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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Estranhamente real

Daquelas coisas estranhas. Ontem fui ao funeral de uma pessoa muito querida. Cemitério da Santa Casa, antigo. Calorão de 45 graus. Hora do sepultamento: 14h, alto sol. Coincidência ontem fazia 27 anos que meu pai morreu e, como está sepultado no mesmo cemitério, resolvi prestar uma pequena homenagem. Convidei meu irmão Genilson a ir comigo. Ele olhou pro tamanho do sol e disse que ficava pra próxima. Todo mundo foi embora e eu entrei portão adentro. Domingo, duas e meia da tarde, nem uma criatura viva naquela imensidão de túmulos. Dá uma sensação estranha. Medo, só de assaltos. Caminho rapidamente até o fim da alameda, onde está o túmulo de papai. Faço minha oração e me desculpo pelo pouco tempo com o velho, pois tava difícil ficar na sombra, imagina sob o sol de Forno Alegre. No percurso de volta, noto que o cemitério continua silencioso, sem vento, nem pássaros se ouve. Só o barulho dos carros na Oscar Pereira. Subo uns degraus de uma escada e no que fixo o olhar no caminho, surge a uma distância de uns cem metros, uma mulher, vestida dos pés a cabeça de negro, usando também uma espécie de turbante negro que balançava ao sabor de vento nenhum. Não nasci de susto, mas o cagaço foi forte. Continuei e ela, seguia seu caminho que cruzaria com o meu logo adiante. Aos poucos pude perceber as suas feições e notei uma tristeza enorme em seus olhos fixados no chão. As marcas de um sofrimento silencioso, sem lágrimas. Um luto digno e negro em meio aquela claridade. Nem sequer me olhou. Quando estava bem perto, pude notar seu suor escorrendo pelo rosto belo, nem velho, nem jovem. Entre assustado e pasmo com a cena, pensei em dar o lado, conversar, sei lá, trocar uma palavra, entender o porque daquilo, quando irrompe pelo caminho um casal de gringos gesticulando, falando alto, dizendo que era pra lá e, cruzaram por mim. Caminhei mais um pouco e ao olhar pra trás, não vi mais a mulher. Só os gringos. Caminhei entre as sepulturas, meditando, fazendo um tempo, mas não me animei a voltar. Esperei um tempo, e de vez em quando ouvia os gringos tentando se achar em meios às catacumbas. Quando eles saíram pela galeria lateral, resolvi ir embora junto. Fiz o caminho até minha casa a pé, em silêncio, intrigado porque aqueles gringos não estavam suados...

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