Corria o ano da Graça de 1975 e papai estava passando uns dias em casa, em seu crônico tratamento contra a tuberculose. Estávamos felizes por ele estar com a gente. E, numa tarde daquelas, recebemos a visita do Pe. ROQUE que veio trazer a comunhão e abençoar a família. Meus pais eram muito católicos. Recordo que ficamos todos em pé para a oração e receber a benção. O padre notou que sabíamos rezar bem e perguntou porque eu (o mais velho dos filhos) não estava na catequese. O pai argumentou que eu tinha recém completado 8 anos. Era cedo... Padre Roque meio que determinou que no proximo sábado à tarde, eu deveria procurar a Professora Cleusa Maria Pokorski e acompanhar a turma.
Cheio de receio, compareci naquele frio inverno de junho ao velho prédio de madeira que era o salão da Igreja. Pintado de azul e com piso de cimento liso, era lá que ocorriam os bailes e as aulas de catequese.
Fui recebido pelo seminarista Euclides Benedetti, coordenador de catequese. Sentei e comecei a aprender os sacramentos... Ao fim da aula, que achei curta, voltei pra casa, pelas ruas enlameadas do Pedrinha e apresentei um relatório ao meu exigente pai.
Sempre fui tímido e, com vergonha do meu nome raro e esquisito e mais o sobrenome impronunciável, era um tortura ouvir a chamada... os risos me deixavam em pânico. Eu ficava a aula mudo e quieto e ninguém falava comigo. Eu agradecia. Rezava e fazia o que era solicitado e ia embora aliviado.
Até que num sábado, uma colega me deu um olá, ou algo assim, enfim, me deu atenção..
Entrei em choque! Primeiro, porque era uma menina e, segundo, a dona dos olhos mais lindos que eu já tinha visto. E ela sorriu pra mim. Eu fiquei tonto. Aqueles olhos eram só o que eu via. A aula seguiu normal, mas eu nunca mais fui o mesmo.
De alguma forma descobri o nome da menina. E ela sempre foi simpática comigo. Uma simpatia fraterna, meiga. Havia elegido minha princesinha.
No dia da primeira comunhão, 09.11.1975, eu estava bem feliz dentro de roupas e sapatos novos. E trocamos um oi rápido antes da missa, quando formávamos a fila para entrada solene. Depois, não lembro mais... Era uma multidão, recordo só da fotografia tradicional e de que não tinha conseguido me despedir... Já em casa, festejos com a familia e a certeza de que no Passo das Pedras, em alguma casa, com meu coração alguém havia ficado.
Em 1976, tô passando na porta da sala de aula do meu irmão, deu aquele toing! E o coração parou na garganta. Ela, ali, linda, de cabelo comprido... soube mais tarde que a professora do mano era a mãe dela. Me escondi de vergonha infantil...
Um outro dia, na saída da escola, ela vinha pela rua em sentido contrario e eu não tinha como fugir. E ela me cumprimentou de novo, com aqueles olhos (eles viraram música em 1980)... o coração aos saltos... dei um oi rápido e fui embora. Naquele restante de ano, troquei meu itinerário pra ver se a reencontrava...
Em 77, pela janela da sala vejo a menina, com sua mãe, carregando um bebê. Vieram apresentar a maninha recém nascida à escola. Pra minha enorme tristeza, não vieram na nossa sala.
Naqueles anos, a via esporadicamente. Eu seguia tímido e havia colocado aquela princesa num pedestal. Era um amor infantil, surgido de uma gratidão por um instante de atenção. Olhava outras meninas, pensava estar apaixonado, mas tudo balançava quando, de vez em quando a gente se encontrava...
Em 1980, na festa de formatura, teve baile. Ela estava lá. Tocou uma música lenta e, não sei de onde tirei forças pra convidá-la pra dançar. Gelei quando ela aceitou. Seu corpo se achegou ao meu e dançamos. Primeiro tocou Agonia, do Oswaldo Montenegro. Era noite de 4 de outubro. A música estava terminando quando perguntei se ela queria continuar. E ela topou! Seguimos bailando Vinte e Poucos Anos, do Fábio Júnior. Os colegas morrendo de inveja... eu devia estar asas nos pés, me sentia nas nuvens... e depois, ficamos conversando até o pai dela chegar e buscá-la. Levei-a até a porta e trocamos três beijinhos. Ela entrou na kombi e a festa tinha terminado pra mim.
