que todos tem opinião, todos tem algo a dizer. Dia desses, um querido amigo, Lucas Barroso, jovem jornalista que escreve muito bem, registrou que não quer ser julgado e nem julgar neste "tribunal virtual". Eu, de chato, fui lá e meti o bedelho no texto dele. Só por essa frase, passou ao rol de pessoas que dou atenção ao que escreve.
Nos tempos dos PSDB, eu lia Carta Capital e Caros Amigos. Em tempos de PT, me esforço pra ler a VEJA e alguns cronistas do Estadão. Ao fim das contas e de tantas acusações de parte a parte, concluí que nenhum político neste país está a altura do meu voto. Isso me remete à juventude, no tempo das Califórnias, quando Victor Hugo cantava "Pra onde ir..." Soa tão atual, mesmo depois de três décadas...
Pois é Facebook, tal como o senhor Orkut, vocês me aproximaram pessoas que haviam evaporado da minha vida, para o bem e para o mal. A Marianna é o resultado de um reencontro virtual, e por isso não liquidei minha velha continha lá.
Pergunto-me, às vezes, porque dedico mais de uma hora diária lendo cada postagem aqui feita. E olha, que leio quase todas. Como se fosse um vício insaciável saber o que os outros pensam e tem a coragem de dizer...
Confesso que já me deprimi com as notícias sobre a evolução da doença de um desconhecido, bem como vibrei muito com as vitórias e conquistas de muitos outros, principalmente daqueles que foram meus alunos e hoje ocupam seu espaço dignamente.
Num mea culpa, reconheço que exagero ao postar fotos das minhas filhas que crescem e da mulher com quem divido bons e maus momentos. Ou de algum evento bacana do meu trabalho. Mais ainda escrever frases que só meia dúzia entende o contexto, brincando de ser inteligente ou recomendando músicas de gosto muito exclusivo e restrito, bancando o cool...
Mas, de repente é o objetivo disso tudo, compartilhar o que tenho, com quem eu gosto neste mundinho virtual...
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Os milicos se queixam muito de fazer cri-cri. A atividade exaustiva de tirar as ervas que crescem entre os paralelepípedos das ruas com um ferrinho nas mãos.
Não sei se foi isso que inspirou papai que, volta e meia, nos convocava, nos dava um saquinho e junto, a ordem de catar pedrinhas e retirar as rosetas do gramado. Acocados ou de joelhos, enfrentávamos os três belos tapetes que havia no declive do terreno, esculpídos ainda pelo meu avô na década de 1960. Uma ou outra espetada de uma roseta madura, uma canseira danada sob o sol e estava pronto. Lembro que dava pra caminhar com o pé descalço, deitar e rolar... Um tapete mesmo, como mostra a foto das primas Lourdes e Cleci.
Assinar:
Postagens (Atom)