Em outubro 2001, fui convidado como painelista do Seminário Internacional da etnia Polonesa, de Erexim. Fui lá falar sobre um assunto que, modéstia bem longe, entendo como poucos, que é a Imigração Polonesa na cidade de Porto Alegre. Tem ótimas histórias que, com o tempo, vou colocar por aqui, daquele evento. Mas, o principal, foi o elemento humano, as inesquecíveis pessoas (boas e .... inclassificáveis), que conheci. Fui muito bem recebido e tutelado pela Cônsul Honorária, Sra. Wanda Krepinski Groch. Naquele cenário surgiu Piotr (Pedro) Czarnina, meu alter ego para assuntos polônicos, um personagem mítico da imigração, que chegou junto com os primeiros poloneses no RS e, permanencendo entre dois mundos, faz uma crítica análise, com seu clássico sotaque de colono polonês, dos fatos e atos de sua gente, de presença indelével no cenário riograndense.
Para o caso, ele esteve participando de um jantar em homenagem ao 03 de maio, data patriótica polonesa e envia uma correspondência ao organizador daquele evento...Vejamos.
Prezado Po polsku....
Escrevo pra dizer que estive naquela Sociedade Polônia de POA no dia 08 de maio, de 2010, noite fria, pois soube que tinha bigos e pierogi a preço bom, homenagem ao Três de Maio, Dia da Comunidade Polonesa no RS, dança polonesa e um amontoado de polaco fazendo fofoca - porque, me parece, que estão mais civilizados. Veja só, preferiram conversar!! As cadeiras terminaram o evento inteirinhas... Teve até abraços e presentes!! O mundo mudou!!!
Tenho andado em Porto Alegre desde que morreu o Padre Léo. Me parece que com ele se foi uma era. Ando pelas ruas do 4 distrito e não ouço mais as pessoas falarem em polonês. A Sociedade e a Igreja Polonesa estão cheias de vazio. É desagradável ouvir o eco do silêncio naquelas bandas. Até andei me disfarçando de aluno e, pude assitir a umas aulas na Sociedade pra matar a saudade do velho idioma. Tu devias ir lá mais vezes e não só pra vender ingressos ou pra falar do tal CEKAW. Noutro dia estive numa celebração de Páscoa, me disfarcei de judeu (tinha uns três lá) e pude saborear uma ceia simples, bonita e digna na sala do departamento feminino. Tu conversou comigo a noite inteira e nunca imaginou que era IÉU, observando a vida polonesa em Porto Alegre. Sei que tu não me viu, porque logo que cheguei tinha uma confusão na entrada por causa dos ingressos. Uma atrapalhação dos diabos. Mas já viu evento de polaco não ter uma encrenca?? Era dia de jogo de futebol e o pessoal veio depois de terminar a partida. Ingressos, aliás, difíceis de conseguir. Na quinta-feira já nao tinha mais nenhum à venda. Soube que tinham programado para 120 pessoas e, cruz credo, 240 polacos jantaram lá. Por quem eu fiquei sabendo? Bem, quando cheguei fui logo pra galeria observar os polacos e as eventuais pessoas que estariam no convescote. Lá encontrei o fantasma do Bobulak bisbilhotando, enquanto o Zuba, o Zurawski e o Wierzchowski estavam jogando cartas dentro da biblioteca. Na sala do Cekaw, os irmãos Zórawski reviravam os livros velhos daqueles guris (me permita te chamar de guri). Te aviso que são muito bem informados aqueles fantasmas. Eles me disseram, divertidos, que "assistem" cada fofoca naquela sede e ficam felizes quendo se lembram deles. Mesmo quando falam mal. Mas, o povo se ajeitou e devo dizer que o salão estava bonito, cheio como há muito tempo não se via. A decoração com balões coloridos era uma tragédia mas, fazer o quê, nunca primamos pela criatividade decorativa. Faltou a cor MARELA. Póco VERMÉIO...
Bem, fiquei de papo com as assombrações até que uns dois gordinhos (me caiu o queixo quando vi que um era tu - faz um regime guri) ocuparam seus postos no microfone e no som e me postei a observar. Tinha até telão!! Geringonça nova!!
Fizeram uma arenga inicial sobre a data festiva polonesa (voz boñita tu tem guri), e de repente, as projeções das telas de Matejko naquela TELEVISON GRANDE mexeram com o espírito polonês presente na casa. Os guris do CEKAW providenciaram até um papel com o resumo da data com as letras das músicas que iriam ser cantadas. Vi muitos daqueles papelzinhos serem dobrados e guardados com carinho. Depois, teve uma bonita entrada de bandeiras no recinto, com o povo todo aplaudindo cada uma. Menos os garçons, que ficavam desfilando quando não deviam. Mas, perfeição é impossível.