Era linda demais
Era educada demais
Tinha um padrão de vida melhor que o meu...
Era inacessível, por fim.
Com o passar dos anos, tinha notícias eventuais dela, sabia de algum namorado. Até que descobri a casa em que ela morava e, de vez em quando ia visitá-la com o violão debaixo do braço. Fazia pequenas serenatas..
Nunca deixei de querê-la bem... era minha amiga amada. Um abraço, os três beijinhos e nada mais.
Ela cresceu, encorpou, ficou cada vez mais atraente. Muita mulher para qualquer pretensão de um menino imaturo como eu. Continuei adorando-a sabendo que não era pra mim. E isso tornou-se um bloqueio. Eu não conseguia dizer o que ela representava pra mim. Temia que ele me rechassase... e aquela magia, que eu havia criado, acabasse.
Se eu já a adorava, passei a amá-la de verdade quando no dia mais difícil da minha vida, ela apareceu pra me abraçar... prestar solidariedade num momento ruim. Pequenos gestos.
Depois, cada um seguiu seu rumo. Eu, nas minhas andanças namoradeiras, volta e meia passava pela casa dela e conversávamos animadamente. Às vezes, rolava uma serenata e eu voltava pra casa, sob o calor daquele olhar único. Uma noite daquelas, ela me falou que estava namorando firme. Fiquei um pouco chateado, mas ela estava feliz e fiquei um bom tempo sem procurá-la.
Tempos depois, num sábado, depois da missa, meus pés me levaram pros lados da casa dela. Chamei e (surpresa), ela veio atender. Estava um pouco triste, pois havia terminado o namoro... ficamos ali conversando até que, ousei, a abracei e beijei seus lábios. Trocamos longos beijos. Me despedi com ela tirando sarro de mim dizendo-se surpresa pois achava que eu era gay... só porquê eu nunca atravessei aquela barreira... até aquela noite.
Passei um tempo no dilema de pedir ela em namoro ao mesmo tempo em que acreditava não ter estrutura pra namorar uma mulher daquele calibre...
Quando a procurei, ela tinha reatado o namoro... logo depois casou, soube do nascimento do filho... e eu toquei o barco.
Volta e meia, acontecia um encontro, uma carona (sim, ela dirigia!!!!) E colocávamos as novidades em dia.
Eu casei, tive amores, sabores e dissabores. Separei... pensei em procurá-la. Mas, ah! Ela está bem...
Num encontro com uma professora em comum, fico sabendo que ela havia se separado. Saí correndo... Mas, ao me reaproximar, ela está com o pai doente e... comprometida.
Atrasado de novo!
Fui convidado pra jantar com a familia naquela noite. A única vez que sentei àquela mesa. Era cachorro quente. O namorado não estava. E rimos... e no meio de uma das brincadeiras na conversa, fiquei com uma frase entalada na garganta. Mais uma vez, o medo e o estado de saúde delicado do pai dela me impediram.
Eu queria que ela e sua família soubessem que nunca me considerei homem à altura dela...
Foi a última vez que vi seu pai. Gostava muito dele. E fiquei sentido por ela não ter me avisado. Eu e meus irmãos havíamos combinado de estar presente...
Meses depois, fui visitá-la e ao seu novo marido. Levei junto minha filha. Até hoje, Anna fala da casa da "tia" dos gatos. Fomos recebidos com carinho e alegria. O novo marido era músico e tocava bem o violão.
E eu tive a certeza de que era esse o nosso destino.
Hoje ela é minha cabeleireira, amiga e confidente. Temos o hábito de dizer um ao outro que nos amamos e temos uma alegria genuína ao nos encontrar e brincar com as coisas sérias do cotidiano.
Ela ainda conserva o brilho nos olhos. Um doce olhar de esmeralda. Um farol. Um guia de uma vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário