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quarta-feira, 14 de março de 2012

Viagem a trabalho

Pela firma - Photo Vox (híbrido de latim e grego, que dizem o que faço) - tive de viajar a uma cidade do interior do RS. Na real, não curto muito viagens, a não ser com minha mulher, que é pra lá de parceira. Enfim, ossos do ofício (chavão), cheguei agora a pouco da epopeia...

O trabalho era simples, mas chegar na dita cidade, cruzes... Com muitas malas de apetrechos entramos num ônibus na rodoviária de Porto Alegre, às 5 da matina. Pensei em chegar no local definitivo pelas nove. O motorista me informa então que a viagem duraria (apenas) seis horas e trinta minutos (tóing!). Eu e o William nos abancamos nas poltronas 23 e 24. Pensei que ia recuperar o sono no caminho. Ledo engano. De Porto Alegre a São Leopoldo, fomos brindados com a companhia de uma casal: o homem pilchado de cima a baixo e, a mulher, trazendo na garupa, um filhotinho de uns seis meses, bom de saúde. Berrou da arrancada do ônibus até a rodoviária de São Léo. Coloquei os fones de ouvido no máximo e fui curtindo minha música intercalada com as cenas tradicionais: pai levanta, segura bebê, devolve pra mãe, mãe levanta, canta, sacode, afaga, xinga e devolve o dito pro pai. De repente, silêncio... Mataram a criança? Não, desceram...

Mas, uma pequena multidão entrou logo em seguida, se acomodando nos bancos, como dava. A caravana seguia, em intervalos de silêncio, chamadas de celulares e comentários dos passageiros. TUDO em altos decibéis. Para gáudio, registrei o seguinte diálogo ao telefone:
- Não sei se vou tomar café aí. O Bastião, sim, tá com nóis (sic). Tião, tu vais tomar café na casa do Tenébrio?...  Lá do fundo do carro, se ouve:
- Diz pra ele que vou filar a bóia...
- O bastião vai aí... Eu também... 
E aquele veículo parando de lugar em lugar, sempre com o comentário lacônico do  motorista:
- Localidade tal... cinco minutos de descanso! Pode descer todo mundo.
Eu, fiz de conta que tava dormindo. E mais gente subindo.
De vez em quando, tentava me comunicar com a patroa, mas só dava quando tinha antena de celular. Teve mensagem que ela só recebeu umas duas horas depois. Num determinado lugar, subiu uma senhora e um gurizinho. Ela, cheia de sacolas e o guri com um pastel numa mão e uma pepsi na outra. Sentaram aonde? Do meu lado, claro. Falei pro William que era vômito na certa. Ele se mandou pro único lugar vago, do lado do banheiro do ônibus. Quinze minutos e umas 250 curvas depois, ouvia a mulher esbravejando segurando uma sacola e o piazito chamando o hugo com bastante afinco. O cheiro no local era de perfume meia-boca, misturado a asa, vômito e um eventual peidinho pra alegrar o ambiente. E o ônibus, comendo estrada...
Lá pelas tantas, em meio a lugar algum (a última casa a gente tinha visto uns 20min antes), sobe uma bugra véia e um bugrinho. Registro isso, afinal havia gente naqueles cafundós.
No meio daquele tormento, atravessamos a metade do caminho. Só que numa rodoviária, o ônibus lotou e, parou do meu lado uma senhora com criança de colo. O William teve assumir seu lugar 24 e, de repente, o motorista começa a gritar:
- Quem tem passagem numerada pode sentar. Quem não tem, vai de pé mesmo!
É isso, 2012 e tem gente andando de pé nas estradas gaúchas. Contei seis pedágios na viagem.
Um dos senhores ao lado cedeu seu lugar e diminuiu o clima de tensão criado com aquela senhora e seu bebê de colo.
E o ônibus indo. Cinco horas de viagem e pela estrada, milhares de hectares de plantações. Não me contive e, relembrando o bom e velho Claudino Reck, repeti ao William a pergunta que ele havia me feito, nesta mesma estrada, 36 anos atrás (a resposta foi a mesma):
- Cara, tu viu alguma bota por aí?
- Que bota?
- Aquela que o diabo perdeu...
Enfim, chegamos ao lugarejo. Realizamos o trabalho em dois dias. Povo acolhedor e simpático, possui um hotel, onde nos hospedamos. Apelidei de Hotel do Drácula. Um casarão enorme e antigo. Eu caminhava com meus modestos 100 kg e o piso rangia sob meus pés. Pra culminar, o fígado véio e o cansaço da viagem cobraram seu preço e vomitei a noite toda, enchendo de sonoridades diferentes aquele velho casarão. Acordamos com alguém cantando a plenos pulmões um sucesso sertanejo. Preferiria um canto de galo, mas vá lá.
Fim de papo? Não, tinha a viagem de volta, outras seis horas de entretenimento. Só de sacanagem, comprei as poltronas 23 e 24. E, quando entramos, surpresa, o ônibus veio com poucos passageiros. Mas, ao meu lado... bom do meu lado, entre as trinta poltronas restantes, estava um senhor. Acompanhado de uma caixinha, Na caixinha, cervejas, muitas...
E, resolvi praticar meu espírito franciscano, respondendo com educação as perguntas do cidadão. Me ofereceu balas, o fone de ouvido pro William ouvir música, contou sua vida, perguntou da minha e, dê-lhe cerveja. Não me ofereceu um gole. Eu contei ele abrir uns 8 latões até fingir que estava dormindo. Daqui a pouco ele começou a falar sozinho. Como estava com fones de ouvido, berrava. Desceu numa estação e queria pagar o lanche do motorista. Diante da recusa pegou no braço de uma mulher e ofereceu cerveja. Bem, um fiasco. Mais adiante, me confidenciou que estava fora de casa havia um mês e que vinha pra deixar dinheiro pra mulher. E eu respondendo... Depois, fingi dormir e ouvimos o seguinte diálogo ao telefone:
- Tô chegando... Sabe que homem quando volta pra casa, que beber e comer... de tudo... Alô..alô...alô...
Depois disso, foram umas cinquenta ligações parecidas. Sempre com alguém deixando meu ébrio companheiro falando sozinho: 
-  Alô... Alôôôôôôôô... Logo em seguida começaram os elogios:
- Alô, não quer falar? filiadaputaaaaaa.... vaitefoderrrr... E mais cerveja pra enriquecer o vocabulário.
Depois que ele abriu o décimo latão eu desisti de contar e resolvi voltar a atuação de dorminhoco. Lá pelas tantas, recebo uns socos no ombro e ele me diz que chegamos (estávamos em Canoas ainda). Percebi que ele estava totalmente mamado, falando aquele idioma que só bebum entende. E sugere de pegarmos o mesmo taxi, que ele pagava. O William tremeu nas bases só de pensar em aceitar. Perto da rodoviária, as luzes acendem e ele, no meio daquele trago todo, me diz que precisaria de mim, pois estava com o coração doendo. E eu perguntei porquê. Daí ele me revela que tava feia a coisa com a mulher, que tava angustiado e amargurado, que poderia morrer sentado...
Eu disse pra ele ir pra casa e que tinha minha mulher grávida me esperando.
Pra minha surpresa, ele começou a resmungar e a chorar... Não entendi mais nada daquele algaravia e silenciei perturbado, diante daquele marmanjo de olhos marejados.
E, quando o ônibus enconstou, ele dormiu ou apagou, sei lá. Desci, peguei minhas coisas e, quando passei pela porta, dois funcionários da empresa o estavam acompanhando até a porta... 
Fim da viagem? Não! Estou aqui, ainda meditando:
Um cara, depois de um mês, dando duro pra buscar o provento da família, volta pra casa. Pra comemorar, resolve voltar se divertindo e tomando sua cerveja... Quem já não fez isso antes?
Mas, me inquieta e tira o sono pensar na família que ele atucanou pelo telefone e a mulher que o espera na soleira da porta. E, mais ainda, o fato dele ter pedido minha ajuda e eu ter ignorado. Isso, definitivamente, não é franciscano...

Um comentário:

Anônimo disse...

Prezado fiz varias incursões ao territorio paraguaiense em um ano e essas coisas eram comuns.Te acustuma!