Dia bom pra escrever algo. Passar a entrada do aniversário fazendo algo que gosto muito tem tudo a ver. Sobre a efeméride nem vou citar. Fiz 47 anos e pronto. Os joelhos, as juntas, o fôlego e até a voz estão indo pro beleléu. Firmes, ainda, os apetites... todos aqueles em que você pensou agora, mesmo com esse sorrisinho safado. De bom, a mulher e minhas filhas. E a família, já que a minha é bem legal, com tipos e perfis variados. Todos muito honestos e retos.
Agora, aos 47 anos, me percebo um ranzinza rabugento implicando com a cidade, que já nem chamo mais de minha. Pô! Ou eu estou esclerosando ou caminhamos céleres para um caos urbano. Ali, no contato direto, tete a tete, é um pega pra capar medonho... Como dizia papai, ninguém da passagem pra ninguém. Todos cobrando seu pedágio psicológico, monetário, afetivo, etc... Eu ouvi e vi coisas durante o último ano que foram revoltantes. E o pior, me calei. Talvez daí essa raiva, esse pessimismo. Ficar ouvindo um cara falar das experiências com uma menor de idade, numa vilinha qualquer a preços módicos reforçou meu sonho adolescente de ir embora. Sonhos estes que jazem naquele baú amargo das coisas que deixei de fazer. Ir pra onde? Aos 47!?
Porto Alegre parou, se estupidificou, se corrompeu. Com tantos governos ineptos, edis inúteis e uma população que faz jus aos que lhe governam, só poderia desembocar no trânsito caótico, na delinqüência, na pobreza e nas mazelas. Ou será que estou demente? Você tem tranqüilidade para sair à noite na cidade? Está contente com o transporte coletivo (ê o que eu uso - pra você que anda de carro, já não pensou em atirar em alguém nas ruas?)? Acha que formamos algo nas Escolas públicas? Tirou a sorte grande no SUS e conseguiu atendimento?
Mas, temos dois estádios lindos! E uma empresa de comunicação que pinta o RS com as cores do arco-íris. Olhando o face, veja o que se gastou de reflexão, de tempo, de esforço sobre os comparativos entre a Arena e o Beira-Rio. Sobre qual é melhor... E as pessoas, essas mesmas, trancadas nos engarrafamentos, resfolegam emitindo pareceres e teses que garantam a supremacia do seu time sobre o outro. Algumas poderiam ser temas acadêmicos, de tão chatos e detalhados. Futebol é um produto cultural hoje em dia. Dá forma a nossa cultura, brasileira. Até os caudilhos se mixaram (vide o Tarso que raspou o bigode, diferente do Olívio, que ainda tem bigode e cabelo no peito, sobre ele, disse o Elio Gaspari: "uma das últimas memórias da moralidade do partido da estrela"). Isso remonta a minha juventude, quando fui votar pela primeira vez, aos 19 anos. Quanta decepção. Devia ter ido pro Canadá, um tempo depois. Mas, eu acreditei que esse país mudaria, que meu estado cresceria e que Porto Alegre se humanizaria. Isso é o que eu chamo de começar bem os festejos do meu aniversário.
Um comentário:
Querido amigo Estácio!
Que prazer ler seus textos! Cheios de poesia, graça e realismo como só um escritor treinado na vida saberia escrever. Tive vontade de fazer controlc e controlv em alguns deles e passar adiante porque também transmitem parte do que penso.
Obrigado amigo por dividir conosco seus pensamentos! Abraços e uma Santa e Feliz Páscoa para você e sua família!
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