Meu amigo, quando iniciaram os acordes iniciais do 3 de Maio, o carteado parou, os fantasmas se perfilaram e todos vibraram com os acordes do WITAJ MAJ e BOZE COS POLSKE. Alguns que sabiam a letra cantaram, eu entre eles, berrando a plenos pulmões lá da galeria.
Findado o ato, rapidinho me aprontei para a janta. Já tinha me servido quando chamaram as polonesas mais idosas presentes (91 anos as duas). Mas, fazer o quê, o protocolo atrasou o convite. Peguei o meu logo! Espero que não tenham reparado na minha falta, mas afinal de contas, eu sou muito mais velho. Os avós delas eram bebês quando eu cheguei ao Brasil. Como sou muito modesto, deixei assim mesmo. Aquela festinha tava muito bonita pra eu ficar brigando e xingando os organizadores.
Claro que teve confusão na hora da comida. Mas ninguém deu muita bola. A não ser um ou outro, de prato na mão, falando alto que o serviço podia ser melhor. A maioria estava saboreando o prazer de se reencontrarem naquela casa, que foi a casa dos pais, avós e bisavós poloneses. Quando eu fui repetir pela terceira vez, acabou o Bigos. Os fantasmas deram risadas quando, às pressas, improvisaram um cozido de couve e repolho e colocaram no bufet. Ficou bem esquisito, mas fica de lembrança pros organizadores que, a polacada come e come bem. Entre uma garfada e outra, assisti a apresentação de músicas modernas polonesas, num vídeo bem organizado. Tinha um polaco reclamando do barulho e que queria música folclórica. DO DUPA!!! Pensam que na Polônia as pessoas andam em trajes típicos todos os dias e que os bons tempos eram os de Stalin... Saúdo as mentes que estão se abrindo e mostrando que a Polônia também avança no tempo, em todas as áreas. "Estreitem os laços culturais, acho que é a melhor forma de homenagear a terra dos antepassados".
Depois da janta, a turma se aprontou pras homenagens às mulheres. Falou o eterno presidente (quem usou o termo a primeira vez foi o Dr. Polanczyk) saudando as senhoras que, num papel secundário, foram o verdadeiro esteio da comunidade. Foi muito bonito. Queria saber de quem foi a idéia genial de colocar wódka na cesta de uma das velhinhas?
O grande momento da festa foi o STO LAT, que acordou as reminiscências de todas as gerações. Ficarei com a imagem de uma senhora idosa, sentada, de olhos fechados, cantando alto e de mãos dadas com a sua família. Tenho certeza de que seus pensamentos naquela hora estavam com aqueles que lhe ensinaram a antiga melodia de saudação à vida. Emocionante! Ali estava a grande recompensa pelo esforço dos que organizaram o evento. Meus parabéns e congratulações à Sociedade Polônia, que no dizer de alguns está uma sepultura. Ledo engano! Há muita cultura polonesa a ser manifestada e ela não está só nas danças, cantos, livros e trajes. Está no sentimento de ser descendente de poloneses.
Depois tivemos as apresentações de dança polonesa, com um grupo novo, cheio de mulatos a bem da verdade, mas dirigido com mão firme por uma senhora polonesa. Ficou bom, mas ainda longe daquele grupo que vi, na cidade de Casca em 1966, nas comemorações do Milênio Polonês. Finalizou com a dança gaúcha, do grupo da própria Sociedade que abre suas portas e reverencia o solo em que os ancestrais estão descansando.
Fim? Não! Para minha surpresa, as pessoas ficaram conversando, trocando ideiais, gente falando sobre a Polônia, famílias saudando suas origens, famílias que vieram com camisas estampadas com os brasões ancestrais, gente que veio de outros estados para falar sobre polonidade e algumas até, resolveram cantar. Pena que tu foi embora antes da cantoria, quando até os fantasmas desceram pro salão e ficaram ouvindo as velhas canções puxadas por um bigodudo, sempre carregando um livrinho na mão. Era o Dr. Was Prawnik. Até ele estava lá, irônico e sorumbático como sempre. Ficou o gostinho de quero mais. Provou pra mim que a cultura polonesa está presente, desde que bem divulgada, apresentada com seriedade e, porque não, profissionalismo.
PS: O Zuba me disse que querem fazer uma Mostra Folclórica em Agosto e uma Recital do nosso Chopin. Mas os guris do CEKAW estão com medo de organizar. Como disse Jan Pawel Drugi em seu primeiro pronunciamento ao mundo: Não tenham medo! De minha parte lá pra apoiar...mesmo que do singelo anonimato.
Ah! Os fantasmas estão se organizando pra ir também.
Com estima, Piotr Czarnina


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