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quinta-feira, 28 de abril de 2022
Doce
Prestígio pra quem não conhece é um chocolate recheado de coco ralado. Eu o considero uma delícia, desde a infância, quando aparecia um ou outro na cestinha de Páscoa lá de casa. Ávido pelos doces, sempre deixava o famoso docinho por último. Ficava namorando aquela barra vermelha com pontinhos brancos. Pegava, acariciava, cheirava e devolvia pro fundo da cesta, antevendo aquele prazer especial. Nossos doces de Páscoa não resistiam até as dez da manhã do domingo. Só ficava o meu Prestígio aguardando... Eu ponderava sobre comê-lo de sobremesa pós-almoço ou, quem sabe levá-lo pra escola pra me exibir, abrindo-o triunfalmente no recreio (nunca consegui, acho que sou impaciente). Geralmente almoçava rápido e, escondido dos olhares alheios (meus irmãos já tinham mastigado tudo o que era doce do dia) pegava meu chocolatinho e o abria com delicadeza e o colocava na boca, de olhos fechados. Era uma experiência sensorial muito especial. A receita do chocolate mais o coco parecia que fora feita exclusivamente para mim. Sim, havia Chokito, Sonho de Valsa, o caro Alpino, o Neugbauer... Mas, nenhum era como o "meu" Prestígio, que ficou marcado como o bom gosto de infância na memória afetiva. Hoje, eu acho que mudaram a receita ou fui eu que mudei. Posso comer uma caixa inteira que não há a mesma sensação... Algo que ficou lá, permanentemente guardado, indelével. Com o passar do tempo, as atribulações e broncas vão tirando o sabor da vida. Fenecemos. Às vezes, morremos em vida, onde tudo parece tão indiferente. Então seguimos, caminhando a esmo, tateando aqui e ali, buscando as doces recordações de quando éramos inocentemente felizes. Talvez o que me alente seja a esperança de sentir de novo, em algum momento, o gosto "daquele" Prestígio e a sensação boa da vida percorrendo o corpo todo e a vontade de correr pelo pátio, brincar com tudo e todos... Eu não sou mais o mesmo, sei bem. E a fórmula do doce também não é. Ficou só a mágica memória... um sorriso que nasce de uma boa "Sensação"... que, convenhamos, é um bom-bom até que razoável.
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