Relíquias
Como viajo geralmente sozinho, no silêncio e na observação, sou espectador privilegiado das coisas que se sucedem diante dos meu sentidos. Desde o longínquo dia em que o Paulo Coelho ensinou-me como prestar atenção ao mundo que me cerca, acostumei-me a registrar as cores, os cheiros, até as nuances mais delicadas dos fatos.
Costumo ficar num hotel barato, para que financeiramente compense ficar uma semana longe de casa. Já pernoitei em cada lugar, me deitei em cada travesseiro, me enrolei em colchas que deveriam ter a idade do hotel. Alguns lençóis foram da Guerra dos farrapos, certo...
Tem hotel em que a família proprietária mora nele. Então, fui ouvinte involuntário de algumas discussões caseiras, ouvi aqueles ruídos íntimos, um ou outro tabefe, choro de nenê e o colchãozinho de mola rangendo barbaridade quando um casal se atracava no antigo esporte branco. E também das vezes que um cretino com ataque de chifres resolvia ligar a vitrola a todo vapor num sertanejo corneante.
Cada coisa, a sua maneira, poderia resultar num causo. As histórias mais pitorescas ou marcantes, procuro compartilhar.
Em determinada localidade, mais ou menos lá onde judas perdeu as botas, reparei que ao alvorecer não havia galo cantando. Esquisito. Sempre dá uma nostalgia ouvir um galinho distante saudando o sol. Mas, lá, não ouvi nenhum. Em compensação, fui eleito pela comunidade dos mosquitos como o boteco oficial. O dono do hotel havia me dito que fazia anos que não apareciam mosquitos. E me disse isso com uns elefantes de asa, zunindo em volta dele. Considerando a minha taxa de álcool no sangue foi fácil liquidá-los depois. Estavam todos bêbados. Deixei de recordação uma nova decoração no quarto, com dezenas de insetinhos colados à parede.
Voltando ao galinho, no dia do meu aniversário acordei depois da costumeira trocacão de golpes com a mosquitada. Estava escuro e consultei meu relógio que, por alguma tecnologia legal, mostra os ponteiros no escuro. Eram pontualmente, seis horas. A hora que nasci. Enquanto juntava os pontos, eis que naquele exato instante, ergue-se claro e próximo, o típico canto desmilinguido de um garnizé. Foi como se o rif inicial de Heaven and Hell do Black Sabbath atravessasse a alma. Um corte melancólico e funesto. Um péssimo pressentimento se espalhou pelo corpo. E o dia foi sombrio. Triste como o canto do galinho. Comigo pensava se não havia sido o último.
De noite, ao voltar pra casa, reparei que o dono do hotel falava com alguém pelo telefone em espanhol. Fiquei surpreso com a pronúncia clara e o bom vocabulário. Ao desligar, olhou e riu dizendo que estavam lhe oferecendo curso de espanhol. E aí, cometi o erro. Inventei de brincar:
- Mas, Maradona es mui mejor que Pelé! Me gusta mucho el tango.
E até ensaiei uns passinhos no ritmo de Gardel....
Digamos que ele por algum motivo se enterneceu e se afeiçoou a mim. Durante umas duas horas, só falou no idioma de Cervantes. Preocupado com minha barriga, deu-me uma receita muito legal, que sigo buscando. Um tal de kifel. Uma hora cansei daquela algaravia e resolvi agradecer em alemão... Ao que ele respondeu claramente, inclusive com sotaque. Aproveitou e emendou mais umas frases pra mostrar com quem eu estava falando. Resolvi mudar de assunto e falar sobre imigração. Recebi uma lição, na língua de Dante. Sim, ele sabe falar em italiano. Ali, nos cafundós do Rio Grande, na porta de um hotel velho, tem um cara que é poliglota, com uma vasta experiência de vida. Que andou em vários recantos do globo. Claro que ele fala inglês. Viveu anos nos EUA. Dai eu perguntei, meio temeroso se ele sabia falar polonês. A resposta eu guardei na íntegra:
- Não, polonês não. Mas sei Sueco e um pouquinho de Dinamarquês. Tenho um filho na Suécia, morei um ano perto da terra do Papai Noel, a Lapônia.
Detalhe, o referido cidadão aparenta seus cinqüenta anos, com todos os fios de um cabelo dourado, que escorrem abundantes pelos ombros, ponteados de prata. Muito elegante e esbelto, contrasta com a deterioração avançada do hotel.
Eu parado ao lado dele, seria como comparar Don Diego e o Sargento Garcia.
No dia que acertei as contas, em animado colóquio em que ouvia frases com três, quatro idiomas, resolvi dizer que estava de aniversário:
- Hoje completo 47 anos!
Ele me saudou entusiasticamente:
- Parabéns, o meu é amanhã, dia 09. Farei 64 anos.
Eu achei que ele era mais novo que eu. Ele aparenta ser mais novo que eu. No máximo, talvez a minha idade. Desde de lá só tenho pensado no tal de kufel. Onde encontrar?