Ao chegar perto dos 57 anos, estou compreendendo efetivamente a expressão médica comum em obituários, a tal falência múltipla dos órgãos...
E não estou exagerando, tudo que é órgão do meu antigamente animado corpo está entrando numa acelerada decadência.
Claro, é da vida. Aconteceria comigo, ainda mais eu, que nunca me cuidei, ou como dizia sabiamente meu pai: "economiza a saúde, Estacinho."
Depois que atravessei meio século de existência, constatei que foram involuntariamente instalados patins nos meus pés. Percebi meio confuso que eles rodam num declive interminável em direção a um fim incógnito, ladeira abaixo e, o que assusta, a velocidade só aumenta.
Os prazeres gostosos de abusar do corpo e proporcionar a ele as experiências mais saborosas com álcool, sexo, fumo, vêem acompanhados das reprimendas dos meus convivas, que insistem para eu dedicar meu tempo a cuidar da saúde, fazer exercícios, exames e visitas periódicas ao médico, a fim de preservar por mais tempo a minha estada no mundo.
Me pergunto porquê? Para quê? E, debochadamente concluo que deve ser que sem meu charme, o universo deixaria de girar....
Tolinho, eu. Mas, acho um pouco de egoísmo deles. Deixem-me ir!!
Tenho uma parente que, diante da perspectiva de ficar viúva, não poupa nem o coitado do futuro defunto:
- Depois que tu morre, o dia seguinte é o primeiro dia... apenas isso.
Vontade de tomar uma wódka bem gelada, churrasquear sem me preocupar com uma tal de gota, beber cerveja sem pensar nas calorias e na balança... Saborear um pastel frito, um bolo de chocolate com morango... De passar duas horas numa leitura, tendo um cachimbo aceso no canto da boca. Sentir o corpo ávido de uma mulher ávida por mim. Sair sem me preocupar em carregar uma sacola de remédios e tomar vinho de excelente qualidade em doses além de generosas...
Eu só queria continuar a diversão mas não consigo sair de cima dessas rodinhas, elas já são órgãos independentes me levando... carregando... rumo ao além e ao infinito...
Rumo às farmácias, ao Rivotril e a Seratonina, que ja subsituiu a famosa Fluoxetina, droga esta que sucumbiu à tentativa de me fazer entender (e aceitar) que tudo, tudo mesmo, se deforma e solta as tiras.
Menos os malditos patins.
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